O PLANO

A Escócia qualificou-se para o Mundial em circunstâncias dramáticas, que absorveram quase três décadas de frustração. Este feito marca a primeira presença na grande montra desde 1998 e foi alcançado numa noite de arrepiar em Hampden Park, quando a Dinamarca acabou derrotada por 4-2. Scott McTominay marcou com um pontapé de bicicleta soberbo e Kenny McLean selou o triunfo a partir da linha de meio-campo, já nos descontos.

Os meses que se seguiram revelaram-se complicados. As derrotas sem golos marcados frente ao Japão e à Costa do Marfim, somadas à frustração visível de Steve Clarke com o seu cenário contratual, pareceram arrefecer o entusiasmo da Tartan Army. Antes disso, o ambiente era de euforia. «O número de pessoas que se aproximam de ti e que só querem apertar-te a mão para dizer "obrigado e parabéns" é algo muito especial de se sentir», recordou Clarke. «Caminhas pelo aeroporto e uma em cada duas pessoas quer apertar-te a mão.»

Agora vem a parte mais difícil. Clarke tem em mãos um plantel envelhecido e com pouca acutilância ofensiva se os médios — essencialmente John McGinn e Scott McTominay — não derem o seu contributo. A posição de guarda-redes tem sido um problema crónico há já algum tempo. No eixo central da defesa, os escoceses são mais competentes do que propriamente fortes, tendo oscilado entre uma linha de três ou quatro elementos. McGinn, McTominay, Andy Robertson e Che Adams são os homens de confiança do selecionador quando estão operacionais. Inúmeros outros acompanham Clarke há vários anos; esta é uma comitiva escocesa rica em internacionalizações.

Clarke é pragmático na abordagem, mas será uma surpresa se não alinhar com dois avançados no primeiro jogo contra o Haiti. Uma vitória aí dará à Escócia uma oportunidade real de ultrapassar a primeira fase pela primeira vez na história. Há também uma razão latente para que Clarke se apresente mais audaz; o técnico foi duramente criticado pelos adeptos devido às táticas defensivas num jogo de tudo ou nada contra a Hungria, no último Europeu.

É provável e compreensível que adote um estilo mais expectante contra Marrocos e o Brasil, que, simplificando, são equipas superiores à Escócia. A equipa de Clarke sabe ser útil em cenários desse género: são excelentemente rotinados e perigosos nas transições ofensivas.

O SELECIONADOR

Steve Clarke, selecionador da Escócia - Nacionalidade: Escocesa
Steve Clarke, selecionador da Escócia - Nacionalidade: Escocesa

A Escócia estava na penumbra, com a participação em grandes torneios reduzida a um sonho inalcançável, quando Steve Clarke assumiu o cargo em 2019. A história olhará com muita benevolência para o antigo jogador do Chelsea, dado que guiou a sua nação a três de quatro fases finais possíveis. Clarke raramente é expressivo em público, o que às vezes joga contra si, mas mantém um respeito enorme por parte do plantel. Adota uma abordagem muito prática no terreno de treino e possui um lado autoritário de que os jogadores estão bem cientes. O discurso de Clarke no balneário antes do decisivo encontro de qualificação frente à Dinamarca teve um impacto tremendo. «Está entre os melhores que já ouvi antes de um jogo», confessou Andy Robertson.

A ESTRELA

Scott McTominay marcou um golaço de bicicleta pela Escócia à Dinamarca
Scott McTominay marcou um golaço de bicicleta pela Escócia à Dinamarca

Scott McTominay evoluiu de uma peça de recurso no Manchester United para o estatuto de herói em Nápoles. Cresceu em dimensão e importância na seleção escocesa ao mesmo tempo que relançava a sua carreira a nível de clubes, e o seu golo de bicicleta no triunfo frente à Dinamarca ficou gravado na história como um dos tentos mais belos jamais vistos em Hampden Park. A segunda passagem de Alex McLeish pelo comando técnico é recordada por muitos como pouco memorável, mas a verdade é que foi o antecessor de Clarke quem convenceu este médio nascido em Inglaterra a optar pela Escócia. O legado de McLeish para a sua nação, apenas com essa decisão, revelou-se precioso. A Escócia depende fortemente do talento de McTominay para agitar os jogos.

JOGADOR A SEGUIR

Ben Gannon-Doak (IMAGO)
Ben Gannon-Doak (IMAGO)

A mudança de Ben Gannon-Doak do Liverpool para o Bournemouth foi fustigada por problemas físicos, mas o extremo continua a acelerar as pulsações dos adeptos escoceses. A verticalidade e a velocidade de Gannon-Doak fazem dele um elemento diferente de todos os que o rodeiam. Clarke tem pedido cautela à comunicação social e aos adeptos, desejando que o jovem de 20 anos tenha espaço para evoluir, mas a natureza do seu jogo é tal que o mediatismo se torna compreensível. Gannon-Doak reduziu de forma memorável Josko Gvardiol a um autêntico manequim quando a Escócia defrontou a Croácia em Glasgow. Ele vai deliciar-se no palco deste Mundial.

Ryan Christie IMAGO

HERÓI DISCRETO

Ryan Christie, do Bournemouth, afirmou-se silenciosamente como um jogador com uma carreira sólida na Premier League e caminha a passos largos para as 75 internacionalizações. O médio é tecnicamente evoluído, garante energia e oferece perigo em zonas de finalização. Contudo, o jogador natural de Inverness parece muitas vezes esquecido na hora de distribuir elogios pelas figuras do plantel de Clarke. Uma explicação óbvia para isso é o facto de dois dos elementos habitualmente utilizados ao seu lado, McTominay e McGinn, serem as principais estrelas da companhia. Aos 31 anos, este poderá não ser o último Mundial de Christie, mas será inquestionavelmente o único no auge das suas faculdades. Não seria surpresa nenhuma vê-lo assinar contributos valiosos.

XI PROVÁVEL

(4x4x2) Gunn - Ralston, Souttar, Hanley, Robertson - Christie, Gilmour, McTominay, McGinn - Adams, Shankland

O QUE ESPERAR DOS ADEPTOS

Não é exagero sugerir que o apoio de bancada da Escócia poderá eclipsar os próprios jogadores. A Tartan Army viajará em massa e com a boa disposição habitual. Ganharam reputação pelo seu civismo e espírito festivo, independentemente dos resultados. O regresso a um Mundial, 28 anos depois, fez com que uma imensidão de adeptos que nunca experimentaram este ambiente fizesse as malas de imediato, pouco importando se tinham ou não bilhete garantido para os estádios. Esperem muita cor, kilts, gaitas de foles e um nível de consumo de álcool que dará um contributo gigantesco ao PIB dos Estados Unidos.

RELAÇÃO COM OS EUA/TRUMP

Um dado pouco conhecido é que 34 dos 45 presidentes dos Estados Unidos têm raízes escocesas. Nenhum, contudo, apresenta ligações tão vincadas como Donald Trump, cuja mãe nasceu e cresceu nas Ilhas Ocidentais da Escócia. Trump é proprietário de estâncias de golfe em solo escocês, mantendo uma ligação contínua ao território. O amor do presidente pela Escócia pode ser descrito como não correspondido, mas será justo assumir que os homens de Steve Clarke serão a segunda equipa favorita de Trump na competição? A Tartan Army, por seu turno, faz questão de se manter totalmente apolítica. A Federação Escocesa está fortemente alinhada com a FIFA, pelo que qualquer protesto ou ruído de cariz político por parte da Escócia no Mundial é altamente improvável.

Textos de Ewan Murray, do the Guardian. Estes textos foram escritos no âmbito da Guardian Experts' Network, a rede de troca de conteúdos para o Mundial 2026, liderada pelo jornal inglês The Guardian e que tem A BOLA como representante português, e foram traduzidos com recurso a Inteligência Artificial.

A iniciar sessão com Google...