O PLANO

Como coorganizador, inserido num grupo competitivo, o Canadá entra no Mundial com grandes expectativas, apesar de nunca ter ganho um jogo numa fase final anterior. Desde a derrota na meia-final da Liga das Nações da CONCACAF frente ao México, em março de 2025, a equipa perdeu apenas um de 15 jogos até à data em que este texto foi escrito — uma sequência que incluiu adversários de excelente nível, como a Colômbia, o Equador, a Ucrânia e os EUA, rivais que os canadianos derrotaram por duas vezes nos últimos dois anos, carimbando inclusive o seu primeiro triunfo em solo americano em 57 anos.

O selecionador, Jesse Marsch, tem mantido um sistema consistente em 4-4-2 ao longo de todo o percurso, com forte tónica na pressão adiantada e na velocidade pelas alas. «Algumas equipas pressionam para recuperar a bola, nós pressionamos para castigar e pensamos logo em marcar assim que recuperamos a posse», explicou Marsch que, apesar de ser norte-americano, conquistou o coração de muitos canadianos desde que assumiu o cargo em maio de 2024 e guiou a seleção até às meias-finais da Copa América.

O sucesso nesse torneio e, posteriormente, nos jogos particulares, baseia-se numa estrutura defensiva que Marsch começou a trabalhar logo após assumir o comando técnico, estreando-se contra os Países Baixos e a França nos seus dois primeiros jogos. O registo de nove jogos sem sofrer golos em 13 partidas, antes dos amigáveis de preparação para o Mundial, torna-se ainda mais impressionante se tivermos em conta que Moïse Bombito, o defesa-central que brilha no Nice, e Alphonso Davies, do Bayern Munique, não somaram um único minuto em nenhum desses desafios, devido a lesão.

«No meu primeiro ano de trabalho desenvolvemos a nossa identidade de jogo e é evidente que somos uma equipa muito mais completa com o Moïse e o Alphonso», sublinhou Marsch. «O último ano serviu para desenvolver a mentalidade global do grupo, garantindo que, quando os holofotes estiverem no máximo da sua intensidade, estaremos prontos para acolher os jogos do Mundial. Sinto que esta equipa é especial e está preparada para este desafio.»

O SELECIONADOR

Jesse Marsch, selecionador do Canadá - Nacionalidade: Norte-americana (EUA)
Jesse Marsch, selecionador do Canadá - Nacionalidade: Norte-americana (EUA)

A primeira aventura de Jesse Marsch no futebol de seleções tem sido coroada de sucesso, embora o próprio admita que não foi um processo de adaptação simples. «Desde o primeiro momento em que trabalhei com este grupo de jogadores, no primeiro estágio, soube logo que me ia apaixonar por estes rapazes», confessou. «São um grupo único de excelentes pessoas, muito talentosos, e quando me despedi deles foi um sentimento totalmente diferente daquele a que estava habituado como treinador de clubes». Marsch tem aproveitado as pausas no calendário para visitar os jogadores canadianos espalhados pelo mundo e passar bastante tempo no país, junto das federações provinciais, de forma a unificar a abordagem ao desenvolvimento e à gestão do futebol local.

A ESTRELA

Alphonso Davies, capitão do Canadá, a representar o seu país na Liga das Nações Concacaf
Alphonso Davies, capitão do Canadá, a representar o seu país na Liga das Nações Concacaf

O capitão Alphonso Davies não joga pelo Canadá desde que sofreu uma rotura do ligamento cruzado anterior, precisamente contra os EUA, no jogo de atribuição do terceiro e quarto lugares da Liga das Nações, em março de 2025. A discussão sobre se deve alinhar como lateral-esquerdo ou descaído na ala tem alimentado o debate entre os adeptos há anos, mas sob as ordens de Marsch o homem do Bayern Munique tem sido prioritariamente utilizado no setor defensivo, assinando exibições soberbas. Contudo, um novo revés físico na segunda mão das meias-finais da Liga dos Campeões, contra o Paris Saint-Germain — o seu terceiro problema nos últimos três meses — colocou em dúvida a sua utilização na estreia frente à Bósnia e Herzegovina. À data em que este texto foi escrito, Davies foi titular em apenas 12 das 29 partidas internacionais da era Marsch.

JOGADOR A SEGUIR

Ismaël Koné (IMAGO)
Ismaël Koné (IMAGO)

Poucos jogadores mereceram tanto trabalho e atenção por parte do selecionador como o médio Ismaël Koné, que chegou a ser relegado para o banco durante a Copa América, por sentir dificuldades em ter impacto nos encontros do Canadá. Desde então, tem estado em plano de evidência no Sassuolo, na Serie A, transformando-se no dinâmico box-to-box que Marsch pedia, depois de colher lições valiosas em Itália, onde melhorou significativamente a sua disciplina e concentração tática. É esperado no XI inicial ao lado do excelente Stephen Eustáquio (jogador de dupla nacionalidade que optou por representar o país norte-americano), formando uma dupla de pivôs defensivos que será crucial para os canadianos.

HERÓI DISCRETO

Ali Ahmed (IMAGO)
Ali Ahmed (IMAGO)

Ali Ahmed, do Norwich City, tornou-se um dos protegidos de Marsch devido ao seu trabalho altruísta no retângulo de jogo. No sistema 4-4-2, Ahmed é o encarregado de liderar a pressão no flanco esquerdo, flectindo muitas vezes para zonas interiores para dar densidade ao meio-campo e conferir intensidade e energia nos momentos sem bola. Uma das razões pelas quais Marsch prescinde de colocar Davies em posições mais adiantadas prende-se com a forma como projeta a equipa no plano defensivo, um cenário onde o antigo jogador dos Vancouver Whitecaps se assume como peça basilar.

XI PROVÁVEL

(4-2-3-1) Crepeau; Johnston, Bombito, Cornelius, Laryea; Eustáquio e Koné; Buchanan, Jonathan David e Ahmed; Larin.

O QUE ESPERAR DOS ADEPTOS

O Canadá está pronto para receber o mundo, mas as atenções no país estão viradas de forma muito mais vincada para a sua seleção do que propriamente para os restantes jogos do torneio. Sendo a única formação a começar o seu trajeto na Costa Este e a transitar diretamente para a Costa Oeste, a equipa permitirá aos adeptos de Toronto e Vancouver verem os seus heróis ao vivo na fase de grupos. O grupo de apoio «The Voyageurs» liderará o barulho nas bancadas com as suas bandeiras e o tradicional cântico «Ooh Ahh Canada». O país é conhecido pela sua população cosmopolita e enorme diversidade cultural, acolhendo cidadãos de todos os cantos do planeta, pelo que a seleção deverá beneficiar do facto de defrontar três oponentes (Suíça, Qatar e Bósnia e Herzegovina) com comunidades de menor expressão demográfica.

RELAÇÃO COM OS EUA/TRUMP

Jesse Marsch não é homem de guardar as opiniões para si e, em fevereiro de 2025, antes da fase final da Liga das Nações da CONCACAF, atirou: «Se tenho uma mensagem para o nosso presidente, é que deixe cair essa retórica ridícula de que o Canadá é o 51.º estado americano. Como norte-americano, tenho vergonha da arrogância e do desrespeito que demonstrámos para com um dos nossos aliados historicamente mais antigos, fortes e leais.»

O Canadá acabaria por derrotar a seleção dos EUA pouco tempo depois e, embora estivesse em causa apenas o terceiro lugar, Marsch viveu o jogo de forma muito emotiva no banco, o que lhe valeu a expulsão por protestos com a equipa de arbitragem. O técnico, que canta entusiasticamente o hino «Oh Canada» antes de cada partida, nunca escondeu o orgulho na sua pátria de nascimento, mas, embora faça um esforço consciente para não abordar temas políticos em público, é evidente que compreende perfeitamente o prazer que os canadianos retiram ao derrotar os vizinhos americanos em qualquer modalidade desportiva.

Textos de Kristian Jack, do Onesoccer. Estes textos foram escritos no âmbito da Guardian Experts' Network, a rede de troca de conteúdos para o Mundial 2026, liderada pelo jornal inglês The Guardian e que tem A BOLA como representante português, e foram traduzidos com recurso a Inteligência Artificial.

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