No futebol jovem, proteger o corpo em crescimento é tão importante quanto trabalhar técnica ou tática - Foto: Imago
No futebol jovem, proteger o corpo em crescimento é tão importante quanto trabalhar técnica ou tática - Foto: Imago

O impacto do desporto no corpo dos jovens

'Mito ou Realidade' é o espaço de opinião de António Araújo (Medicina Física e de Reabilitação, Clínica Espregueira, Dragão) e João Espregueira-Mendes (Presidente da Sociedade Mundial de Artroscopia, Cirurgia do Joelho e Medicina Desportiva Ortopédica, ISAKOS)

No futebol de elite, o talento é apenas parte da equação. O corpo em desenvolvimento dos jovens atletas é outro protagonista e a forma como cresce e se adapta pode ditar não apenas o rendimento, mas também a vulnerabilidade a lesões. Estudos recentes sobre futebolistas jovens evidenciam que o perfil de lesões muda conforme a idade e a maturação biológica — um fator muitas vezes esquecido no treino diário.

Nos escalões mais jovens, predominam lesões musculares e problemas ligados ao crescimento ósseo. Os picos de crescimento rápido colocam tensões extraordinárias nos tendões e cartilagens, sendo nesta fase que surgem dores nos joelhos ou pernas, muitas vezes interpretadas como simples desconfortos temporários — canelites. Ignorar estes sinais pode atrasar a recuperação e predispor a lesões mais graves.

À medida que os atletas amadurecem, as lesões ligamentares, sobretudo nos joelhos e tornozelos, tornam-se mais frequentes. A força e velocidade aumentam, o jogo torna-se mais intenso e o corpo, se não estiver preparado, torna-se mais vulnerável. A ciência mostra que programas de prevenção neuromuscular e controlo de carga individualizado reduzem significativamente este risco.

Há ainda diferenças importantes entre géneros. Jogadoras jovens apresentam padrões distintos de lesões, com maior incidência de lesões do ligamento cruzado anterior, refletindo fatores biomecânicos, hormonais e de maturação. Este conhecimento obriga a estratégias de treino e prevenção adaptadas, em vez de aplicar o mesmo modelo que funciona no futebol masculino.

O desafio para equipas técnicas, médicas e performance é gerir a diversidade de maturação dentro de uma equipa: alguns atletas crescem antes, outros mais tarde; alguns ganham força rapidamente, outros desenvolvem coordenação mais devagar. A monitorização individual, avaliações periódicas e comunicação constante com o atleta são ferramentas essenciais para reduzir riscos e garantir o desenvolvimento seguro.

No futebol jovem, proteger o corpo em crescimento é tão importante quanto trabalhar técnica ou tática. Prevenir lesões não significa apenas manter os atletas em campo, mas sim prepará-los para uma carreira longa, saudável e competitiva. Crescer no futebol é muito mais do que ganhar jogos: é aprender a respeitar o corpo que os leva a jogar!

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