NA AMÉRICA DE EUSÉBIO* A segunda final em castelhano
O dia da final do Campeonato do Mundo de Futebol é sempre especial. Mesmo que o ambiente desiluda ou o jogo fique aquém do expectável. E isso, por vezes, acontece. Em relação à festa nas bancadas, devo desde já dizer que, em quatro das cinco finais que vi ao vivo, esta foi muito pobrezinha. O espetáculo envolvente é produzido a pensar nas plateias televisivas e não em quem está no estádio, e, pior ainda, como muitos milhares de ingressos são comprados com grande antecedência, sem que haja ideia de quem vai defrontar-se, já vi, em estádios com capacidade para 80 mil espetadores, haver dez mil apoiantes de cada equipa e 60 mil turistas do futebol que, por muitas fotografias que tirem, tornam o ambiente morno. A única final que vi com vida própria foi o França-Brasil de 1998, porque se disputou em… Paris; às restantes, Alemanha-Argentina (1990), França-Itália (2006), Espanha-Países Baixos (2010) e Argentina-Alemanha (2014) faltou a força de fora para dentro que se esperaria numa final do Campeonato do Mundo.
Quanto ao futebol, e tenho memória de todas as finais a partir de 1966, houve de tudo: polémica que subsiste até aos dias de hoje no Inglaterra-Alemanha (1966); vitória do futebol-arte, no Brasil-Itália (1970); duelo de titãs, Beckenbauer contra Cruyff, (1974); Argentina levada ao colo (1978); Itália sublime depois de Sarriá (1982); Diego Armando ‘Maravilha’ Maradona (1986); futebol resultadista (1990, 1994 e 2006); as cores unidas da França (1998); bom Brasil, vergonha na arbitragem (2002); y viva España (2010); o susto da Alemanha (2014); confirmação gaulesa (2018); e a final nivelada por cima mais equilibrada de sempre (2022).
E hoje? A arte de Messi ou o rigor de Rodri? A generosidade de Alvarez ou a afirmação de Yamal? Sclanoni na história, igualando Pozzo, ou De la Fuente como Vicente del Bosque?
Querem argumentos cabalísticos? Em 2010, antes da vitória de ‘La Roja’ em Joanesburgo, José Mourinho assinou pelo Real Madrid; em 2026, também. Em 2010, a Espanha eliminou Portugal, por 1-0, nos oitavos-de-final; em 2026, também.
‘Fait-divers’ à parte, a verdade é que, em estilos diversos, os (justos) finalistas se equivalem, nesta segunda final em castelhano (a primeira foi o Uruguai,2-Argentina,1, de 1930). Um desejo: o Mundial da América do Norte, que foi tão bem disputado, em palcos de luxo, merece uma final inolvidável.
* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minutemen, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…