Nuno Gomes, 2002: «A qualidade fez-nos acreditar, mas foi uma desilusão»
Foi em 2002, na Coreia do Sul e no Japão, que se realizou pela primeira vez um Mundial organizado por dois países e pela primeira vez em terras asiáticas. Foi também a estreia de Nuno Gomes num Campeonato do Mundo, ele, que tinha sido uma das figuras de Portugal no Euro 2000 e um dos destaques na qualificação de Portugal para 2002. A BOLA levou Nuno Gomes até à Cidade do Futebol e foi na atual casa da Federeção Portuguesa de Futebol que recordou o que viveu de «Quinas ao peito».
— Onde estavas quando saiu a convocatória para o Mundial 2002?
— Acho que estava em casa. Acho que a vi na televisão. Lembro-me que nessa altura nós ficávamos à espera de ouvir a convocatória. Não sabíamos antes e acredito que hoje em dia também ninguém saiba de antemão quem é que vai ser convocado. Embora, como é óbvio, há uns que têm mais certezas que outros. Mas, eu nessa altura acreditava, e queria muito ser chamado. É curioso porque eu na minha carreira, infelizmente na altura dos Mundiais, cheguei sempre um pouco mais debilitado fisicamente do que os meus companheiros. Nesse Mundial-2002 eu tinha tido uma lesão uns meses antes, a jogar pela Fiorentina, e depois joguei pouco até esse Mundial, porque estava a gerir essa lesão. Passado um ano acabei por ter de ser operado ao tornozelo por causa dessa lesão. Por causa dessa minha condição fiquei um pouco na incerteza se iria ou não ser convocado.E lembro-me, como é óbvio,que fiquei muito contente por ouvir o meu nome pela boca do mister António Oliveira.
— Quando olhas para a camisola que usaste nesse primeiro Mundial o que vem à memória?
— Lembro-me que nós fizemos uma boa fase de qualificação. Estivemos muito bem, mas depois, infelizmente as coisas lá não correram como nós esperávamos. Fomos com uma expectativas também, se calhar demasiado altas. Não por sobranceria, mas acho que a qualidade que a equipa tínhamos fez-nos acreditar que podíamos esperar um bom resultado e acabou por ser uma desilusão. Mas, foi uma honra vestir esta camisola, sem dúvida. Felizmente tenho excelentes recordações por vestir a camisola da Seleção. O Mundial 2002 foi uma delas e felizmente consegui participar. Ao todo foram em cinco fases finais: três Europeus e dois Mundiais. Tenho excelentes recordações do meu tempo vivido com a camisola das Quinas.
Fiquei muito contente por ouvir o meu nome da boca do mister António Oliveira
— O Mundial 2002 foi o primeiro da carreira. Foi a primeira vez realizado em dois países e pela primeira vez realizado na Ásia.
— É verdade. Foram dois países que eu gostei de conhecer na altura, mas não pelas melhores razões. E, nós estivemos em Macau também antes da preparação para esse Mundial. Fizemos um jogo contra a China em Macau. Eu lembro-me que fiz um golo e o Pauleta outro. Acho que no final das contas foi uma mistura de muitas coisas que correram mal, a começar por alguns jogadores não terem chegado na melhor forma física, depois uma época longa. E aqui falo especificamente do Luís Figo, que era nosso melhor jogador e que também ele próprio chegou com uma lesão no pé que provavelmente também não o deixou jogar a 100%.
Felizmente tenho excelentes recordações por vestir a camisola da Seleção, foram 3 Europeus e 2 Mundiais
— Marcaste sete golos na fase de qualificação para o Mundial 2002, mas na fase final a participação foi discreta.
— Esse Mundial foi para esquecer. Nós fomos com grandes expectativas pois tínhamos feito um excelente Euro 2000. O grupo era praticamente o mesmo com alguns alguns jogadores que entraram também para reforçar ainda mais a qualidade dessa Seleção. Fizemos uma excelente fase de qualificação. A nível pessoal correu bem. Eu fiz esses sete golos, o que foi importante uma vez que depois do Euro 2000, eu estive uns meses suspenso, por causa do final do jogo contra a França no Europeu. Por isso apanhei um bocadinho o comboio da fase de qualificação já em andamento. O Pauleta era o titular e eu mesmo assim consegui fazer sete golos. As expectativas eram grandes, não só pessoal como também coletivamente. Nós tínhamos uma excelente equipa e, partimos com boas expectativas de conseguir fazer um bom Mundial. Mas, como eu disse, foi para esquecer, porque tudo correu mal do início ao fim. As coisas não correram como nós esperávamos e foi uma grande desilusão.
— A verdade é que o Pauleta era a figura de Portugal nessa Seleção de 2002. Percebeste porque é que o António Oliveira te utilizou tão pouco na Coreia do Sul e no Japão?
— Nós tínhamos muitas opções para o ataque. Tínhamos muitas opções do meio campo para a frente. Era sempre muito complicado para o mister, e para qualquer outro selecionador, fazer o 11. Mas, o Pauleta partiu a titular. O primeiro jogo não nos correu bem. Eu acabo por entrar também, fruto de precisarmos de mais opções na frente de ataque para tentar dar a volta ao resultado. Contra os Estados Unidos perdemos (2-3). Não conseguirmos ganhar o jogo foi o que nos levou a complicar as contas No segundo jogo o Pauleta fez um hat-trick e portanto como é que iria entrar outro avançado? As coisas complicam-se e fico com menos espaço para ter uma oportunidade. Mas, são as regras do jogo e sempre foi assim durante toda a carreira. Nós não jogamos sozinhos e depois há sempre outros jogadores que também estão à espreita de poder jogar. Eu meto-me no lugar do treinador e quando o avançado corresponde com golos, não há razão para mudar. Acho que foi um bocadinho o que aconteceu com a minha utilização pois quando se está a ganhar não queres fazer descansar o teu avançado que está a marcar. Foram um bocadinho por aí as minhas entradas contra os Estados Unidos e depois até contra a Coreia, fruto também dos resultados dos jogos em que estávamos em desvantagem. Precisávamos de fazer alguma coisa para tentar dar a volta.
Não conseguirmos ganhar aos Estados Unidos complicou as contas
— Quando é que sentiste que o Mundial de 2002 não ia correr como perspectivavam quando seguiram para o estágio em Macau?
— Acho que só nos caiu um pouco a ficha no jogo contra os Estados Unidos. Fazendo um balanço daquilo que correu mal, podemos depois até enumerar algumas situações que não tenham corrido da melhor maneira. Foi muito falado o facto de termos ido para Macau no sentido de nos adaptarmos um pouco à temperatura e ao clima na Ásia, pois seria um clima muito parecido àquele que iríamos encontrar no Mundial. O que é certo é que não correspondeu àquilo que nós pensávamos que íamos encontrar em Macau. Sofremos um pouco com a temperatura, com a humidade e com o calor que se fazia sentir. Há muitos pormenores que nós, sendo jogadores, não nos apercebemos, mas fomos dando conta que o horário dos treinos, por exemplo em Macau, foi alterado porque começámos a treinar mais cedo, fruto daquilo que era a humidade e o calor que se fazia sentir. Muitas vezes durante o treino era complicado estar debaixo dessa humidade. Acredito que as intenções foram as melhores para que nada nos faltasse, como era apanágio também da Federação.
— Mas em Macau, para além das temperaturas, foram apontadas falhas às condições que tinham em estágio, e à pouca privacidade. Até se chegou a falar que era um ambiente mais festivo do que propriamente de concentração.
— Logisticamente, é capaz de não teres sido as condições ideais para Portugal, mas é sempre muito fácil falar depois das coisas acontecerem e de ter havido o desaire que existiu. A crítica vem sempre ao de cima e nós jogadores muitas vezes não nos apercebemos de algumas situações que se calhar foram acontecendo e que nos fugiam da vista e das mãos. Mas sim, nós estávamos bem instalados, mas se calhar a questão de termos de fazer alguns quilómetros para ir treinar se calhar poderia ter sido feito de outra forma. O que é certo, é que no final das contas, tudo somado, levou a que esse final acontecesse. Acredito que foi tudo uma espiral de situações que foram acontecendo e que depois levou ao fracasso.
O estágio não correspondeu ao que pensávamos que íamos encontrar em Macau
Tínhamos uma excelente Seleção, mesmo o Mundial não correndo como queríamos
— Portugal não ia a um Mundial há 16 anos, desde 1986, e tinha na Seleção aquela chamada Geração de Ouro. Como era aquele grupo de jogadores?
— Nós tínhamos um excelente grupo. Acho que esse Mundial foi o culminar de um ciclo de alguns jogadores, porque lembro-me que depois do Mundial, pelo menos o Paulo Bento e o Pedro Barbosa acabaram a participação na Seleção. Havia uma base dessa Geração de Ouro, dos jogadores que tinham ganho em 1989 e 1991 os Mundiais de Sub-20, mas, depois havia outros jogadores, inclusive o Hugo Viana, que chegou mais tarde depois de Macau. Havia várias gerações numa mesma Seleção que tinha muita qualidade. Nós tínhamos o Figo, por exemplo, que tinha sido recentemente Bola de Ouro e, portanto, tínhamos o melhor do mundo connosco. Nessa altura tínhamos outros jogadores que que já brilhavam em campeonatos pela Europa fora. Acho que as coisas não correram como nós queríamos e esperávamos que corresse, mas tínhamos uma excelente Seleção. Volto a bater na tecla, o resultado com os Estados Unidos foi inesperado pois nós não pensávamos que iríamos perder contra os Estados Unidos, uma seleção que para nós era praticamente desconhecida na altura e que nos apanhou completamente de surpresa. Esse jogo começou a correr mal e nós fomos atrás do prejuízo, mas já não conseguimos dar a volta. Esse jogo deixou deixou marcas, apesar de no segundo jogo termos recuperado os níveis de confiança, com uma clara vitória de 4-0 contra a Polónia, o certo é que quando estamos numa fase final de uma grande competição para se obter sucesso, muita das vezes as coisas precisam de estar todas alinhadas e nesse jogo com a Coreia tudo correu mal do início ao fim. São situações difíceis de explicar, porque no decorrer desse jogo também foram acontecendo episódios em que nós perdemos o controlo da situação e quando assim é fica muito mais difícil. Nós sabíamos que o empate era suficiente para passar, mas não conseguimos e até acabámos o jogo (derrota por 1-0) com 9 jogadores.
— Sentes que também cresceste enquanto jogador com todos esses incidentes que sentiste com esta camisola 21, que trouxeste do teu baú das recordações para esta conversa?
— Sim. Nós crescemos sempre em todos os momentos. Durante a nossa carreira aprendemos com as situações más que vivemos. Esse foi um tempo de aprendizagem em relação ao que não queríamos voltar a repetir no futuro. Acho que teve muito a ver com expectativas. Na hora do sorteio, olhando para o grupo, se calhar criou-se demasiada expectativa de que as coisas iam ser fáceis. Que iríamos passar o grupo com facilidade e no momento em que tínhamos de reagir, já foi tarde. Fomos sempre reagindo e nunca precavendo os acontecimentos. Foi sem dúvida uma lição para nós. Tínhamos expectativas de chegar longe e acabámos por voltar mais cedo para casa com uma grande desilusão. Serviu para aprendermos com esses erros, para nunca mais darmos as coisas por garantidas. Aprendemos que é dentro do campo que temos de provar o favoritismo.
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