O sonho da reviravolta, as críticas e a renovação: o que disse Rui Borges
- Acredita na reviravolta?
Acredito muito. Disse logo no final do jogo em Bodo, sei que é difícil e que as dificuldades vão ser grandes. A dificuldade já é grande dado o intervalo de 90 minutos e estarmos a perder 3-0. Agora, também acredito muito naquilo que é a resiliência, a capacidade individual e coletiva que esta equipa tem tido e tem demonstrado ao longo da época, porque não é um jogo que define a equipa e que define a qualidade individual e colectiva do Sporting. Tudo o resto que vem para trás é que a define. E, acima de tudo, a equipa tem dado essa demonstração: quer muito dar outra imagem, quer muito mostrar que é capaz de fazer e de continuar a marcar a história do Sporting de forma positiva, fazer algo inédito e extraordinário. Sabemos que temos de fazer um jogo quase perfeito. Vamos à procura disso. A equipa, a ambição deles é enorme e eles têm-na demonstrado desde sempre, desde o primeiro dia que eu cheguei ao Sporting. E é isso que amanhã acontecerá com toda a certeza.
- Que mensagem quer passar aos adeptos?
O carinho e o acreditar que eles têm demonstrado também ao longo destes dias tem sido fantástico para nós. Se há equipa que é capaz, pela sua resiliência, pela sua capacidade de resposta, é a nossa; se há estádio que é capaz de acontecer coisas extraordinárias, é o nosso. E isso deve-se muito àquilo que tem sido a força dos nossos adeptos, que amanhã, com toda a certeza, será uma força extraordinária também para, todos juntos, conseguirmos fazer história.
Preferia que o presidente já tivesse clarificado o assunto da renovação antes deste jogo ou não? Luís Guilherme está apto?
Não vou falar da renovação. Já disse várias vezes: tenho contrato até 2027, não é um assunto para mim. Estou feliz, a confiança é diária. Sei bem aquilo que é a confiança que se vive e a forma positiva que se vive na Academia desde o primeiro dia que cheguei. Por isso, estou feliz aqui, independentemente de tudo o resto dessa história da renovação passar-me completamente ao lado neste momento, sinceramente. Estou focado, sim, em querer fazer algo diferente, algo extraordinário juntamente com os meus jogadores, que eles merecem muito sermos capazes, todos nós sermos capazes de eles fazerem algo, nós todos fazermos algo difícil, mas que nos marque também para aquilo que é o nosso futuro. E eles merecem mais do que ninguém. Por isso, estou muito focado nisso.
Em relação ao Luís Guilherme, infelizmente ontem, no último lance do treino, teve um problema traumático, teve uma entorse. Hoje está em avaliações, vamos perceber até amanhã se há alguma possibilidade de ele dar o contributo.
- O que tem a dizer sobre as críticas dos adeptos após o jogo na Noruega?
É natural. Estamos num grande clube, a exigência é enorme. Queremos muito ganhar, queremos continuar a ganhar. A exigência faz parte disso. Nem eles estavam felizes, nem nós estávamos felizes, com toda a certeza. Agora, não éramos os melhores do mundo quando ganhámos ao Paris Saint-Germain, que é o actual campeão; não somos os piores porque perdemos com o Bodo. Foi um jogo menos conseguido da nossa parte e não apaga tudo aquilo que fomos capazes, tudo aquilo que eles foram capazes ao longo da época em todos os jogos, em todas as competições, não só na Liga dos Campeões, de demonstrar a grande equipa que somos. Faz parte, acho que isso faz parte, isso é natural em qualquer lado do mundo.
- Teme que o Bodo o surpreenda taticamente?
Muito honestamente, acho que eles não vão mudar nada, até porque não fizeram grandes mudanças em todos os jogos. Por isso é que eu disse que não me surpreenderam, no sentido de que nós sabíamos bem aquilo que eles eram capazes e o que são capazes. E não ganharam só ao Sporting. Ganharam a grandes equipas que são candidatas a ganhar a competição. Por isso, estamos a falar de uma equipa capaz, verdadeiramente capaz. E, nesse sentido, não me surpreendeu. Agora, mais surpresa se calhar, claro, fiquei eu, ou ficámos nós, de não termos sido capazes de dar uma resposta diferente perante a equipa do Bodo. Não sei se em algum momento achámos... e isso é muito sentimento, mais do que a parte estratégica ou táctica. Estava definida, mas tem muito a ver com aquilo que é a tarefa e a intensidade — eu disse isso no fim do jogo também — a intensidade com que fazemos a tarefa, individual e colectivamente. E não tivemos, não fomos capazes de dar a intensidade certa na tarefa para conseguirmos anular o Bodo. E isso, sim, temos de melhorar. Temos de ser mais capazes. Vamos ter de ser mais ambiciosos ainda, vamos ter de ser mais corajosos, mais audazes. Sabemos que temos de fazer golos, eu acredito e nós acreditamos muito que vamos fazer golos. Agora, também não os podemos sofrer para não piorar ainda mais aquilo que é o resultado ou a eliminatória. Por isso, estamos cientes das dificuldades, estamos cientes dos perigos que em alguns momentos vamos ter de correr. É certo que o jogo tem 90 minutos, não vamos ter a mesma intensidade durante 90 minutos e temos de estar preparados para esses momentos todos do jogo, acima de tudo mais preparados e mais capazes.
- Porque não votou nas eleições? O que pensa quando dizem que não tem ambição?
Não, o voto só tem a ver com os critérios, não reuni os critérios certos para poder votar. Em relação àquilo que são os adeptos, há leituras, há opiniões. Eu não vivo de estatutos, vivo de trabalho. E o meu trabalho responde por mim. Estatuto e aparência não é para mim, é sim trabalho. E, graças a Deus, estou no Sporting por toda a capacidade que tivemos enquanto equipa técnica e competência para aqui chegar e para continuar a marcar, de alguma forma, a história do Sporting, que é isso que temos feito. A ambição respondia com vários dados: com golos, em termos ofensivos somos das melhores equipas, no campeonato somos a melhor, na Europa devemos ser das melhores também. Em casa somos fortíssimos. Ficámos em sétimo na Liga dos Campeões onde ninguém acreditava que ficaríamos. Por isso, a ambição responde muito por aí. Poderia estar a responder por aí. Agora, aquilo que são comentários faz parte. Como eu disse, não era o melhor treinador do mundo quando ganhou ao Paris Saint-Germain, não somos os piores quando perdemos com o Bodo, porque o Bodo ganhou ao City, Atlético, Inter...
- Reação às críticas do FC Porto pelo adiamento do jogo com o Tondela. Esperava que tivesse menos lesionados nesta fase?
O regulamento é igual para toda a gente. Nós só nos segurámos ao regulamento e adiámos o jogo. Os direitos tanto são para nós como para qualquer outra equipa, exatamente os mesmos. Por isso, nós só accionámos um direito que tínhamos perante a disputa de um jogo onde estamos inseridos, ou de uma competição em que estamos inseridos. Apenas isso e só isso.
(Sobre os lesionados): Muito honestamente, não. Era mais um aproveitarmos algo que o regulamento assim nos permitia e dar aqui algum tempo de descanso, até porque tivemos jogos de grande grau de exigência grande e era bom podermos aqui descansar um pouco para os dois jogos dos oitavos. Porque vínhamos do jogo do FC Porto da Taça, SC Braga campeonato... exigência grande e fomos para um terceiro de exigência grande, de quatro em quatro dias. E não é só física; física e mentalmente desgasta bastante e temos esse direito de conseguir ter aqui mais dias para recuperar ao máximo para a equipa estar ainda mais capaz de dar resposta.
- Após o jogo em Bodo, o seleccionador nacional norueguês, Stale Solbakken, disse que os esforços defensivos dos seus avançados foram quase uma sabotagem. O que pensa sobre essa afirmação?
É uma opinião do selecionador. Lá está, cada um vê à sua maneira. Eu, mais do que olhar para o individual, olho para o coletivo. Não foi só dos avançados ou dos primeiros homens de pressão que não tivemos a intensidade correcta naquilo que era a tarefa, mas sim de forma colectiva. E aqui este grupo não se gere ao individual, gere-se sim ao colectivo. E é isso que nos foca, é isso que os foca também. É uma grande equipa, são muito amigos, respeitam-se muito uns aos outros. E quando ganham, ganham todos; quando perdem, perdem todos. Temos de dar uma resposta capaz, mais capaz em termos colectivos e não só os avançados ou a primeira linha de pressão. Por isso, amanhã será um jogo diferente, obrigatoriamente diferente. Será um jogo que vai exigir mais audácia nossa, mais coragem, como eu disse. Vai-nos expor em alguns momentos, é certo. Mas também sei que o acreditar da equipa e dos jogadores é tão grande que tenho a certeza que darão uma resposta fantástica para aquilo que será a exigência de um jogo contra uma grande equipa. Fisicamente e em termos de intensidade de jogo, é das melhores que vi enquanto treinador.
- O Bodo/Glimt pode vir a ganhar a Liga dos Campeões e quão bons são eles comparados com outras equipas que tem defrontado?
Eles têm mérito por estarem nos oitavos de final. E, como eu disse, ganharam a grandes equipas, ganharam a equipas que são candidatas a ganhar a competição. Por isso, acho que merecem esse respeito de olharem para eles como uma grande equipa que é, porque o tem demonstrado e capaz de bater-se com qualquer uma. Eu já disse várias vezes também, em várias entrevistas ou se calhar em várias antevisões de jogos: o futebol cada vez mais está muito exigente individual e coletivamente. E eles têm acompanhado essa exigência física do jogo. A intensidade é cada vez maior, mais pedida, e eles têm-na acompanhado. Por isso é que digo que acho que, a esses níveis, foi das melhores equipas que vi em relação... enquanto treinador. E cada vez mais essas equipas batem a parte técnica do jogo. Há jogadores e há grandes equipas com grandes jogadores em termos técnicos, mas a outra parte é muito importante e cada vez mais no futebol vai ser importante. Por isso, a equipa que cada vez mais for capaz de dar resposta física, técnica e táctica ao jogo vai estar mais perto de vencer mais vezes. E eles, por essa parte, têm sido capazes de ganhar em termos técnicos também. Têm bons jogadores, mas acho que, no seu geral, a capacidade física que têm no jogo é muito fora do normal.