Norberto Alves: «O Benfica não é os Lakers... Nunca me ouviram dizer que estava no ano zero»
Ainda que em janeiro, num campeonato de só terminará em junho, não se ganhe nada, a não ser motivação e possivelmente maior confiança, ao perder contra o Sporting por 78-87 (15-26, 14-23, 18-18, 31-20) o Benfica viu interrompidas duas sequência com que se podia orgulhar – a continuará a poder fazê-lo – na Liga Betclic 2025/26.
Primeiro a invencibilidade no campeonato até à 12.ª jornada, pois ainda não tinha sido batido por nenhum dos 11 adversários. Sequência que, na verdade, até datava do Jogo 3 da final do play-off 2024/25 contra o FC Porto (82-75).
A segunda, verdadeiramente incrível, a formação de Norberto Alves mantinha-se imbatível na Luz desde 11 de outubro de 2023, quando foi batida pela Oliveirense por 73-74 em embate a contar para a 1.ª jornada de 2023/24, mas disputado depois de já ter realizado duas no total. Daí até este sábado, passaram 843 dias (2 anos, 3 meses e 20 dias) sem perder em casa para a Liga. 33(!) triunfos consecutivos no Pavilhão Fidelidade e, pelo meio, um campeonato inteiro.
Naturalmente, o técnico dos tetracampeões nacionais não podia estar satisfeito com o desfecho contra o rival, mas a maior amargura devia-se à forma como a equipa atuou durante os três primeiros quartos.
Como é que explica na entrada inicial do Benfica, porque no fundo foi isso que pesou, depois o Benfica andou sempre a correr atrás do prejuízo?
«A primeira coisa a dizer é que a vitória do Sporting é completamente justa. Acabámos por ter uma reação final boa e tínhamos que o fazer. Lutar até ao fim para poder ganhar. Mas, como disse, não começámos bem e os três primeiros períodos faziam lembrar o primeiro jogo lá [Alvalade], mas ao contrário, em que o Sporting estava a ser muito eficaz e nós não?», começou por responder Norberto Alves, recordado a vitória infligida aos leões na 2.ª jornada, no Pavilhão João Rocha (66-103).
«Fomos para o intervalo, eles com 50 por cento de lançamento de três pontos [11/22], que é excelente, e nós com 13 por cento, que é muito mau, e muitos lançamentos abertos. E, à medida que íamos falhando, eles fechavam mais. Continuámos a ter tiros abertos, mas não marcávamos», foi analisando.
«Não começámos o jogo ao nível defensivo que tínhamos de fazer, porque quando uma equipa está a jogar bem e a marcar, a ser muito eficaz, temos que pressionar mais. Acabámos por, na parte final, ao nível do lançamento exterior, compor um pouco as coisas. Terminámos com 23 por cento [9/38], mas ainda assim continua a ser mau», reconheceu.
Mas quando houve uma diferença verdadeiramente grande, de 20 pontos [chegou a ser de 28], o Benfica continuou a insistir no lançamento de três pontos, quando este não estava a entrar. Tentou mudar isso nos descontos de tempos ou os próprios jogadores acabaram por ser eles a apostar numa coisa que não estava a resultar?
«O problema é este: quando a outra equipa percebe que não estamos a concretizar de fora, fecham mais dentro e, às vezes, o penetrar para ir buscar lançamentos mais perto do cesto também não é fácil. Procurámos que isso acontecesse nos primeiros segundos do ataque, ou seja, enquanto eles ainda não estavam muito colapsados. Mas este é um pouco um jogo da estratégia. Não estávamos a ser eficazes e tivemos muitos jogadores abaixo do que é normal», foi respondendo.
«O que este encontro tem de servir é para perceber isto - e da nossa parte sempre o percebemos: muita gente, quando fomos ganhar ao [Pavilhão] João Rocha por muitos, pensou que o Benfica era os Los Angeles Lakers. Não! Temos que ter humildade para perceber que estas duas equipas estão a um nível muito semelhante. Eles têm jogadores com grande capacidade, e hoje viu-se, de lançamento exterior, de criar coisas diferentes. É bom para toda a gente, à volta, perceber que: nem nós nos vamos relaxar em nada, mas também que isto não é um campeonato fácil. Viemos de Oliveira de Azeméis de um encontro em que pedimos ter perdido. Com uma Oliveirense ao nosso nível, possivelmente ao nível do Sporting. E há outras equipas assim. Quem pensa que isto são favas contadas, não é verdade», reforçou.
Estávamos a falar de jogo exterior, mas o Benfica também é um conjunto poderoso no jogo interior, e hoje não o conseguiu. Por causa da defesa do Sporting, que tapou estes caminhos que estava a referir ter no jogo interior, ou também foi a equipa que não funcionou bem?
«Tivemos erros - vou tentar ser generoso para a minha equipa -, que não foram provocados pelo adversário. Cometemos erros de falta de concentração, turnovers que não fazem sentido, e mais do que estes aspectos, foi isso que foi construindo uma diferença e também alguma intranquilidade. Está-se a tentar recuperar e depois há um erro que não faz sentido, um contra-ataque em que se perde a bola, uma reposição em que se perde a bola de uma maneira um pouco... não normal. Aconteceu quando estávamos a ter bons momentos».
«Agora vamos olhar muito para nós, sempre o fazemos, para isto não voltar a acontecer. Nada é garantido nestes jogos. Faz parte do desporto ganhar ou perder. Muita gente olha para o Benfica, como se fosse uma coisa... A equipa tem que ser coletiva para ser boa, e hoje, em alguns momentos, não fomos», acaba por apontar Norberto.
No entanto, mais do que perder a invencibilidade que vinha deste o encontro na Dragão Arena na final do último play-off, o Benfica não perdia em casa para o campeonato desde outubro de 2023, contra a Oliveirense. Defender essa sequência é sempre um incentivo. A equipa usava isso como estímulo e, para si, por outro lado, pode ser um alívio, porque deixa de existir essa pressão sobre o grupo e este pode focar-se mais no jogo em si e não na sequência que vinha a construir? O que é que acha?
«Se há coisas que não olho é para os recordes. Recordes no bom sentido. Não tomo atenção a nada disso. Para nós, cada jogo tem sido uma final desde o dia em que aqui cheguei. Quando cheguei, há uns anos, curiosamente estávamos com uma sequência, já do ano anterior, negativa. Tivemos que dar a volta a isso, não foi?»
«Nunca me ouviram dizer que era o meu primeiro ano no Benfica. Que era o ano... Como é que se diz? Como é que se diz quando é o primeiro ano…» Ano zero? «São vocês que estão a dizer. Nunca arranjei essas coisas. Portanto, temos que dar a volta à situação, independentemente de tudo, continuamos em primeiro. É isso que quero dizer aos rapazes», responde como que pretendendo dar um bicada a Luís Magalhães, por este, na passada temporada, em que regressou ao Sporting, por várias vezes ter referido que aquele era o ‘ano zero’ quando os resultados não eram favoráveis.
«Hoje não foi um encontro bom, mas ninguém pode dizer uma coisa: que a equipa não tentou ir buscar o jogo, que estava muito complicado. A equipa colocou-se dentro do jogo e, se calhar mais um ou outro detalhe ali no fim, que falhámos uma ou outra coisita, até podíamos, quem sabe, discutir mais o encontro», rematou.