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Mundial 2026: o guia da Chéquia
O PLANO
O papel de underdog assentou historicamente bem à Chéquia, que poderá ser capaz de voltar a surpreender — mas a verdade é que não tem muitas ferramentas para o fazer. Durante muito tempo, a equipa sentiu a falta de executantes técnicos, confiando em demasia no poder físico, na rotação, na agressividade e nas bolas paradas. Isso ficou evidente no play-off de acesso ao Mundial contra a República da Irlanda e a Dinamarca, vencendo ambas as eliminatórias nas grandes penalidades após duas exibições de autêntico combate.
No Mundial, as longas viagens, as mudanças de fuso horário e a altitude vão desempenhar um papel fundamental, existindo muitas dúvidas sobre a forma como a equipa irá lidar com os dois jogos no México, a cerca de 2.000 metros acima do nível do mar. Sobretudo porque o quartel-general da comitiva estará sediado em Dallas.
A espinha dorsal da equipa é experiente. Tomás Soucek continua a ser o líder no meio-campo, apesar de lhe ter sido retirada a braçadeira de capitão depois de os jogadores não terem agradecido aos adeptos após uma vitória por 6-0 contra Gibraltar. «Os adeptos têm todo o direito de expressar o seu descontentamento com a exibição insatisfatória nos jogos recentes», comunicou a federação. «A reação dos jogadores deveria ter sido exatamente o oposto. Deviam ter agradecido aos adeptos que estiveram ativos.»
Ladislav Krejčí, o duro defesa-central do Wolverhampton, assumiu a liderança como capitão, marcou em ambos os jogos do play-off e empurrou a equipa para a frente. No ataque, espera-se que Patrik Schick seja a principal arma ofensiva, apresentando uma condição física melhorada na transição para a época 2025/26.
Pelo meio houve espaço para um embaraço — uma derrota histórica diante das Ilhas Faroé — durante a qualificação, que ditou o despedimento do selecionador Ivan Hašek. Felizmente, muitas coisas melhoraram após a tomada de posse de Miroslav Koubek.
O XI inicial deverá ser uma combinação de jogadores da Premier League e de outras grandes ligas europeias com atletas que se têm vindo a afirmar no campeonato checo. Há uma forte concorrência para o lugar de guarda-redes, com Matej Kovar a ajudar o PSV Eindhoven a conquistar a liga neerlandesa e a defender dois penáltis no play-off — embora Lukas Hornicek, do Braga, esteja a pressionar fortemente pelo seu espaço. Lukas Provod e Pavel Sulc estão entre os elementos chamados a agitar as águas no plano criativo. O objetivo será passar a fase de grupos.
O SELECIONADOR
Miroslav Koubek estava prestes a tornar-se o selecionador mais velho num Mundial, aos 74 anos, mas Dick Advocaat, quatro anos mais velho, acabou por ser readmitido para liderar Curaçau no torneio. Ainda assim, Koubek está no auge das suas capacidades. Demorou muito tempo a ver o seu valor reconhecido — treinou nas ligas inferiores checas enquanto trabalhava como mediador de seguros até aos seus 50 anos, subindo gradualmente até ao escalão principal do seu país. Acabou por orientar tanto o Slavia de Praga como o Viktoria Plzen, sagrando-se campeão com este último, em 2015. O feito teve um preço, já que havia prometido aos seus jogadores que faria uma pequena tatuagem no braço como recordação do triunfo.
É capaz de extrair o rendimento máximo de recursos limitados e continua a acompanhar os tempos modernos, seguindo as últimas tendências. Utiliza dados estatísticos e é respeitado por jogadores, adeptos e pela comunicação social, não apenas pelas suas conquistas mas também pelo seu humor refinado e seco, capaz de animar conferências de imprensa habitualmente monótonas.
A ESTRELA
Patrik Schick continua a ser a maior estrela e a referência internacional da Chéquia. O avançado do Bayer Leverkusen alia movimentos elegantes a uma finalização de eleição, conseguindo decidir partidas praticamente sozinho. As lesões têm quebrado o seu ritmo de forma intermitente, mas a sua qualidade é indiscutível. Schick saltou para a ribalta durante o Euro 2020, ao apontar cinco golos, um dos quais ficou para a história do torneio, quando fuzilou as redes da Escócia a partir da linha de meio-campo. Para a Chéquia, ele não é apenas a principal fonte de golos, mas também o jogador mais temido pelos adversários. Os 16 golos na Bundesliga em 2025/26 mostram que chega em boa forma.
JOGADOR A SEGUIR
Pavel Sulc desenvolveu-se rapidamente até se tornar o rosto da nova geração do futebol checo. Depois de se destacar como figura no Viktoria Plzen, o médio ofensivo mudou-se para o Lyon, no ano passado, e rubricou uma excelente temporada de estreia na Ligue 1. Sulc garante imprevisibilidade e perfume técnico nas entrelinhas — revelando capacidade para marcar, criar oportunidades e pressionar de forma agressiva. Os adeptos do Lyon apreciam a sua inteligência e frieza na finalização e, embora possa não ser um nome sonante fora da Chéquia e de França, isso poderá mudar após o Mundial.
HERÓIS DISCRETO
Tomas Holes raramente atrai as atenções fora da Chéquia, mas os treinadores e companheiros de equipa valorizam-no imenso. O jogador do Slavia de Praga é taticamente inteligente, disciplinado e capaz de atuar tanto no meio-campo como na linha defensiva. O veterano, de 33 anos, faz muito do trabalho invisível que permite aos elementos mais criativos brilhar. Ocupa espaços, ganha as segundas bolas e ajuda a manter a estrutura da equipa sob pressão. Os adeptos checos ainda se recordam das suas exibições soberbas no Euro 2020, quando anulou grandes figuras e até faturou no jogo dos oitavos-de-final frente aos Países Baixos. Pode não ser uma estrela, mas é o tipo de jogador de que qualquer equipa precisa.
XI PROVÁVEL
(3-5-1-1) Kovar - Holes, Hranac, Krejci - Coufal, Provod, Soucek, Darida, Zelený - Sulc - Schick
O QUE ESPERAR DOS ADEPTOS
É improvável que os adeptos checos viajem em grande número - como acontece, por exemplo, com os de Inglaterra, Argentina ou México -, mas aqueles que o fazem costumam ser apaixonados, ruidosos e muito movidos a cerveja (embora sem contornos violentos). Tradicionalmente entoam cânticos simples como «Cesi do toho!» («Força, checos!») e criam uma atmosfera amigável, misturada com alguma autodepreciação e humor negro. A violência é algo muito raro em torno da seleção, ao contrário do que sucede no futebol de clubes. O simples facto de chegar ao Mundial já foi motivo de grandes celebrações e poucos adeptos terão capacidade financeira para viajar para os EUA e para o México. Os que conseguirem, contudo, não vão passar despercebidos.
RELAÇÃO COM OS EUA/TRUMP
No geral, a sociedade checa continua a ser uma das mais pró-americanas da Europa Central, fruto das ligações históricas após a Revolução de Veludo em 1989 e da adesão à NATO, dez anos mais tarde. É verdade que o atual presidente checo, Petr Pavel, tem sido bastante crítico em relação a Trump, chegando a descrevê-lo como «um ser humano verdadeiramente repulsivo», mas espera-se que os adeptos que viajem para os Estados Unidos se foquem muito mais nos preços dos bilhetes, alojamento e custos de transporte do que propriamente na política.
Textos de David Čermák, do the Guardian Estes textos foram escritos no âmbito da Guardian Experts' Network, a rede de troca de conteúdos para o Mundial 2026, liderada pelo jornal inglês The Guardian e que tem A BOLA como representante português, e foram traduzidos com recurso a Inteligência Artificial.