O não assunto Schmidt

Rui Costa identificou a vaga maledicente que estava a gerar-se e eliminou-a num instante, decidindo como decidiu, depressa e bem, na defesa da paz interna

ESTA jornada 26 foi vivida de uma forma  muito agitada.  Ninguém o assumiu, mas pairava  no ar um ambiente  pesado, inquietante até, por ser a última paragem  do líder antes do clássico, ainda por cima em estação nada simpática para quem por lá passou antes, como o FC Porto, que perdeu, e o SC Braga e o Sporting, ambos obrigados  a muita labuta para vencerem por margem tangencial. 

É normal  que os  adversários que preenchem os primeiros lugares da classificação da Liga tivessem desejado ao Benfica todos os azares do mundo nesta visita a Vila do Conde, mas Roger Schmidt já deve ter aprendido o suficiente acerca das más relações de vizinhança na lusa paróquia do futebol, das suas invejas e dos seus truques, por isso antecipou dificuldades escondidas e preparou soluções a condizer. 

Foi prudente ao resguardar Florentino em jogo que se previa  muito disputado, como aconteceu, e não teve pudores em defender a magra e preciosa vantagem de um golo quando se apercebeu de que havia entre a sua gente havia quem dava sinais de pouca estabilidade, mais uma vez  a seguir  a outra paragem por causa das seleções. Como sintetizou em opinião curiosa, sentiu que estava a faltar alguma coisa no último toque.

O Benfica regressou de Vila do Conde com uma vitória cujo real valor transcende os três pontos regulamentares, na medida em que lhe permite, na próxima sexta feira, arrumar o campeonato  se para tanto tiver  engenho e arte  para derrotar o dragão, na Luz, e ampliar o fosso que os separa para treze pontos. É possível, desde que Schmidt consiga impor uma dinâmica mais ambiciosa e libertar a águia dos medos que a têm tolhido, nomeadamente desde que Sérgio Conceição é treinador do FC Porto. Nos últimos quinze clássicos, apenas em três ocasiões o Benfica ganhou, duas na temporada 2018/2019, na altura com Bruno Lage ao leme na comemoração do 37.º título nacional, e a terceira  na presente época.
 

AS dúvidas a propósito  da renovação de Roger Schmidt e que subitamente se transformaram  em tema central de todos os espaços de opinião  e comentário, não foram suscitadas por acaso. Atempadamente, A BOLA teve o cuidado de noticiar que o processo seria pacífico e que a SAD apenas esperava a chegada do seu agente para colocar ponto final no caso, mas fontes houve que, apesar de saberem que havia uma relação estável  e cordialmente acordada, transformaram um não assunto, do meu ponto de vista, numa algazarra sem sentido, como se depreende das palavras do próprio treinador alemão, embora agradecido por lhe terem prolongado e melhorado o contrato sem que ele tivesse feito qualquer exigência nesse sentido:

«Já tinha dito que havia muito tempo porque o contrato não acabava este ano, mas o clube perguntou-me.  Eu gostei que tivessem  querido prolongar o meu contrato, falei com a minha família e, depois, foi uma decisão fácil.» 

Disse mais: «Adoro estar no Benfica, acredito no clube, nos benfiquistas, na equipa, nos jogadores, nas pessoas… É um sítio fantástico para viver o futebol e lutar por títulos. Foi por isso que a decisão foi muito rápida, é um tema que está encerrado.» Mais palavras para quê?...  

Rui Costa identificou a vaga maledicente que estava a gerar-se e eliminou-a num instante, decidindo como decidiu, depressa e bem, na defesa da paz interna e da promessa que fez  aos seus apoiantes de recuperar o estatuto europeu da águia.
 

NÃO faço ideia de quem tenha sugerido o nome de  Roger Schmidt a Rui Costa, nem o que este lhe propôs e que tanto o entusiasmou, mas foi uma escolha feliz.
O Schmidt  autêntico não cabe, porém, no que temos visto dele, como contou em A BOLA TV o jornalista Luís Mateus, um estudioso e seu admirador, que o segue há muito. 
 
Conhecemos-lhe o seu lado cortês, de sorrisos contidos, embora atento ao que o rodeia, mas também devemos preparar-nos para as suas iras. Estará a fazer um  esforço para se conter, ou ainda não foi posto à prova, mas talvez mais cedo do que tarde, se lhe pisarem o calo de estimação, poderemos ver o outro lado deste treinador dos afetos, à semelhança do nosso Presidente Marcelo, que admira a paixão dos adeptos e tem respeito pelo sacrifício que fazem nas suas vidas para poderem ir ao estádio apoiar a equipa e que, em termos de solicitações para abraços e selfies  foi dos mais solicitados pelos adeptos, se não o mais solicitado na despedida de Vila do Conde.  

Sobre o clube, curva-se perante a sua grandeza que compara à do Real Madrid ou do Barcelona, como sublinhou na entrevista que deu à revista Der Spiegel. Da equipa, quer títulos e que pratique um futebol que lhe dê prazer ver.
 
Não adivinho o que este alemão vai ser capaz de ganhar dentro do campo durante o seu contrato, mas fora dele, em meia dúzia de meses, teve o mérito de ganhar a admiração e a confiança do povo benfiquista.