Fernando arriscou e viajou para os Estados Unidos com o sonho de levar o sabor português à grande festa do futebol

No Texas, o sabor da saudade cabe num pedaço de pão

De avental ao peito e com uma receita sagrada criada em parceria com o Solar dos Presuntos na bagagem, Fernando desafia a imensidão americana para alimentar a alma dos emigrantes (e não só) na rota do sonho mundialista

HOUSTON — A viagem de regresso a casa faz-se, tantas vezes, pelo recôndito labirinto do paladar. Em Houston, onde as linhas cinzentas dos arranha-céus rasgam o céu e o calor abafado do Texas impõe uma cadência lenta à cidade, houve um canto escondido que, na véspera do jogo, cheirou intensamente a Portugal antigo. Um aroma denso, cortante, que evocava tascas de azulejos desgastados pelo tempo e conversas longas partilhadas ao balcão.

Fernando, de avental branco imaculado e boné virado para trás, movia-se por entre os vapores da enorme frigideira com o dinamismo elétrico de quem transporta uma missão que ultrapassa a mera vertente do comércio. Ele é o rosto, a alma e a voz viva do projeto Mr. Bifana.

Trata-se de um conceito itinerante integrado na iniciativa Taste of Portugal, concebida para semear a identidade mais profunda do País em pleno coração da maior celebração do futebol planetário, tendo encontrado o seu porto de abrigo na grande festa que uniu a comunidade lusa na véspera da estreia da Seleção.

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Ao olhar para a enorme panela de alumínio, onde o lombo de porco ferve lentamente num caldo rico e apurado de alho, louro e vinho, a frieza industrial do pavilhão texano parecia dissipar-se por completo sob o peso da tradição.

«Não há nada mais português do que um panelão de bifanas a servir o pessoal num dia de ambiente de futebol», confessa Fernando a A BOLA, enquanto as mãos ágeis da sua assistente montavam os pães recheados que aqueciam a memória viva de centenas de adeptos. Portugueses e não só. A curiosidade de mexicanos, norte-americanos e outros era imensa…

«Esse é que é o objetivo aqui também do projeto, é trazer o melhor que Portugal tem, na sua máxima genuinidade», acrescenta, de olhos postos na moldura humana que se formava em redor do balcão.

A receita, revela o jovem com indisfarçável orgulho, não nasceu do acaso: foi esculpida em parceria com o icónico Solar dos Presuntos, garantindo que nenhum detalhe do património gastronómico de Lisboa se perdesse na imensidão do Atlântico.

«É espetacular agora poder acompanhar a Seleção. Vamos continuar aqui durante a fase de grupos, vamos ver até onde Portugal vai», aponta, com indomável entusiasmo.

A logística desta rota assemelha-se a uma autêntica odisseia por estradas intermináveis e fusos horários distintos, mas o empresário encara a jornada com a paixão audaz dos antigos navegadores. Nova Iorque foi o ponto de partida ideal, Houston ergueu-se como o primeiro teste de fogo em solo hostil e o horizonte desenha-se agora num caminho sinuoso, pontuado pelo fervor popular da diáspora.

«Esperamos que isto acabe tudo em Nova Iorque na final e com a taça a ser erguida por Cristiano Ronaldo», desabafa Fernando, sem esconder a complexidade de um conceito assente no nomadismo: «Logisticamente é um pesadelo, mas enquanto aventura não há melhor, é muito recompensador. Agora, é o primeiro dia, o primeiro de muitos.»

Há uma poesia inegável nesta caravana errante que acompanha o sonho do título, transformando o asfalto do sul americano numa praça tipicamente nossa. Ali, entre duas fatias de pão perfeitamente humedecidas no molho fumegante da carne, não há apenas sustento; há o eco das romarias de verão, o sotaque que resiste à distância e a celebração de um povo que se recusa a esquecer as suas raízes mais íntimas.

«Com a Taça do Mundo e com bifanas a voar, isto vai ser uma maravilha», remata Fernando com um sorriso cansado mas firme, de quem sabe que o Mundial é apenas o pretexto perfeito para atear uma fogueira cultural que continuará a arder muito depois do último apito do árbitro.

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