Casa Pia viu-se impedido de competir no seu estádio — Foto: CARLA CARRIÇO
Casa Pia viu-se impedido de competir no seu estádio — Foto: CARLA CARRIÇO

Infraestruturas: uma oportunidade estratégica para o futebol português

Não se trata apenas de colocar uma cobertura numa bancada. O que se impõe é um verdadeiro plano nacional de infraestruturas, em que o futebol profissional, com o apoio da Liga e da FPF, tem necessariamente de ser exemplo. 'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de André Baptista, gestor desportivo e ex-presidente da SAD do Torreense

Imagine que, numa sexta-feira à noite de janeiro, sob chuva intensa e vento frio, tem de explicar aos seus filhos por que razão vale a pena ir ao jogo. As bancadas são descobertas, chove e a água acumula-se entre as filas, o vento e o frio atravessam o estádio... e o bar tem filas longas e uma oferta pouco apelativa — para um jogo que começa às 20h00, já numa hora pouco compatível com a rotina familiar. A experiência nada tem de confortável. A paixão até pode ajudar a vencer o conforto caseiro num dia ou outro, mas isso é uma exceção. Que não é de todo suficiente para garantir o envolvimento das gerações vindouras na rotina do estádio.

O futebol português discute competitividade, centralização de direitos televisivos e modelos de distribuição de receitas, entre outros pilares cruciais. No entanto, há um fator estrutural que influencia todas condições de valorização do produto e que continua a merecer atenção insuficiente: as infraestruturas.

Estádios, relvados e centros de treino não são apenas ativos físicos, mas sim elementos determinantes para a experiência do adepto, para a qualidade do jogo e para a valorização do principal capital do futebol português: os jogadores. A experiência do estádio é hoje um fator decisivo. Se os clubes não evoluírem neste plano, o risco não é apenas a ausência momentânea de público, mas uma quebra estrutural na renovação geracional dos adeptos. Num contexto em que os chamados três grandes têm sempre uma base consolidada, os clubes de dimensão média e regional são os mais expostos a perder identidade, público e relevância local.

Casos como FC Famalicão, Casa Pia, Estoril Praia ou Estrela da Amadora ilustram bem esta realidade. O Famalicão consolidou-se como um projeto moderno, exportador de talento e financeiramente estruturado, mas o crescimento desportivo foi mais rápido do que a evolução do Estádio Municipal 22 de Junho, evidenciando como a infraestrutura pode tornar-se um fator limitativo mesmo quando existe competência de gestão. O Casa Pia protagonizou uma subida histórica e estabilizou-se na Liga, mas viu-se impedido de competir no seu estádio, diluindo a ligação à comunidade e dificultando a consolidação de uma base de adeptos.

O Estoril Praia tem sido consistente na valorização de jovens talentos e na profissionalização da sua estrutura, porém o Estádio António Coimbra da Mota reflete as dificuldades de adaptação a um futebol cada vez mais exigente em termos de experiência e produto televisivo. Já o regresso do Estrela da Amadora ao principal escalão devolveu um símbolo da periferia lisboeta ao mapa do futebol nacional, mas o Estádio José Gomes, apesar do seu valor histórico, evidencia a necessidade de modernização para acompanhar a ambição competitiva do clube.

Em muitos destes casos, estamos perante estádios municipais onde a margem de intervenção estrutural é reduzida. A ambição existe, a competência de gestão também mas a infraestrutura não acompanha o ritmo da exigência competitiva e da experiência que o futebol moderno requer. Esta discrepância cria um bloqueio estrutural: projetos desportivos organizados e sustentáveis ficam limitados por condições físicas que não refletem a evolução do próprio jogo.

Melhores estádios significam mais do que cadeiras novas ou um design moderno. Significam mais público, maior regularidade de assistência, mais famílias, mais jovens e melhor ambiente. Um estádio confortável e funcional puxa pela equipa da casa, cria pressão positiva, valoriza o espetáculo e melhora a imagem do futebol português, tanto para quem está presente como para quem acompanha pela televisão. Mesmo num cenário de maior centralização de receitas, um bom relvado e uma infraestrutura que proporcione uma experiência qualificada valorizam o produto global que é o futebol português.

A qualidade dos relvados tem igualmente impacto direto e imediato. O piso influencia o jogo, a componente técnica, a integridade física dos jogadores e a própria identidade do futebol praticado. Num país reconhecido pela sua capacidade técnica e pela formação, jogar sistematicamente em más condições limita o desenvolvimento individual e coletivo e empobrece o espetáculo. Proteger e modernizar os relvados é proteger o ativo mais valioso do futebol nacional.

A questão dos centros de treino é outro pilar essencial deste ecossistema. Clubes com estruturas próprias conseguem planear melhor, proteger os relvados principais e oferecer condições adequadas à equipa sénior e aos escalões jovens. Portugal é, por natureza, um país exportador de talento. Valorizar o capital humano passa inevitavelmente por criar melhores condições de desenvolvimento, mas também por atrair novos talentos para as camadas jovens, algo que se exponencia quando as infraestruturas são uma mais-valia competitiva.

É aqui que a relação entre sociedades desportivas e autarquias se torna decisiva. Os clubes são, muitas vezes, os maiores embaixadores das suas regiões. Um projeto estruturado, competitivo e com boas condições atrai público local e visitantes, dinamiza a economia, aumenta a visibilidade do território e reforça a identidade regional. Investir em infraestruturas desportivas não é apenas apoiar um clube; é potenciar um ativo estratégico da própria comunidade.

No fundo, está tudo interligado. Melhores infraestruturas atraem público; o público dinamiza o jogo; o jogo valoriza os jogadores; os jogadores valorizam os clubes; e os clubes fortalecem o futebol português. Investir em estádios, relvados e centros de treino não é um luxo nem uma crítica ao passado. É uma oportunidade estratégica para proteger a identidade regional, elevar a qualidade do produto e garantir um futuro mais sustentável ao futebol português.

Se queremos afirmar o futebol português como um produto competitivo, valorizado dentro e fora de portas, capaz de formar talento e de atrair novas gerações aos estádios, podemos continuar a discutir modelos de receita e centralização sem colocar a experiência do adepto e a qualidade das infraestruturas no centro da estratégia? E não, não se trata apenas de colocar uma cobertura numa bancada. O que se impõe é um verdadeiro plano nacional de infraestruturas, em que o futebol profissional, com o apoio da Liga e da FPF, tem necessariamente de ser exemplo — no desígnio comum, na capacidade coletiva de financiamento e concurso a fundos e linhas de apoio, na capacidade política junto de autarcas e governantes, e, por fim, numa exemplar capacidade de execução.