Seleção de Portugal (foto: Miguel Nunes)
Seleção de Portugal (foto: Miguel Nunes)

O PLANO

Portugal garantiu a sua nona presença em Mundiais — a sétima consecutiva — com relativa facilidade, ainda que um empate caseiro frente à Hungria em outubro e uma derrota na Irlanda em novembro tenham adiado os festejos até à última jornada. Nessa partida final a equipa de Roberto Martínez (sem Cristiano Ronaldo, que tinha sido expulso em Dublin) goleou a Arménia por 9-1.

Variabilidade é aqui a palavra-chave. Martínez está a capitalizar a versatilidade tática do seu plantel: João Neves e Matheus Nunes podem atuar como laterais ou médios (por vezes ambos no mesmo jogo); Cancelo e Dalot jogam confortavelmente em qualquer um dos flancos; e Bruno Fernandes e Bernardo Silva rodam constantemente de funções. Apesar desta fluidez, as escolhas do selecionador permanecem estáveis. Embora as surpresas nas convocatórias sejam raras, o onze inicial tem pelo menos sete lugares "intocáveis". A espinha dorsal está bem definida, liderada por figuras como Diogo Costa, Rúben Dias, Bruno Fernandes, Bernardo Silva e Cristiano Ronaldo, com Nuno Mendes e Vitinha a servirem também como titulares indiscutíveis.

«Ganhámos 10 jogos consecutivos no caminho para o Euro 2024, mas a equipa não estava tão preparada nessa altura como está agora. Os desafios ajudam-te a crescer», sublinhou Martínez após a qualificação. «Naquela altura, faltava-nos a resiliência necessária para ganhar títulos. Na Liga das Nações foi diferente. Reagimos quando a Alemanha marcou, quando a Espanha marcou, e ganhámos o torneio. É aí que estamos agora. Devemos preparar-nos bem. A expectativa é dar tudo e trazer os valores do povo português para o relvado. Esta equipa fá-lo com talento. Vamos tentar ganhar o Mundial. Nunca foi feito e não será fácil».

Martínez enfatiza também uma missão mais pessoal: «É uma responsabilidade lutar pelo sonho do Diogo», afirma o técnico que, desde as mortes trágicas de Jota e do seu irmão André Silva, faz questão de incluir o nome da «estrelinha» que olha pela equipa em todas as listas de convocados.

O SELECIONADOR

Roberto Martínez no Jamor - Foto: Miguel Nunes
Roberto Martínez no Jamor - Foto: Miguel Nunes

Roberto Martínez esteve perto de deixar a Seleção Nacional há um ano (com José Mourinho à espreita), mas a conquista da Liga das Nações valeu-lhe um voto de confiança do novo presidente da FPF, o antigo árbitro internacional Pedro Proença. Apesar de ter sofrido a sua primeira derrota de sempre numa fase de qualificação após 43 jogos, o treinador espanhol garantiu a sua terceira presença em Mundiais — tendo ido duas vezes com a Bélgica — sem grande stresse. No entanto, isto não significa que o ciclo com Portugal não termine este verão, mesmo com sucesso. «O presidente e eu estamos alinhados: o foco é o Mundial. Não é uma questão de querer ou não querer; não está em cima da mesa. O Mundial não pode esperar, mas a situação do selecionador pode», disse em março, mantendo o mistério no ar.

A ESTRELA

Cristiano Ronaldo bastante aplaudido pelos adeptos - Foto: Miguel Nunes

(Provavelmente) Não irá festejar o seu 1000.º golo na carreira durante este Mundial, mas estar tão perto dessa marca histórica diz muito sobre a ambição de Cristiano Ronaldo. Aos 41 anos, participa no torneio pela sexta vez (um recorde, somando 22 jogos e 8 golos em edições anteriores). Já uma lenda, o capitão simboliza a fome de uma nação que quer juntar o troféu do Campeonato do Mundo ao título do Euro 2016. Continua a ser um íman tanto para adeptos como para defesas, destinado a inspirar cânticos, selfies e momentos virais. «O sonho acabou», escreveu Ronaldo nas redes sociais em 2022, após a eliminação de Portugal nos quartos de final frente a Marrocos. Quatro anos mais tarde, o avançado regressa para atacar «o maior e mais ambicioso sonho» da sua carreira, uma última vez. Ninguém está disposto a apostar em quando terminará esta caminhada incomparável. «As pessoas pensam que quando falo em retirar-me em breve, isso significa daqui a seis meses ou um ano. Estou a brincar!»

JOGADOR A SEGUIR

14 - Gonçalo Inácio
14 - Gonçalo Inácio

«O Inácio era suplente como lateral-esquerdo nos sub-23 e sub-19. Alguns jogadores podem surpreender-te». As palavras são de Rúben Amorim, o homem responsável pela ascensão de Gonçalo Inácio no Sporting. Apesar da sua natureza discreta e introvertida, o defesa-central tornou-se um pilar no seu clube e um dos seus capitães. Despoja-se da timidez a cada passe vertical a quebrar linhas — uma aptidão artística que será vital para Portugal neste Mundial. Tendo já marcado presença no Euro 2024 e feito parte da conquista da Liga das Nações no ano passado, entra neste torneio com um estatuto reforçado como o principal candidato a fazer dupla com Rúben Dias no coração da defesa.

HERÓI DISCRETO

Diogo Costa, guarda-redes do Porto

Poderá ainda ter adeptos por conquistar a nível global devido à menor visibilidade da liga portuguesa, mas Diogo Costa é uma garantia de segurança. Um dos melhores guarda-redes do mundo. O capitão do FC Porto é um digno sucessor de Vítor Baia tanto no clube como na seleção. Número um de Portugal desde 2022, ruma ao seu segundo Mundial. Felino entre os postes e excecional com os pés, é também um especialista a defender grandes penalidades; ficou famoso ao parar três penáltis consecutivos contra a Eslovénia nos oitavos de final do Euro 2024. «O segredo de Portugal é o Diogo; ele é o segredo mais bem guardado do futebol europeu», disse Martínez na altura. Costa foi igualmente decisivo na final da Liga das Nações há um ano, defendendo um penálti crucial dos espanhóis.

XI PROVÁVEL

(4-2-3-1) Diogo Costa; Cancelo, Rúben Dias, Gonçalo Inácio, Nuno Mendes; João Neves e Vitinha; Bernardo Silva, Bruno Fernandes e João Félix; Cristiano Ronaldo.

O QUE ESPERAR DOS ADEPTOS

Embora um Mundial na América do Norte seja dispendioso, os adeptos portugueses são ferozmente dedicados. Estarão presentes em grande número, especialmente à medida que a equipa progredir. Podem não dominar sempre as bancadas em termos numéricos, mas a sua presença far-se-á sentir. Embora alguns apoiantes não consigam deixar as rivalidades clubísticas para trás (até na escolha do vestuário), o verde e o vermelho da bandeira irão predominar — frequentemente vistos em camisolas com o nome de Ronaldo. O apoio é habitualmente ruidoso mas não agressivo, caracterizado por cânticos de incentivo e uma ponta de humor. Os adeptos portugueses são geralmente descontraídos, pacíficos e deixam uma impressão positiva nos países anfitriões.

RELAÇÕES COM OS EUA / TRUMP

As relações de Portugal com os Estados Unidos são historicamente sólidas, embora Donald Trump divida opiniões, tal como acontece noutros locais. A utilização da Base Aérea das Lajes (Açores) para operações militares americanas continua a ser um ponto de debate político, mas os adeptos importam-se geralmente mais com a gestão dos clubes do que com a geopolítica. A Federação tem procurado evitar debates delicados relativos à organização do torneio, com os adeptos a focarem-se mais no custo elevado dos bilhetes e das viagens. Embora Trump raramente mencione Portugal especificamente, recebeu Cristiano Ronaldo na Casa Branca em novembro, durante uma visita do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman.

Estes textos foram escritos no âmbito da Guardian Experts' Network, a rede de troca de conteúdos para o Mundial 2026, liderada pelo jornal inglês The Guardian e que tem A BOLA como representante português

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