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Mundial 2026: o guia do Paraguai
O PLANO
O Paraguai carimbou o seu lugar no maior palco do futebol mundial ao regressar às suas origens: solidez defensiva e intensidade coletiva. Durante anos, a equipa tentou praticar um jogo baseado na posse de bola, mas sem sucesso, tanto a defender como a atacar. Depois, em agosto de 2024, Gustavo Alfaro chegou com uma mensagem clara desde o primeiro dia, aquilo a que chamou o ADN paraguaio. «Intensidade e baliza a zeros. É isso que nos vai levar ao Mundial». E não estava errado.
O timoneiro argentino manteve-se fiel ao sistema em 4x4x2 em quase todas as partidas, mudando para uma linha de cinco defesas apenas nos compromissos de elevada altitude, contra o Equador e a Bolívia. No Mundial, parece mais provável que privilegie esse clássico 4x4x2, recorrendo talvez a um esporádico 4x2x3x1.
Desde que substituiu Daniel Garnero — demitido após uma Copa América desastrosa —, Alfaro transformou por completo a equipa. Logo a partir do seu primeiro jogo, fora de portas, contra o Uruguai, em Montevideu, o Paraguai pareceu uma formação totalmente diferente. As vitórias caseiras subsequentes frente ao Brasil e à Argentina convenceram até os mais céticos de que a «nova» Albirroja era uma realidade.
Fora de casa, o Paraguai perdeu apenas uma vez sob o comando de Alfaro, precisamente contra o Brasil. Amealharam empates heroicos na Bolívia, a 4.100 metros acima do nível do mar, no Equador, a 2.800 metros, e sob o calor e humidade sufocantes de Barranquilla, diante da Colômbia. A qualificação foi selada com um tenso empate 0-0 em casa, frente ao Equador. O desfecho espoletou a euforia nacional. As celebrações foram de tal forma intensas que o presidente do país, Santiago Peña, decretou o dia seguinte como feriado nacional.
Embora a maior valia do Paraguai resida na sua intensidade e no plano físico, a equipa também consegue praticar bom futebol, construindo de forma apoiada a partir de trás e confiando no talento vertiginoso de Julio Enciso para agitar as águas.
O SELECIONADOR
Gustavo Alfaro inspirou o renascimento da seleção nacional após anos de sucessivos fracassos. O argentino retirou-se dos relvados em 1992, com apenas 30 anos, para se concentrar numa promissora carreira de treinador. Confiando no rigor e na disciplina defensiva, Alfaro guiou o modesto Arsenal de Sarandí à glória, conquistando a Copa Sudamericana em 2007 e a Primeira Divisão argentina em 2012. Esses triunfos definiram toda a sua carreira: até hoje, continua a ser rotulado como um treinador defensivo. Certa vez, utilizou uma frase amplamente atribuída ao antigo basquetebolista e dirigente Pat Riley para explicar a sua filosofia: «Se quero construir uma equipa ofensiva, a primeira coisa que tenho de fazer é trabalhar a disciplina defensiva, caso contrário o meu rabo vai ser corrido daqui para fora.»
Um dos seus maiores feitos aconteceu quando liderou uma jovem seleção do Equador rumo ao Mundial de 2022. Homem culto, que recorre frequentemente a expressões filosóficas nas conferências de imprensa para explicar os acontecimentos, Alfaro também é conhecido como «El Cazador» [O Caçador], em referência ao livro que escreveu após levar a Tri ao Qatar, intitulado Cazadores de Utopías Imposibles [Caçadores de Utopias Impossíveis].
A ESTRELA
Julio Enciso. Trata-se de um dos maiores valores produzidos pelo futebol paraguaio nos últimos 20 anos. «La Joya» [A Joia] espantou tudo e todos com o seu talento ao serviço do Libertad — clube que deu emprego tanto à sua mãe, como empregada doméstica, como ao seu pai, como vendedor ambulante, para os convencer a mudar-se para Assunção quando o filho tinha apenas 12 anos — e estreou-se pela seleção principal aos 17, antes de dar o salto ambicioso para a Premier League. Viveu bons momentos no Brighton, apontando um golo soberbo frente ao Man City digno do Prémio Puskás, contudo as lesões e as chicotadas psicológicas foram desgastando o seu impacto.
Enciso casou-se e encontrou um novo recomeço no Estrasburgo, emblema que representa atualmente. Rápido e vertical, desequilibrador e capaz de ditar leis no último terço, Enciso é um talento especial. Em honra do seu avô, realizou o sonho de disputar um Mundial. «Dedico-lhe isto. Com certeza que me está a ver lá do céu», afirmou.
JOGADOR A SEGUIR
Damián Bobadilla. Ao contrário do seu pai, o antigo guarda-redes Aldo Bobadilla, Damián nunca calçou as luvas. E ainda bem que não o fez — tornou-se num excelente médio. Mas o pai continua a ser o seu grande herói. «O meu pai não tinha capa, mas voava de poste a poste», recordou carinhosamente. Bobadilla saltou para a ribalta no clube do seu coração, o Cerro Porteño, em 2021, exibindo todas as valências de um médio box-to-box de alta qualidade: imponência física, serenidade e discernimento na tomada de decisão. Desde 2024 que atua no São Paulo, no escalão principal do Brasil, onde já se afirmou como uma das peças fundamentais da equipa. Agora com 24 anos, se continuar a render a este nível, parece pronto para o próximo grande passo na carreira.
HERÓI DISCRETO
Toda a estrutura da equipa depende de Andrés Cubas. Garante equilíbrio, ganha duelos e luta por cada bola como se fosse o último lance da sua vida. Embora seja prioritariamente um médio defensivo, Cubas também é perfeitamente capaz de iniciar transições rápidas para o ataque logo após recuperar a posse de bola. Nascido na Argentina, e antigo internacional argentino no escalão de Sub-20, Cubas (jogador de dupla nacionalidade que optou por representar o país vizinho) prometeu à sua mãe — que nasceu em solo paraguaio — que representaria a sua pátria, se lhe fosse dada a oportunidade. E assim foi. Com 1,65m não se impõe pelo físico, mas a sua inteligência, posicionamento e tenacidade compensam largamente a estatura.
XI PROVÁVEL
(4x2x3x1) Orlando Gill - Juan Cáceres, Omar Alderete, Júnior Alonso, [Lateral-esquerdo] - Andrés Cubas, Damián Bobadilla - Diego Gómez, Julio Enciso, Miguel Almirón - Antonio Sanabria
O QUE ESPERAR DOS ADEPTOS
As agências de viagens no Paraguai estão a disponibilizar pacotes de ida e volta para os Estados Unidos que incluem bilhetes para os três jogos da fase de grupos, com preços a começar nos 20.000 dólares. Tendo em conta que o salário médio mensal no país ronda os 450 dólares, trata-se de uma quantia de dinheiro astronómica. Não obstante, espera-se que milhares de adeptos paraguaios façam a viagem para apoiar a La Albirroja num Mundial após uma ausência de 16 anos. As ruas de Inglewood e Santa Clara deverão pintar-se de vermelho, branco e azul — não pelas estrelas e listas americanas, mas pela tradicional bandeira tricolor do Paraguai e pela camisola da Albirroja. E a essas cores juntar-se-á o icónico cântico: «La Albirroooo, la Albirroooo, la Albirroja, la Albirroooo!» em repetição contínua.
RELAÇÃO COM OS EUA/TRUMP
O Paraguai e os EUA são aliados de longa data e poucos indícios sugerem que o cenário esteja prestes a mudar: Santiago Peña, o governante de 47 anos que serve como presidente do Paraguai desde 2023, descreveu a reeleição de Donald Trump como «um sonho tornado realidade», ao passo que Marco Rubio classificou Peña como um «forte aliado americano». No início deste ano, contudo, Trump descreveu o seu homólogo paraguaio como um «rapaz jovem e bonito», o que acabou por não ser tão positivo quanto parecia à partida. «É sempre bom ser jovem e bonito. Não significa que tenhamos de gostar de si», continuou Trump. «Não gosto de homens jovens e bonitos. De mulheres, gosto. Por homens, não tenho qualquer interesse.»
Texto de Christian Pérez e Óscar Gómez para o VS Sports. Estes textos foram escritos no âmbito da Guardian Experts' Network, a rede de troca de conteúdos para o Mundial 2026, liderada pelo jornal inglês The Guardian e que tem A BOLA como representante português, e foram traduzidos com recurso a Inteligência Artificial.
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