O campeão que espera por um passaporte há 24 anos e não tem terra nem pátria
Kelvin Bilal Fawaz é o atual campeão britânico e da Commonwealth de supermédios, mas, apesar de viver no Reino Unido há 24 anos, continua a lutar contra o Ministério do Interior para obter um passaporte britânico.
A história de Fawaz, que fará 38 anos em abril, é marcada por uma série de incidentes que muitos consideram injustiças. O pugilista foi traficado para o Reino Unido aos 14 anos, representou e capitaneou a seleção de Inglaterra como amador, mas viu a sua situação migratória impedir a participação nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e Rio 2016. A sua companheira e os seus dois filhos, ambos com menos de três anos, possuem passaporte britânico.
Nascido na Nigéria, filho de pai libanês e mãe de ascendência beninense, Fawaz foi enviado para o Reino Unido por um tio para um recomeço que se transformou num pesadelo burocrático. O casamento dos seus pais não era reconhecido pela lei nigeriana, o que o tornou apátrida, sem cidadania de nenhum país.
Em fevereiro, Fawaz derrotou Ishmael Davis por decisão maioritária para conquistar os títulos britânico e da Commonwealth na categoria. No entanto, o seu maior desejo continua por cumprir. «Esta é a minha casa, a minha mulher e os meus filhos são britânicos. E agora sou o campeão profissional britânico. O que mais posso fazer?», questionou Fawaz em declarações ao Telegraph Sport.
Inside trafficked immigrant Uber driver Bilal Fawaz's rise to becoming Brit boxing champ – as Eddie Hearn demands he be given a UK passport
— Sun Sport (@SunSport) February 22, 2026
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O pugilista, que encontrou no boxe uma família, desabafa sobre a falta de um sentimento de pertença. «Nunca senti um sentimento de pertença na minha família, e ter aquele passaporte dar-me-á o sentimento de verdadeira pertença, de ser aceite no país que tem sido a minha casa nos últimos 24 anos», explicou, emocionado.
Ahmed Aydeed, advogado de direitos humanos e sócio da Deighton Pierce, que representa Fawaz, afirma que o seu cliente foi «vítima de tráfico» e que o sistema falhou em reconhecê-lo como «vítima de escravatura moderna». Segundo o advogado, «não há qualquer base para que [o caso] seja de natureza criminal, é inteiramente uma questão de imigração».
New British champion Bilal Fawaz forced to beg for British passporthttps://t.co/yHdyNynRrQ pic.twitter.com/Om9A1vihTN
— Mirror Sport (@MirrorSport) February 23, 2026
Ao longo das últimas duas décadas, Fawaz foi detido duas vezes e levado para centros de deportação. Em ambas as ocasiões, o Alto Comissariado da Nigéria respondeu que o pugilista não tinha direito de residência no país.
Aydeed, que conseguiu obter para o seu cliente o «direito de permanência» após cinco anos de batalha legal, critica duramente o sistema. «Temos um homem que chegou aqui em criança, que não conhece outra casa, que fez tudo corretamente, que representou este país ao mais alto nível amador e que é tratado como uma não-pessoa. O sistema não só falhou com o Bilal; está ativamente a tentar quebrá-lo», declarou.
The UK plan to deport him.
— BBC Sport (@BBCSport) January 12, 2018
Nigeria does not want him.
Without boxing, Bilal Fawaz says he wouldn't be here today.
Meet the English champion without a country. pic.twitter.com/c6GJ0h7aHf
O advogado acrescenta que Fawaz sempre cumpriu a lei e pagou os seus impostos. «Sugerir que ele deveria ter resolvido isto sozinho é absurdo. O Ministério do Interior tem uma política para indivíduos que estão no Reino Unido há 20 anos, um caminho para a regularização. O Bilal está aqui há 24 anos. Não é apenas uma questão de discricionariedade; é uma questão de justiça básica e da aplicação correta das suas próprias regras», concluiu.
Recorde-se que Fawaz teve uma carreira amadora de sucesso, tendo-se sagrado campeão nacional de elite da ABA em 2012, o auge do boxe amador doméstico. Apesar dos títulos e da chamada à seleção, a sua situação migratória sempre foi um obstáculo intransponível na sua carreira.
O pugilista Bilal Fawaz, que vive no Reino Unido há 24 anos, continua a aguardar pela cidadania britânica, uma situação que já o impediu de representar a Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012. Na altura, a ausência de um passaporte britânico desfez o seu sonho de competir em casa.
O Ministério do Interior britânico, em declarações ao Telegraph Sport, afirmou que «não comenta rotineiramente casos individuais». No entanto, um porta-voz acrescentou verbalmente que o caso era «histórico» e que seria analisado.
Fawaz dirigiu uma mensagem à Ministra do Interior, Shabana Mahmood, apelando à sua humanidade. «Espero que ela demonstre alguma humanidade, que olhe para a minha situação, para o tempo que esperei, para a forma como lutei pelo meu país, para o orgulho que tenho em ser britânico, e que me ajude a obter o meu passaporte britânico», declarou o pugilista.
O atleta sublinhou o desejo de poder «viajar para o estrangeiro para lutar por um campeonato mundial, levar os meus filhos e a minha companheira de férias, e fazer as coisas normais que podemos fazer com o direito de viajar como um cidadão britânico».
Por sua vez, Aydeed, o advogado de Fawaz, considera a situação uma falha grave. «Continuar a negar-lhe o direito básico à cidadania após um quarto de século não é apenas um erro administrativo; é uma profunda falha moral. Pedimos que o Estado de direito seja aplicado com bom senso e compaixão», afirmou.
A situação de Bilal Fawaz é descrita não apenas como uma carreira perdida, mas como uma vida em suspenso, marcada por anos num limbo e por um sentimento de não pertença. Após duas décadas e meia a viver e a representar o país com orgulho, a luta pela sua vitória nos ringues burocráticos continua.