Antes do encontro com o Chile, o presidente da FPF reiterou que uma eventual eliminação antes dos quartos de final do Mundial 2026 representaria uma má participação

O desafio especial, o exemplo Cristiano Ronaldo e a vitória na despedida (tudo o que disse Roberto Martínez)

Selecionador nacional fez a antevisão ao jogo de amanhã diante da Nigéria, o último antes da partida para os Estados Unidos

— Podemos esperar já uma espécie de ensaio geral para o jogo com a RD Congo, ou seja, aquele onze que eventualmente já poderá ser mais próximo da estreia no Mundial?

— Não, não, porque é o primeiro jogo para cinco, seis dos nossos jogadores, mais o Diogo Costa, sete. Continuamos. É o último jogo de preparação antes do Mundial, mas, para nós, o foco é o foco individual: tentar recuperar e dar minutos aos jogadores que precisam. O primeiro objetivo é levar os jogadores para o avião para Miami preparados para o Mundial. Esse é o objetivo número um. Queremos ganhar. No futebol, precisamos de esperar o inesperado. Aconteceu contra o Chile: fizemos uma primeira parte de um controlo total, muito boa. Depois, com o cartão vermelho e a jogar dez contra dez, atingimos um bom resultado, mas também aspetos que precisamos de melhorar. E contra a Nigéria temos uma oportunidade de trabalhar aspetos que acho que são semelhantes aos pontos fortes que o Congo tem. É uma equipa africana diferente, tem muita flexibilidade tática, mas é um adversário exigente e é um teste para preparar o nosso grupo. Mas não são muitos jogos em que não trabalhamos como inicialmente. Acho que a força de Portugal é o compromisso de todos os jogadores, e nós temo-lo. A minha responsabilidade e a responsabilidade da equipa técnica é preparar os jogadores para ajudar a equipa e, quando estiverem no relvado, utilizarem o seu talento e a sua atitude para ganhar jogos por Portugal. Então não é o onze inicial, não é o onze que termina. Amanhã ajustamos o que precisamos durante o jogo. A ideia é fazer onze substituições. A ideia para o Diogo Costa é jogar os noventa minutos e tentar que todos os outros jogadores tenham minutos.

— Como consegue explicar o estilo tático de Portugal?

— É muito fácil. O estilo de Portugal é muito fácil. É um grupo de jogadores com muito talento e nós temos uma estrutura, um equilíbrio, uma disciplina dentro desse talento para ganhar jogos. Os números estão lá para as vitórias, número de golos, chegar à área; é um compromisso total para defender rápido, defender alto, e esse é o estilo. O que nós temos, depois de 15 anos de trabalho na formação dentro do futebol português, são os jogadores que nós temos. Outro aspeto é o tático. Eu acho que há um aspeto diferente, que é falar da nossa estrutura tática, o estilo e o que nós temos. A estrutura tática é a estratégia do jogo para ter uma vantagem sobre o adversário. E isso eu já falei no primeiro dia em que cheguei aqui à Cidade do Futebol: a nossa ideia é ter flexibilidade tática para poder ajustar todo o talento individual dentro da estrutura de equipa. E é isso que estamos a trabalhar. É muito difícil para pessoas de fora, que não têm conhecimento de futebol, poderem falar do aspeto tático. Eu percebo isso, mas o estilo é muito fácil e definido.

Caso Cristiano Ronaldo decida acabar a carreira na seleção após o Mundial, este poderá ser o último jogo de Cristiano Ronaldo com a camisola da seleção em Portugal. Queria perguntar como é que tem visto o capitão nestes últimos dias e se acredita que ainda tem ganas para continuar com a seleção para lá do Mundial?

— O nosso capitão é um exemplo para o dia a dia. O dia a dia são 24 horas e é dar tudo para melhorar e ajudar a seleção. Eu acho que o capitão e todos os jogadores da seleção não pensam no futuro. Ninguém sabe o futuro. O futebol tem lesões, tem situações diferentes, há decisões que não estão nas suas mãos. Então o foco é treinar hoje, ser o melhor dentro do treino, aprender os conceitos, executar os conceitos amanhã, mostrar o orgulho de vestir a camisola de Portugal. E já não há mais nada. E é esse o exemplo dele. Com a experiência que ele tem, o único objetivo é tentar utilizar o dia de amanhã para melhorar

— Como é preparar uma competição desta dimensão depois duma época tão desgastante para os jogadores?

— Estamos a falar do começo da época, porque percebo a frescura — o balneário tem frescura, alegria. Acho que os jogadores que tiveram o último jogo da época no dia 30 de maio já estão totalmente recuperados. E estamos a falar agora de reativar e recomeçar o aspeto físico para o Mundial. No Mundial há dois mundiais, já falei disso. Agora são três jogos. Acho que estamos preparados para os três jogos depois do jogo de amanhã. Dizem que depois do jogo de amanhã estamos todos prontos para os três jogos. E no Mundial acontece que precisamos de melhorar muito durante os três jogos, com os momentos difíceis, com os momentos de mostrar resiliência, momentos em que precisamos de utilizar os valores do grupo, momentos em que individualmente precisamos de melhorar. E é aqui onde nós podemos pensar no segundo Mundial. Mas agora estamos prontos. Amanhã temos um bom jogo, os nossos adeptos, o Dia de Portugal; precisamos dessa força. E a energia que tivemos no jogo no Jamor ajudou muito no aspeto psicológico. Então amanhã esperamos que seja mais um passo em frente para essa preparação.

— Já disse que vai dar minutos a todos e referiu que vai fazer as 11 alterações. Pergunto-lhe que planos é que tem para o João Cancelo, porque ele jogou o jogo todo contra o Chile. Que planos é que tem para ele?

— Todos os jogadores que jogaram mais de 45 minutos recuperaram muito bem. A nossa ideia era para o João Cancelo ter mais de 45 minutos. Acho que o seu estilo de jogo, a sua capacidade física permite isso. Também com o Bruno Fernandes, com o Rúben Dias. Há jogadores que precisam de aspetos fisicamente diferentes. E acho que amanhã só temos a limitação do Rafael Leão, que não está apto para o jogo [por castigo]. De resto, todos os jogadores vão estar preparados. Na baliza é o único aspeto onde o Diogo Costa vai jogar os 90 minutos. É o nosso guarda-redes número um. Acho que é a posição que precisa de muita clareza. O resto, as posições de campo são posições para utilizar amanhã. E que seja um jogo com muitos jogadores, mas com a mesma ideia, a mesma intensidade, e que possamos ganhar o jogo juntos.

— Em março Portugal defrontou duas equipas norte-americanas. Agora defrontam uma equipa sul-americana, uma africana. Na fase de grupos, apanhará também uma asiática. Pergunto-lhe, do ponto de vista tático, físico e técnico, quais é que considera serem os pontos mais interessantes nestas seleções, um bocadinho fora do radar europeu?

— Acho que é uma mistura importante. Estamos a falar de uma equipa asiática, mas que tem um treinador europeu, com muita experiência nos Mundiais. Acho que é uma equipa que tem uma clareza tática muito forte. O resto é uma mistura. Também há um aspeto desconhecido. Não conhecemos como uma equipa que nunca participou no Mundial se pode ajustar num jogo. Acho que durante três, quatro, cinco jogos é fácil poder esperar o nível do adversário. Durante o jogo, já tive a experiência de jogar contra o Panamá em 2018, uma equipa que chegava ao Mundial pela primeira vez. Há um aspeto inesperado. Ninguém consegue preparar o nível onde o adversário consegue chegar, porque é uma final dentro das carreiras dos jogadores. Então, acho que o Chile — o aspeto emocional, o aspeto dos duelos, o aspeto de intensidade nas situações de um contra um — é muito semelhante à Colômbia. Também, culturalmente, são equipas da América do Sul que arriscam, que jogam com um aspeto semelhante. Amanhã, a Nigéria também é muito diferente da RD Congo, mas tem aspetos semelhantes: a capacidade de os atacantes explorarem os espaços da linha defensiva constantemente, muitos jogadores na zona central. Então, o aspeto tático é muito diferente. Culturalmente, acho que há muitos aspetos semelhantes entre as equipas com que já trabalhámos, seja o México, Estados Unidos, o Chile e a Nigéria. Acho que com os quatro adversários temos tudo aquilo de que precisávamos para os três jogos da fase de grupos.

— Nunca na história dos Mundiais houve um selecionador que vencesse o Mundial por uma seleção que não fosse a do seu país. Eu gostava de saber se isto lhe dá confiança para ser o primeiro ou se pode ser aqui uma espécie de fantasma?

— É um desafio que adoro. É fantástico porque a minha carreira está cheia de desafios assim. Mas também é o primeiro Mundial com oito jogos, o primeiro Mundial com 48 seleções. Então, acho que é um momento especial para poder fazer uma conquista ou fazer qualquer coisa que nunca foi feita, que é o que queremos fazer com Portugal.

— O presidente da FPF, Pedro Proença, apontou como meta mínima a chegada aos quartos de final. É um desafio demasiado ambicioso?

— O presidente é uma pessoa que tem a sua opinião e eu respeito isso. Para mim é um Mundial que são três jogos. Não tem mais nada. É muito chato para mim dizer isso, mas é a realidade. O foco para mim é o jogo de amanhã, preparar todos os jogadores e depois os três jogos a seguir. Não há um objetivo. A ideia é ganhar tudo. A ideia é ganhar oito jogos. Seja durante 90 minutos, 120 ou grandes penalidades. A ideia é o que nós podemos controlar: a atitude, mostrar o nosso talento, arriscar, ter a personalidade que mostrámos durante a Liga das Nações. E é nisso que precisamos de nos focar.

— Estamos nas vésperas de começar o Mundial. Vocês partem para Miami na sexta-feira. Nos últimos dias temos visto muitos episódios extra-relvado com diversas delegações. Este ambiente preocupa-vos?

— Não, porque estamos a falar do Mundial. É o meu terceiro Mundial e podemos dizer que aconteceu o mesmo em todos os mundiais. Seja no aspeto político, o Mundial é a maior competição do mundo, não só no desporto. Estamos a falar de quase sete mil milhões de pessoas que acompanham o torneio. Então esses aspetos fazem parte do que significa estar no Mundial. Mas posso dizer que de tudo o que você disse, eu não me apercebi nada, porque nós preparámos aqui o treino, tivemos a grande visita e a presença do Presidente da República e nós ficámos de portas fechadas. Focamo-nos naquilo que nós podemos controlar, naquilo que podemos trabalhar e naquilo que precisamos de ajustar para o jogo de amanhã. Mais nada.

— A Nigéria é um grande desafio, uma vez que no jogo anterior, contra o Chile, estava tudo controlado, Portugal dominou o jogo, mas sofreu um golo. Eu pergunto-lhe, como é que vê o jogo de amanhã dentro dessa perspetiva?

— Gosto muito das ideias do treinador da Nigéria. É uma equipa que é muito flexível taticamente, joga com um losango, um 4x4x2 losango, com opções depois de mudar e diretamente trazer alas e dois pontas de lança. Utiliza muito bem as valências da sua equipa, tem atacantes muito rápidos, fisicamente muito fortes. São atacantes diferentes do estilo do Chile, então para nós é muito, muito importante poder trabalhar nisso. Quando há jogos para a seleção, o trabalho sempre tem como consequência ganhar o jogo. Então nós precisamos de fazer tudo aquilo que trabalhámos bem, executar isso. O trabalho na seleção todos os dias é importante para construir uma equipa. Acho que o jogo do Chile acelerou muito isso. Acho que é melhor ganhar 2-1 do que ganhar 2-0, no aspeto de avaliar, de poder melhorar. E amanhã é o mesmo: vamos tentar ganhar, vamos tentar mostrar uma clareza naquilo que queremos no relvado. Também abrir a competitividade entre os jogadores, os momentos de forma. E, ao fim do jogo, poder celebrar com os nossos adeptos, que é o último jogo da preparação para o Mundial.

— Ponderou dar minutos ao Ricardo Velho como uma mera recompensa, até porque vai acompanhar a equipa e tudo mais, ou foi algo que, pela importância da posição, não lhe passou pela cabeça?

— Já é um equilíbrio entre o que todos os jogadores precisam. Acho que para nós era importante que o José Sá e o Rui Silva tivessem minutos. Também era importante recuperar o Diogo Costa — ele esteve acima dos 4.000 minutos. Então, na sua preparação para o primeiro jogo, precisava de mais treinos. O Ricardo Velho está a trabalhar muito bem, acho que todos os jogadores estão a respeitar muito o que ele traz à seleção. Mas aqui, agora, precisamos de... A posição do guarda-redes é muito importante poder jogar 90 minutos antes de um jogo. Então para o Diogo Costa, acho que foi o processo perfeito. Poder treinar, preparar, recuperar; é o começo da nova época. É isso o que eu sinto, não é a continuação da época, não é o fim da época. Acho que o Diogo desligou e agora começa a nova época. E faz sentido poder jogar os 90 minutos amanhã.

— No último jogo frente à Nigéria a vitória sorriu a Portugal por 4-0. E agora o jogo de amanhã é uma preparação para si contra o Congo. Que tipo de desafio espera deste jogo?

— Não sabia do último resultado entre Portugal e Nigeria. O último jogo, há três anos, foi contra a Nigéria e Portugal, com a vitória de Portugal. E aqui também, claro, explico a razão pela qual pode ser um bom jogo e um bom desafio. O jogo contra a Nigéria tem características muito específicas que podem ajudar Portugal imenso na preparação para o primeiro jogo da fase de grupos. Falo de diferentes sistemas que podem ser usados nesta seleção nigeriana. Falo também de alguns jogadores que acabaram por ser substituídos, mas que foram substituídos por jogadores de enormes qualidades. Conheço muitos jogadores, e acho que pode ser uma excelente oportunidade para a seleção portuguesa na preparação para a fase final do Campeonato do Mundo de 2026.

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