Kerley venceu os 100 metros ficou muito longe do recorde mundial de Bolt. IMAGO
Kerley venceu os 100 metros ficou muito longe do recorde mundial de Bolt. IMAGO

O 'flop' dos Jogos do Doping e o fascínio pelo proibido a que o Mundo assistiu

A polémica competição realizou-se em Las Vegas e a prova rainha dos 100 m foi vencida pelo americano Fred Kerley, campeão do mundo em 2022 e duplo medalhado olímpico, que jurou competir limpo. O seu tempo de 9,97 segundos ficou consideravelmente aquém do recorde mundial de Usain Bolt (9,58s), de 2009. Saiu sem os bolsos cheios, mas houve quem regressasse a casa milionário

Fred Kerley venceu os 100 metros nos Enhanced Games, em Las Vegas, com um tempo de 9,97 segundos, numa prova marcada por múltiplas falsas partidas. O grande destaque financeiro da noite foi, no entanto, o nadador Kristian Gkolomeev, que arrecadou um bónus de um milhão de dólares ao bater o recorde mundial dos 50 metros livres.

Apesar de ter previsto que o recorde mundial de Usain Bolt (9,58 segundos) seria «destruído», Kerley registou uma marca que o teria deixado no último lugar nos Jogos Olímpicos de Paris2024, onde conquistou o bronze com 9,81 segundos. A corrida foi caótica, com os atletas a serem chamados aos blocos de partida por quatro vezes devido a falsas partidas e até a um atleta que precisou de atar os sapatos.

O prémio de um milhão de dólares, reservado para quem superasse um recorde mundial, foi entregue a Kristian Gkolomeev. O nadador completou os 50 metros livres em 20,81 segundos, superando a marca de 20,88 segundos estabelecida por Cameron McEvoy há dois meses. Contudo, o recorde não será homologado, uma vez que os Enhanced Games permitem o uso de substâncias para melhoria do desempenho, que são proibidas nos desportos convencionais.

Gkolomeev, que já tinha recebido um prémio semelhante no ano passado num evento de teste, mostrou-se satisfeito. «Mais um milhão, não é nada mau», afirmou. «Isto vai mudar a minha vida para melhor, sem dúvida».

A promessa de Kerley de bater o recorde de Bolt gerou grande expectativa, levando até o próprio jamaicano a reagir nas redes sociais com um simples «OK». No entanto, a confusão na partida, com três chamadas aos blocos antes do arranque definitivo, parece ter afetado o desempenho. «Muitas falsas partidas, muitos saltos, muita gente que não queria correr as eliminatórias», lamentou Kerley, que, apesar de tudo, embolsou 250 mil dólares pelo primeiro lugar e garantiu não estar a usar substâncias proibidas.

O evento, que decorreu num estádio construído para o efeito na Las Vegas Strip perante cerca de 2.500 convidados, é visto pelos seus investidores, como Peter Thiel, como o início de um novo modelo de negócio. «É apenas o começo», declarou o CEO Max Martin, referindo-se à ambição de transformar a organização numa espécie de farmácia online que disponibiliza substâncias para melhoria de desempenho sob supervisão médica.

Na vertente feminina, a prova de 100 metros não contou com o mesmo mediatismo. A vencedora, Tristan Evelyn, que também afirmou não recorrer a doping, registou 11,25 segundos, um tempo consideravelmente mais lento que o recorde mundial de 10,49 de Florence Griffith-Joyner.

No final, Kerley mostrou-se frustrado com a organização e os adversários. «Eles têm de fazer melhor do que isto», disse. «Têm de treinar um pouco mais, treinar mais naquela m...».

Um sucesso nas redes sociais

Apesar da maioria jurar desprezo pelos Enhanced Games, o aumento de cliques, comentários e debates sugere que o atletismo não consegue resistir ao fascínio da controvérsia. As métricas indicam que, embora os adeptos gostem de ler sobre recordes e medalhas, sentem-se particularmente atraídos por notícias sobre doping e escândalos.

A prova é que um artigo sobre os Enhanced Games gerou mais visualizações do que qualquer outra notícia na última semana. Superou a cobertura da Diamond League em Xiamen, onde Yan Ziyi e Masai Russell alcançaram a segunda melhor marca de sempre no dardo feminino e nos 100 metros barreiras, respetivamente. Também ultrapassou a notícia sobre a vitória de Elise Thorner nos 3000 metros obstáculos em Los Angeles e os feitos de Josh Kerr e Jake Wightman, que baixaram da marca de 1.45 nos 800 metros, bem como a cobertura da National Athletics League (NAL).

Vários meios de comunicação social cobriram o evento, com o jornal The Times a ser particularmente crítico, descrevendo-o como «absurdo, delirante e de nível secundário — os Enhanced Games são um retrocesso». Porém, o fascínio pela controvérsia parece superar o interesse pelo desporto na sua forma mais pura.

A francesa Renelle Lamothe criticou duramente os participantes dos Enhanced Games, classificando-os como «bandidos» e a prova como «uma competição de merda», após os resultados dececionantes na prova de 100 metros.

Num vídeo de quase dois minutos publicado esta terça-feira na sua conta de Instagram, a finalista dos 800 metros nos Jogos Olímpicos de Paris não poupou nas palavras. «Na Diamond League somos mais rápidos!», afirmou, ridicularizando o desempenho dos atletas. «Eles são péssimos, haha... São uns bandidos, achas que vão treinar?», questionou Lamothe.

A participação nos Enhanced Games foi justificada por alguns atletas por motivos financeiros. O francês Mouhamadou Fall, tetracampeão de França nos 100 e 200 metros e atualmente suspenso por falhas nas suas obrigações antidoping, terminou a final em quinto lugar. Fall mencionou ter recebido «uma quantia significativa na assinatura e um bom valor mensal» para participar.

Curiosamente, Kerley revelou ter sido um dos poucos a competir sem recorrer a substâncias dopantes, e o seu desempenho foi superado por marcas obtidas nos dois primeiros meetings da temporada de 2026 da Diamond League, onde o sul-africano Gift Leotlela e o queniano Ferdinand Omanyala correram mais rápido.

Pela vitória, Fred Kerley, que também cumpre uma suspensão por falhas nas suas obrigações de localização, arrecadou um prémio de 250 mil dólares (cerca de 215 mil euros). A título de comparação, os vencedores de provas na Diamond League recebem 100 mil dólares. O prémio de um milhão de dólares prometido para quem batesse o recorde do mundo dos 100 metros não foi atribuído.

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