Obviamente!...
EU tinha apenas 11 anos, frequentava o 1.º ano do Liceu Camões, quando ouvi pela primeira vez a palavra, mas percebi logo o seu significado. Faz precisamente, na próxima terça-feira, 64 anos que ficou célebre a conferência de imprensa que o meu vizinho, General Humberto Delgado, deu a 10 de Maio de 1958, no Café Chave de Ouro, em Lisboa. Ele era o candidato da oposição às eleições presidenciais e foi nessa conferência de imprensa que o correspondente em Lisboa da agência noticiosa France Press, de seu nome Lindorfe Pinto Basto, fez a pergunta, cuja resposta trouxe para a rua milhares e milhares de portugueses: «Senhor General, se for eleito Presidente da República, que fará do senhor Presidente do Conselho»? Em 1958, como todos sabem, o Presidente do Conselho era António de Oliveira Salazar.
Num país que vivia em ditadura, ele percebeu que os seus colegas jornalistas «estavam todos nas encolhas», porque temiam represálias para si e para os seus jornais: o lápis azul da censura era a consequência menor de uma pergunta atrevida, mas óbvia. Infelizmente, hoje, não obstante a nossa Constituição consagrar a liberdade de expressão e opinião, há novamente quem se encolha no exercício dessa nobre profissão, essencial numa democracia a viver em maioria absoluta.
A resposta, que, segundo rezam as crónicas teve várias versões, mas que chegou a mim pela voz do meu Pai, foi: «Obviamente, demito-o!»
A partir de então, o advérbio de modo e o adjectivo aparecem sempre muito ligados com demissão e demitir: obviamente, demita-se; obviamente, demita-o: obviamente, devia demitir-se. Vivemos, porém, um tempo, em que, na política, nada é óbvio, a não ser a falta de sentido de Estado e a falta de preparação, a todos os níveis, para exercer cargos públicos, designadamente, governativos.
No passado, que podemos considerar recente, tal como a Democracia, apesar dos seus 48 anos, alguns dos que se demitiram, fizeram-no por razões óbvias para eles e, se calhar, não tanto para o cidadão comum. Foi um tempo em que os políticos tinham vida além da politica, isto é, tinham vida passada, currículo quanto basta para se perceber que a política não era um modo de vida, mas uma missão temporária, que pode ser largada a todo o momento, que conseguem viver o futuro sem necessidade da política. Quando a missão se torna um modo de vida, algo vai mal e por isso o país não está bem. Concordem ou não, é o que eu penso.
Para Jorge Coelho, o óbvio foi o seu sentido de Estado e a responsabilidade política que assumiu de uma forma clara, perante a tragédia de Entre-os-Rios. Para José Maria Roque Lino - de quem pouco se fala por ter sido dos primeiros a assumir o que para ele era óbvio - terminou praticamente a sua carreira politica, por força de um deslize do seu chefe de gabinete, ele que, inclusivamente era fundador do Partido Socialista. Foi meu colega de curso e de Direcção no Sporting Clube de Portugal, e tantas vezes comigo desabafou acerca do que fomos assistindo e que põe em causa a ética republicana. João Soares teve uma reacção humana face a Vasco Pulido Valente, mas para ele foi óbvio que um ministro não pode, por vezes, ter reacções demasiadamente humanas, antes se lhe exigindo frieza protocolar.
Novo secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Correia, almoçou com o presidente do FC Porto, Pinto da Costa
Podia dar mais dois ou três exemplos - não mais - de quem teve na política comportamentos que os obrigaram, em consciência, a demitir-se. Mas também tivemos muito recentemente um governante com razões óbvias para se demitir ou ser demitido, mas que obviamente se não demitiu por se sentir coberto, por quem, nem sempre, tem o sentido do óbvio! É assim o Portugal do século XXI!...
O caso mais recente de falta de sentido de Estado é o do novo secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Correia, «muita ativa, especialmente no desporto regional, uma pessoa simples, muito próxima e muito disponível», conforme o caracterizou o presidente da Associação do Futebol do Porto. E disse mais: «Conheço bem o Dr. João Paulo Correia e penso que o desporto ganhou um profundo conhecedor daquilo que é o desporto em primeiro lugar e, em segundo, daquilo que são as realidades do futebol distrital.»
Sabemos ainda pela Comunicação Social que «o indigitado secretário de Estado foi presidente do Clube de Futebol de Oliveira do Douro, em Vila Nova de Gaia, entre 2012 e 2018», mas na opinião do presidente da AF Porto essa não é a única mais-valia a justificar a escolha feita por António Costa; e o dirigente da AF Porto revela que o novo secretário de Estado do Desporto colaborou «enquanto dirigente associativo, participando ativamente na vida do seu clube e da Associação de Futebol do Porto», e diz não ter dúvidas de que «o desporto ganhou uma pessoa que conhece profundamente as suas realidades, nomeadamente no futebol e no futsal».
Não sei porquê, mas quando li isto - ao que parece ainda no tempo de simples indigitação - lembrei-me de Adriano Pinto e outros Pintos que nas eleições federativas deixavam a eleição do Presidente da FPF para os outros, enquanto eles se preocupavam com os Conselhos de Arbitragem e da Disciplina.
Ao dizer em voz alta aos meus amigos, o que agora acabo de escrever, logo estes me disseram que eu sofria da mania de perseguição e, confesso, que cheguei a dar-lhes razão.
Porém, e sempre de acordo com a Comunicação Social «há pouco mais de um ano, em fevereiro de 2021, após um jogo para a Taça de Portugal, em Braga, onde o FC Porto acabou a jogar com nove e sofreu um golo ao minuto 90+12, Pinto da Costa deu como desertado o então secretário de Estado. Também durante a pandemia de Covid-19, João Paulo Rebelo não foi poupado pelo presidente portista, que lhe atribuiu parte das responsabilidades pelo facto de o público não ter regressado mais cedo aos estádios de futebol ». E li ainda mais as seguintes declarações daquele dirigente associativo acerca do novo Secretário de Estado do Desporto: «Pode encarar de forma diferente aquilo que são as realidades atuais, tanto do desporto regional, como do desporto nacional, quer no futebol profissional, quer no futebol amador; neste caso, é a pessoa certa para o lugar certo.»
Estou de acordo que, na perspectiva da AFP, seja o homem certo no lugar certo. Não estou de acordo que essa seja a perspectiva do cidadão médio, e que a Comunicação Social se encolha perante esta falha da mulher de César! O cidadão mais desfavorecido dirá que o almoço no Dragão se equipara a um perdoa-me televisivo e o mais culto dirá que, como Egas Moniz, foi de corda e baraço ao pescoço!...
São perspectivas bem diferentes, tanto as de Pinto da Costa como as do secretário de Estado da Juventude e do Desporto. «Foi um almoço de apresentação, de conhecimento, no qual tratámos de problemas que existem no desporto nacional, nomeadamente no futebol. Penso que é o início de uma relação que, infelizmente, não tem havido entre o clube e o Governo, através do secretário de Estado do Desporto. Estou muito satisfeito e creio que vai ter frutos este almoço, sobretudo a intenção de mudar muita coisa que de facto não está bem», disse Pinto da Costa; e, logo em sintonia, João Paulo Correia: «Foi uma reunião de trabalho e falámos de diversos assuntos. O FC Porto é uma das melhores instituições desportivas do país e também da Europa. É um clube eclético que representa muitas modalidades e tem contribuído para a internacionalização do desporto português. Falámos da atualidade e do futuro, foi uma reunião que terá continuidade.»
Não pensem os meus caros leitores, que escrevo e transcrevo tudo isto, e que só faço pelo facto de as minhas simpatias políticas não serem para o lado do partido que está no Governo, porque diria o mesmo de alguém que pertencesse ao meu, e não faltariam exemplos de falta de sentido de Estado e de ética; também não o faço por pensar que o secretário de Estado do Desporto é adepto do F C Porto, o que aliás desconheço. Faço-o com alguma tristeza e indignação, como cidadão português, ao constatar que um governante se comporta como um súbdito!
E tudo isto acontece num momento em que o primeiro-ministro britânico avança com um programa de governo para reformar o futebol, enunciando dez mandamentos. E anda despenteado!
Por cá, neste cantinho à beira-mar plantado, o primeiro mandamento para reformar o futebol é apresentar-se a Pinto da Costa.
Pode ser o homem certo, no lugar certo. Precisamente por isso, obviamente, que se devia demitir; e como não o faz, obviamente, que devia ser demitido. Há homens que estão no lugar errado, na hora errada!...