José Mourinho, treinador do Benfica - Hugo Delgado/LUSA
José Mourinho, treinador do Benfica - Hugo Delgado/LUSA

Mourinho deixa o Benfica, Rui Costa é o novo treinador

Palavras do treinador sobre os ativos são a ponta do icebergue de uma gestão confusa do Benfica. E enquanto o barco vai afundando, dispara em todas as direções...

Os números estão longe de dizer tudo no futebol, mas dizer que o Benfica não venceu qualquer um dos últimos três jogos com o Casa Pia será suficiente para perceber que a águia é, definitivamente, a terceira força do futebol em Portugal nesta altura. O caminho das trevas do FC Porto durou apenas uma época, a de transição de 40 anos de Pinto da Costa para André Villas-Boas, e o Sporting está sólido e até já faz peito aos mais poderosos da Europa.

Quando chegou, Mourinho prometeu «meter um dedinho» na equipa, mas nem com o Benfica a jogar de semana a semana e, por isso, com mais tempo para trabalhar, transparece a mínima evolução na equipa. Com bola, o fio de jogo é enfadonho e, ao dia de hoje, dependente do que faz Schjelderup, esse mesmo que só não saiu porque fez a exibição de uma vida frente ao Real Madrid.

E enquanto o barco vai afundando, com mais uma época paupérrima na era Rui Costa depois de mais de 100 milhões de euros gastos, Mourinho segue o seu método habitual de apontar o dedo a tudo e todos. Após o empate com o Casa Pia, o treinador disse, com todas as letras, que queria abdicar de certos jogadores, mas não o faz porque «outros valores se levantam».

O que Mourinho disse é, além de relevante, grave, revela pouco poder do treinador que, em tempos, encostou Casillas, Pogba, Ricardo Carvalho ou Pepe, para tomar decisões que só a ele lhe dizem respeito e deveria obrigar Rui Costa a reagir, porque os problemas não se resolvem fingindo que não existem ou com pífias publicações de revolta no X. Também já Bruno Lage, no famoso áudio da garagem, tinha aflorado esta questão, apesar de, na altura, ter garantido ser tudo «tirado do contexto».

Afinal, quem escolhe quem joga e deixa de jogar no Benfica? Há interesses superiores aos meramente desportivos? Talvez assim se perceba o porquê de Banjaqui, Gonçalo Oliveira, José Neto ou Gonçalo Moreira continuarem à margem, Enzo ser adaptado a central, Sidny Cabral contratado quando há muito boa prata da casa na posição e a renovação com Otamendi, à beira dos 40 anos, ainda ser tema.

Em tempo oportuno escrevi neste espaço que o regresso de Rafa seria nocivo para o coletivo e não é surpresa que, dois meses volvidos, o avançado seja um dos alvos da ira do treinador. Com este negócio só o Besiktas ganhou, ao livrar-se de um grande contrato, e, por outros valores se levantarem, Sudakov saiu da equipa quando, finalmente, dava um ar de sua graça. Este é só um dos inúmeros exemplos de uma gestão sem critério e ao sabor do vento.

É pouco crível que apontar falta de caráter de alguns jogadores para lutar pelo título seja a melhor forma de motivar um plantel de braços em baixo para ainda sonhar com um 2.º lugar que tanta diferença fará no orçamento para a próxima época, mas Mourinho não o fez inocentemente. Rui Costa já sabe que, continuando com o treinador, como parece que fará depois de, ontem, ter empurrado a questão com a barriga — «a continuidade de Mourinho não é questão neste momento», disse em exclusivo a A BOLA — terá de fazer a enésima revolução no plantel e contratar jogadores do perfil (de jogo e de... caráter) que ele quer, com os enormes custos que isso terá.