Estádio da Luz - Foto: A BOLA
Estádio da Luz - Foto: A BOLA

O problema não é o Benfica, o problema é o modelo

Hugo Oliveira, sócio benfiquista e deputado à Assembleia da República, analisa em exclusivo para A BOLA a entrevista ao ECO de Nuno Catarino, CFO da Benfica, SAD

Durante anos, disseram que a centralização dos direitos televisivos era inevitável. E, mais do que isso, que ninguém iria perder. Era essa a promessa. Um modelo mais justo, mais equilibrado, onde o crescimento do bolo resolveria tudo.

A realidade começa agora a desmontar esse discurso.

Depois de Rui Costa, na Assembleia da República, foi a vez de Nuno Catarino, em entrevista ao ECO, reforçar a posição do SL Benfica. E não deixou margem para dúvidas. O modelo em curso não serve o Benfica nem resolve o problema do futebol português.

Durante anos, figuras como Pedro Proença garantiram que ninguém sairia prejudicado. Hoje já não há promessas. Há números. E, nesses números, o Benfica admite perdas que podem chegar aos 15 milhões de euros por época.

Ao mesmo tempo, o Benfica prova no mercado exatamente o contrário do que lhe querem impor. Consegue um contrato para as próximas duas temporadas acima do que muitos consideravam possível. Quando negoceia sozinho, valoriza-se. Quando entra no modelo, perde. Não se constrói um sistema mais forte à custa de enfraquecer quem mais valor cria.

Enquanto alguns clubes negoceiam hoje contratos por valores inferiores aos anteriores, o Benfica continua a puxar o valor do mercado para cima. E, ainda assim, é chamado a aceitar um modelo que o penaliza. Um modelo que não cria valor. Só o divide.

Durante anos falou-se de um bolo de €300 milhões para distribuir. Era esse o argumento. Hoje, já poucos acreditam nesse número. E perdeu-se demasiado tempo a discutir como dividir, sem nunca discutir seriamente como crescer.

Pouco ou nada foi feito para valorizar o produto. Estádios, relvados, qualidade das transmissões, experiência de jogo. Pouco ou nada disto foi melhorado. Não houve uma estratégia consistente de internacionalização. Nem um combate eficaz à pirataria. E, nesse vazio, o SL Benfica fez o seu caminho, investiu, valorizou a sua marca e aumentou a capacidade de gerar valor por si.

A ideia de uma centralização facultativa pode não ser perfeita. Mas tem uma vantagem essencial. Parte da realidade. Permite que quem precisa ganhe escala, sem obrigar quem já cria valor a abdicar dele. No fim, a questão não é ideológica. É estrutural. Se quem mais valor gera passa a receber menos, o problema não é o SL Benfica. O problema é o modelo.