«No Sporting o ego é coletivo!»
— Custou muito ganhar a primeira Taça de Portugal?
— É a primeira, sim. Foi muito emocionante, é a palavra que melhor descreve. Se calhar, muita gente — inclusive alguns de nós em algumas partes do jogo, não só na negra — não acreditou. Conseguirmos regressar ao jogo, a perder 8-3, numa negra, com a moral do adversário em alta e a nossa, se calhar, não tão acima... Foi a recompensa pelo trabalho desta época. Inúmeros desafios, inúmeras viagens, tempo na estrada todos juntos, muito tempo sem ver a família também. Foi a cereja no topo do bolo.
— O que pensa quando olha para o marcador e vê esse 8-3?
— Muita coisa. Pensa-se: ‘Ainda dá’. Sempre com aquela vozinha interior: ‘Ainda vai dar, ainda vai dar’. Mas, à medida que o jogo se aproxima do fim, ainda por cima numa negra, onde tudo é mais curto, é uma montanha-russa. De crença, de raça, de superação… De nos transcendermos, muitas vezes... Foi dos momentos mais inacreditáveis e inesquecíveis que vivi.
— Tem mais sabor conquistar assim [3-2] a Taça ou preferia se fosse 3-0?
— Preferia 3-0! Não só porque também deixaria uma marca de superioridade em relação ao adversário, que é um grande adversário, mas ainda não perdemos com eles. Se tivesse sido 3-0 tinha sido mais tranquilo, mas se calhar não tinha sido tão prazeroso [risos].
— Esta saga pode continuar no 'play-off', o Benfica apresenta-se como principal rival?
— Não nos escondemos. Sabemos perfeitamente que somos favoritos. Inclusive, acredito que somos favoritos a ganhar o campeonato. Claro que há um play-off para jogar e este formato privilegia os outsiders. Não podemos relaxar e queremos estar na final. Se tiver de ser contra o Benfica, será. Mas estamos mais concentrados em nós, no que podemos fazer e como melhorar para conseguirmos o objetivo mais importante, que é sermos campeões outra vez.
— Este regresso foi à procura de títulos em Portugal? Já tinha sido campeão pelo Sporting.
— Não foi só por isso. Muita gente pensa que o campeonato não é tão competitivo como em França, na Turquia ou noutros sítios, para os quais tive oportunidade de ir. Mas jogar aqui, no Sporting, em particular, é algo que não existe em mais nenhum lado: a seriedade, o compromisso, as condições. Termos sempre um fisioterapeuta, um médico, tudo o que é preciso. Coisas que, se calhar, em campeonatos mais competitivos não existem. E claro que pesou o facto de já ter estado no Sporting. Tive duas passagens: a primeira muito feliz, joguei com lendas portuguesas como o Miguel Maia e o João Fidalgo, que me ensinaram muita coisa, inclusive como é estar num clube assim. A segunda foi um bocado mais azarada porque foi interrompida pela COVID. Mas, quando tive oportunidade e convite para regressar, sabendo que íamos jogar a Champions, achei que era a maneira de voltar pela porta grande. Nem perdi muito tempo a pensar!
— E como foi esta experiência na Champions? Disse, no final da Taça, que estava ‘mal resolvido’.
— Sim, a Champions é um contexto muito diferente, inclusive das outras modalidades. Há uma discrepância enorme no valor das equipas. Jogámos com equipas que disputam o melhor campeonato do mundo e jogam com os melhores todos os fins de semana. Estão habituados a uma exigência diária como nós, mas o nível competitivo é diferente. Jogámos com a equipa do Miguel Tavares, que o ano passado foi finalista da Champions, e batemo-nos com eles. Fizemos uma competição em crescendo. Começámos, se calhar, ansiosos, não habituados àquela exigência — sem reduzir as equipas do nosso campeonato, que têm feito um trabalho espetacular. Mas não se pode comparar o nível de exigência de um jogo com o Benfica com uma equipa que não tenha ficado no play-off. No final, faltaram-nos 10 pontos! Dez erros de serviço a menos ou 10 faltas na rede a menos e tínhamos passado. Mas, o balanço foi muito positivo.
— Foi como um ensaio geral para o ano, se for campeão?
— Espero que sim. É algo que nos move, porque sabemos a importância que isso tem para o Sporting. Todas as modalidades aqui disputam títulos europeus. Ainda estamos um longe desse cenário, mas gostávamos de passar o grupo da Champions. Este ano não faltou assim tanto; foi pena, mas estamos lançados e com muita motivação para jogar outra vez a competição.
— Essa imagem do Sporting nas competições europeias é muito diferente da que encontrou quando chegou cá a primeira vez?
— Sim, todas as modalidades têm vindo a aumentar a exigência. Há algo no Sporting que acho que é exclusivo em Portugal: o contacto que temos diariamente com as outras modalidades, com o hóquei, com o andebol. Vemos o andebol a ganhar às melhores equipas da Europa e isso também funciona um bocado como aquele bichinho: ‘se eles conseguem, nós também temos de conseguir’. Esta competição diária funciona como catapulta para tentar atingir coisas que antes pensávamos ser impossíveis.
— Começou a jogar muito novo?
— Com 8 anos jogava futebol no Leixões. Já era um bocado alto, era ponta de lança, mas não tinha assim muito jeito; os meus pés não foram feitos para estar entre as chuteiras [risos]. Fiz um bocado de tudo: natação, andebol, basquetebol... O meu pai sempre foi ligado ao desporto e estimulava muito, do ciclismo ao bilhar! E a competição! Sou muito competitivo, não gosto de perder em nada. Aos 11 anos foi preciso decidir se ia jogar futebol de 11 ou desistir. Fui experimentar um treino de voleibol e adorei desde o primeiro momento. Depois, foi tudo muito rápido. Não havia equipas para a minha idade e fui inserido numa equipa de mais velhos e isso foi importante. Hoje em dia, és novo, fazes um jogo brilhante e já te fazem acreditar que és mais do que se calhar és naquele momento. Quando estás em contacto com pessoas mais velhas, consegues manter os pés bem assentes na terra.
— E depois o Castêlo da Maia...
— Tinha 17 anos e estreei-me pelos seniores, ainda como oposto, que é uma posição completamente oposta à que jogo hoje. Foi uma época espetacular, o Leixões tinha acabado de subir à primeira divisão, era o clube da minha cidade e eu estava nas nuvens. Surgiram muitos convites para jogar em Portugal e fora também, mas eu ainda era muito novo e tinha algum receio. Estava no 12.º ano. Surgiu a oportunidade de vir para Lisboa, o Sporting ainda não existia e acabei por não seguir esse caminho. Fui para o Castêlo da Maia, contratado como oposto. Estava indeciso entre duas equipas e recebi um telefonema do Flávio Cruz, que era uma referência. Ele disse: ‘Só para saberes que tenho as mesmas ofertas que tu e quero ir contigo para aqui’. Nem pensei duas vezes! Fomos para o Castêlo e tivemos duas épocas muito felizes. Ele dava-me boleia todos os dias, foi alguém muito importante para mim.
— Já imaginava ser profissional de voleibol?
— Entrei na Faculdade de Desporto e conciliei durante os dois anos que estive no Castêlo. Não foi fácil: atletismo, ginástica, voleibol, futebol, mais treino às 8 da noite no Castêlo. Eu era muito feliz a jogar voleibol e sabia que eventualmente ia ter de decidir: ‘Vou ser profissional ou não vai dar’. E a Seleção foi determinante.
— Quando se estreou na Seleção?
— Logo nesse primeiro ano. Há uma história caricata com o professor Hugo Silva. Ele convocou-me com 17 anos, eu estava nos exames nacionais e não viajei com a equipa nem fui aos treinos por causa da escola. Eles perderam esse jogo nos Países Baixos e o Hugo reuniu a equipa toda — eu, um miúdo, a ver o Hugo Gaspar, André Lopes, Marco Ferreira, Alex Ferreira... Ele vira-se para mim e diz: ‘Oh miúdo, porque é que não vieste aos treinos?’. Eu disse que tinha escola e ele: ‘Podes ir embora’. Nesse momento caiu-me tudo e pensei: ‘Não, agora vou mesmo ter de jogar e mostrar que quero isto a sério’. A partir desse ano passei a ir aos treinos sempre! O prof. Hugo foi um grande impulsionador da minha carreira internacional e acho que também respondi às expectativas dele. Foi muito importante na decisão de ser profissional seguir o caminho da Seleção, jogar com grandes equipas e mostrar-me.
— Depois seguiu-se o Sporting.
— Depois de dois anos no Castêlo surgiu a oportunidade. Na altura, para a equipa entrar direta na primeira divisão era preciso que os jogadores tivessem pontos. Faltavam 20 pontos para o Sporting poder, eu jogava na Seleção e tinha 20 pontos. Muita gente disse: ‘Ele só vai para o Sporting porque vale 20 pontos’. Eu até gosto desse cenário, dá-me motivação. Agarrei a oportunidade, tive um ano espetacular com o Miguel Maia, o João Fidalgo, o João Simões... Joguei com o [Angel] Dennis, que via na televisão e pensava que nunca na vida ia jogar com ele. Ganhámos um título com o pavilhão sempre cheio, foi inesquecível!
— E porque decide ir para fora?
— Depois desse ano do Sporting, saí para o SC Espinho e jogar no SC Espinho não é fácil, é um clube que tem muita história, tens de mostrar resultados todos os fins de semana e isso fez-me crescer, e acho que me preparou para os desafios internacionais. Depois apareceu a oportunidade de ir para França, um campeonato que adorava jogar. Fui para o Tourcoing, uma equipa que até já tinha tido alguns portugueses e foi espetacular. Sentia-me super motivado, a jogar com atletas que jogavam nos grandes palcos há muitos anos. Não podia, como diz aquela expressão morrer burro.
— E depois o Saint-Nazaire...
— Depois de ir para o Tourcoing, que era uma equipa da primeira divisão consolidada, na primeira divisão, era como dar dois passos atrás, na segunda divisão. Mas sentia que era interessante
— Não pensou ‘eles acham que eu realmente só valho 20 pontos’?
— Sim [sorri]. O jogador tem o seu ego, e claro que não é fácil. Está numa equipa em França, joga na Seleção, e agora vou para a segunda divisão?! Mas não tive dúvidas, estava lá um jogador que conhecia do Castêlo e sabia que era para sermos campeões. E tive quatro anos maravilhosos lá, a cidade acolheu-me como se fosse filho do clube. Ainda hoje tenho pessoas que me ligam e acompanham os nossos jogos da Champions. Ganhámos o título na Segunda Divisão e, no segundo ano, ficámos nos seis primeiros e jogámos as competições europeias. No terceiro ano, completamente outsiders, ficámos em sétimo e estivemos quase para não ir aos play-off, eliminámos o Nantes (2.º) com uma equipa espetacular. E fomos passando. E começou a sentir-se aquela crença coletiva tipo: ‘Isto é possível, somos sétimos, mas vamos estragar a festa. Vamos ganhar aqui’. E ganhar como ganhámos no golden set, no último jogo da final, depois de perder em casa... Ah, foi histórico!
— Essa experiência tornou mais forte o jogador que regressou?
— Sim. Muita da motivação de sair de Portugal era poder mostrar que não é preciso só os estrangeiros jogarem nos momentos decisivos, que também podemos. A nova geração já está mais astuta e preparada para isso, já saem mais cedo e querem estar em competições mais exigentes para mostrarem que Portugal tem valia no voleibol. Na Seleção temos conquistado coisas que, se calhar, há uns anos, ninguém pensava que fossem possíveis.
— Foi um ano de ouro para o regresso, com Mundial.
— Foi um misto de emoções gigantes! Porque em França tivemos uma época complicada, depois de termos sido campeões, jogámos a Champions, não correu bem, ficámos fora dos play-off e chego a Portugal relativamente cedo. A Seleção só começou em maio e para jogar a Golden League, mas lesionei-me, uma rutura no quadrícipe. Só pensava: ’Não posso perder um Mundial por nada, é impossível. Nem que tenha que jogar com a perna rota, vou ter de jogar este Mundial’. Estive o mês de junho a tratar-me e a recuperar. Perdi a Golden League para estar a 100% no Mundial.
— E foi emocionante
Temos essa pressão de sermos favoritos, que é uma pressão boa. É para isso que qualquer atleta trabalha, para poder ganhar títulos. Temos de nos manter fiéis a nós mesmos, não dar uma bola por perdida, acreditar muitas vezes quando mesmo quando não está favorável. Confiar muito no colega de equipa.
— Pois foi! Ganhámos aquele jogo a Cuba, inacreditável, uma das melhores seleções do mundo, e que, ditou o destino, que dependêssemos de uma vitória dos Estados Unidos, o que aconteceu. Foi mágico, foi espetacular. É um ano muito feliz. Está a ser um ano muito feliz ainda não acabou, e ainda falta o mais importante. Mas sim, tem sido um ano espetacular e estou muito feliz aqui.
— O que é preciso ao Sporting para revalidar o título de campeão?
— É preciso não nos pormos em bicos de pés. É preciso respeitar muito todas as equipas que ainda vamos defrontar nos play-off. É um formato que privilegia os outsiders, estamos cientes disso, e sabemos que somos favoritos. Já estive do outro lado e sei como é bom estar numa equipa que não há pressão para ganhar, que se quer mostrar, e que vem jogar ao João Rocha com tudo o que tem. Mas nós também queremos, temos de querer muito mais do que eles. Porque temos essa pressão de sermos favoritos, que é uma pressão boa. É para isso que qualquer atleta trabalha, para poder ganhar títulos. Temos de nos manter fiéis a nós mesmos, não dar uma bola por perdida, acreditar muitas vezes quando mesmo quando não está favorável. Confiar muito no colega de equipa. Isso é uma força muito grande na nossa equipa. Saber que, num dia menos bom para um, o outro vai aparecer e vai assumir. O Sporting é uma equipa que não se põe em bicos de pés, respeita toda a gente. E isso ajuda-nos muito, faz a diferença. Somos muito unidos, o grupo dá-se muito bem.
— E há diversidade cultural
— Sim. Há muitas culturas misturadas, muito espanhol, muito inglês, muito russo e aquele sotaque meio estranho [risos]. Mas somos todos muito competitivos e ninguém gosta de perder, mesmo nos jogos de aquecimento, nas cargas que fazemos na musculação! Mesmo que seja quase impossível competir com o Edson [Valencia], ninguém gosta de perder [risos]. Não há muito espaço para egos. Claro que todos os jogadores têm egos, mas acho que ganhamos muito porque há um ego colectivo! Pensamos: ‘Ok, não vamos deixar que isto aconteça. Não vou deixar que o meu colega fique retratado assim neste jogo. Vamos ganhar.’
— E fora daqui, o que é o Lourenço gosta de fazer?
— Gosto muito de praia e de mar. Gosto muito de estar com a minha família, com a minha namorada...
Já conhecia muitos jogadores, partilhei o balneário com eles na Seleção: o Kelton, o Gonçalo, o Tiago. O Edson também, joguei contra ele em França. Adaptámo-nos todos muito rápido uns aos outros, todas as peças... Umas mais estridentes, que falam mais, que riem mais, falam mais alto... outras mais discretas, mas que toda a gente tem o seu papel e desempenha uma função fundamental.
— A água aqui é um bocadinho melhor que em Matosinhos, não?
— Quem nasceu em Matosinhos está preparado para qualquer água! Gosto de animais, em Lisboa tenho um gato, porque o meu cão é muito grande. Gosto de passear, jantar fora, estar com amigos. Gosto de estar com a minha equipa, o que às vezes não é fácil [risos] porque estamos muito tempo juntos. Mas tenho amigos na minha equipa.
— É um casamento feliz?
— É, muito. Já conhecia muitos jogadores, partilhei o balneário com eles na Seleção: o Kelton, o Gonçalo, o Tiago. O Edson também, joguei contra ele em França. Adaptámo-nos todos muito rápido uns aos outros, todas as peças... Umas mais estridentes, que falam mais, que riem mais, falam mais alto... outras mais discretas, mas que toda a gente tem o seu papel e desempenha uma função fundamental.
— É como se fosse um puzzle em que encaixam as peças todas?
— Sim, sim. E não é fácil no quotidiano de uma equipa, porque somos 15 e só jogam seis. Haver sempre este bem-estar coletivo, nunca experienciei isto. Sentir a equipa tão feliz, sentirmo-nos todos tão unidos. Acho que é inédito na minha carreira. A Seleção é diferente, porque não há clubismos, toda a gente está ali para o mesmo. Aqui, conseguir estar numa equipa tão competitiva, onde os 14 ou 15 jogadores podem jogar e haver sempre este bem-estar, acho espetacular.