Bilal nasceu na Nigéria, filho de pai libanês e mãe de ascendência beninense, e ninguém o quer. Foto X
Bilal nasceu na Nigéria, filho de pai libanês e mãe de ascendência beninense, e ninguém o quer. Foto X

O campeão que espera por um passaporte há 24 anos e não tem terra nem pátria

Bilal Fawaz nasceu na Nigéria, mas como os pais não eram casados, não é nigeriano. Foi traficado com 14 anos para o Reino Unido, onde vive, casou, tem filhos, foi campeão e até chamado à seleção. Mas não tem nacionalidade britânica. Nem qualquer outra

Kelvin Bilal Fawaz é o atual campeão britânico e da Commonwealth de supermédios, mas, apesar de viver no Reino Unido há 24 anos, continua a lutar contra o Ministério do Interior para obter um passaporte britânico.

A história de Fawaz, que fará 38 anos em abril, é marcada por uma série de incidentes que muitos consideram injustiças. O pugilista foi traficado para o Reino Unido aos 14 anos, representou e capitaneou a seleção de Inglaterra como amador, mas viu a sua situação migratória impedir a participação nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e Rio 2016. A sua companheira e os seus dois filhos, ambos com menos de três anos, possuem passaporte britânico.

Nascido na Nigéria, filho de pai libanês e mãe de ascendência beninense, Fawaz foi enviado para o Reino Unido por um tio para um recomeço que se transformou num pesadelo burocrático. O casamento dos seus pais não era reconhecido pela lei nigeriana, o que o tornou apátrida, sem cidadania de nenhum país.

Em fevereiro, Fawaz derrotou Ishmael Davis por decisão maioritária para conquistar os títulos britânico e da Commonwealth na categoria. No entanto, o seu maior desejo continua por cumprir. «Esta é a minha casa, a minha mulher e os meus filhos são britânicos. E agora sou o campeão profissional britânico. O que mais posso fazer?», questionou Fawaz em declarações ao Telegraph Sport.

O pugilista, que encontrou no boxe uma família, desabafa sobre a falta de um sentimento de pertença. «Nunca senti um sentimento de pertença na minha família, e ter aquele passaporte dar-me-á o sentimento de verdadeira pertença, de ser aceite no país que tem sido a minha casa nos últimos 24 anos», explicou, emocionado.

Ahmed Aydeed, advogado de direitos humanos e sócio da Deighton Pierce, que representa Fawaz, afirma que o seu cliente foi «vítima de tráfico» e que o sistema falhou em reconhecê-lo como «vítima de escravatura moderna». Segundo o advogado, «não há qualquer base para que [o caso] seja de natureza criminal, é inteiramente uma questão de imigração».

Ao longo das últimas duas décadas, Fawaz foi detido duas vezes e levado para centros de deportação. Em ambas as ocasiões, o Alto Comissariado da Nigéria respondeu que o pugilista não tinha direito de residência no país.

Aydeed, que conseguiu obter para o seu cliente o «direito de permanência» após cinco anos de batalha legal, critica duramente o sistema. «Temos um homem que chegou aqui em criança, que não conhece outra casa, que fez tudo corretamente, que representou este país ao mais alto nível amador e que é tratado como uma não-pessoa. O sistema não só falhou com o Bilal; está ativamente a tentar quebrá-lo», declarou.

O advogado acrescenta que Fawaz sempre cumpriu a lei e pagou os seus impostos. «Sugerir que ele deveria ter resolvido isto sozinho é absurdo. O Ministério do Interior tem uma política para indivíduos que estão no Reino Unido há 20 anos, um caminho para a regularização. O Bilal está aqui há 24 anos. Não é apenas uma questão de discricionariedade; é uma questão de justiça básica e da aplicação correta das suas próprias regras», concluiu.

Recorde-se que Fawaz teve uma carreira amadora de sucesso, tendo-se sagrado campeão nacional de elite da ABA em 2012, o auge do boxe amador doméstico. Apesar dos títulos e da chamada à seleção, a sua situação migratória sempre foi um obstáculo intransponível na sua carreira.

O pugilista Bilal Fawaz, que vive no Reino Unido há 24 anos, continua a aguardar pela cidadania britânica, uma situação que já o impediu de representar a Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012. Na altura, a ausência de um passaporte britânico desfez o seu sonho de competir em casa.

O Ministério do Interior britânico, em declarações ao Telegraph Sport, afirmou que «não comenta rotineiramente casos individuais». No entanto, um porta-voz acrescentou verbalmente que o caso era «histórico» e que seria analisado.

Fawaz dirigiu uma mensagem à Ministra do Interior, Shabana Mahmood, apelando à sua humanidade. «Espero que ela demonstre alguma humanidade, que olhe para a minha situação, para o tempo que esperei, para a forma como lutei pelo meu país, para o orgulho que tenho em ser britânico, e que me ajude a obter o meu passaporte britânico», declarou o pugilista.

O atleta sublinhou o desejo de poder «viajar para o estrangeiro para lutar por um campeonato mundial, levar os meus filhos e a minha companheira de férias, e fazer as coisas normais que podemos fazer com o direito de viajar como um cidadão britânico».

Por sua vez, Aydeed, o advogado de Fawaz, considera a situação uma falha grave. «Continuar a negar-lhe o direito básico à cidadania após um quarto de século não é apenas um erro administrativo; é uma profunda falha moral. Pedimos que o Estado de direito seja aplicado com bom senso e compaixão», afirmou.

A situação de Bilal Fawaz é descrita não apenas como uma carreira perdida, mas como uma vida em suspenso, marcada por anos num limbo e por um sentimento de não pertença. Após duas décadas e meia a viver e a representar o país com orgulho, a luta pela sua vitória nos ringues burocráticos continua.