Portugal não tem problema de talento, mas de estratégia e dispersão, o que ao mesmo tempo representa oportunidade. Foto Imago
Portugal não tem problema de talento, mas de estratégia e dispersão, o que ao mesmo tempo representa oportunidade. Foto Imago

O que distingue o nosso atleta, treinador ou dirigente?

O Lado Invisível é uma rubrica quinzenal de opinião da responsabilidade de Rui Lança, diretor executivo de outros desportos do Al Ittihad, da Arábia Saudita

Como é que um país com apenas 10,5 milhões de habitantes (mais 2 ou 3 milhões espalhados pelo Mundo) consegue produzir tanto talento no desporto?

É uma pergunta recorrente que me fazem. Não apenas no futebol, a principal montra, mas no desporto em geral. Há atletas a destacar-se em várias modalidades e nos melhores campeonatos, treinadores e dirigentes a abrir portas em diferentes países e equipas portuguesas a competir com sucesso contra contextos que investem três vezes, cinco ou muito mais.

Ponto de partida: isto é uma excelente notícia. É positivo e motivo de orgulho. E há um fator crítico nisso: alcançamos estes resultados mesmo reconhecendo que não trabalhamos tão bem quanto poderíamos. Mas existe também um elemento de preocupação, com um lado de curiosidade quase enigmático: porque somos fortes em alguns desportos e nas áreas de treino e gestão? O que nos distingue?

Responder a esta questão é decisivo. Em qualquer projeto, a autoanálise permite identificar rapidamente forças e áreas a desenvolver. A minha leitura é que não sabemos, de forma clara, o que nos diferencia, nem como esse diferencial se forma, evolui e sustenta.

Um teste simples: se pedíssemos a cada profissional do desporto em Portugal que escrevesse, num post-it, uma única característica diferenciadora, obteríamos centenas ou milhares de respostas diferentes. Isso indicaria falta de clareza coletiva. E daqui resultam dois problemas: se não sabemos o que nos distingue, dificilmente o conseguimos desenvolver; e torna-se complexo definir estratégia sem um entendimento comum sobre forças, fraquezas e posicionamento.

Escrevi neste mesmo espaço que o desporto, sobretudo fora do futebol, enfrentará dificuldades financeiras recorrentemente. E o atual contexto no Médio Oriente tende a agravar a fragilidade de muitos projetos. O futebol, pela sua dimensão, poderia resistir mais e melhor, mas o tema da sustentabilidade será exposto também em vários clubes e associações.

Apesar disso, existe valor claro para partilhar. Profissionais estrangeiros reconhecem-no. As visitas frequentes a centros de treino em Portugal demonstram interesse não apenas pelas infraestruturas, mas pela integração entre áreas, como a ligação entre departamentos médicos e o desempenho desportivo, por exemplo. Há investigadores portugueses em todo o lado, treinadores em ligas competitivas, dirigentes em mercados como Inglaterra, França, Brasil, Arábia e técnicos de modalidades como basquetebol ou andebol com presença internacional.

O exercício é obrigatório: identificar, estruturar e tornar consciente o que nos permite atingir níveis elevados com recursos limitados e, por vezes, de forma pouco coordenada. Como no Andebol, Atletismo, Judo, Canoagem, Ginástica, etc. Temos uma elevada taxa de exportação de talento per capita. Vemos a Premier League (expoente máximo do futebol) e é raro o jogo que não coloca frente a frente portugueses, seja nos treinadores, atletas, staff médico, scouting, dirigentes de gestão, etc.

O que é interessante é isto: há uma performance acima do esperado face ao orçamento, investimento, população e, desculpem a sinceridade, face à nossa forma de trabalhar. O que nos leva para a seguinte questão: e se trabalhássemos bem, onde estaríamos?

Quanto mais claras forem essas respostas, mais forte será a indústria do desporto em Portugal. Trabalhar identidade, posicionamento e uma lógica de marca Portugal–Desporto é um passo estratégico. Em paralelo, reforçar a cooperação entre profissionais portugueses no estrangeiro aumentará a capacidade de influência e consolidação internacional (aprender com os espanhóis por exemplo).

Isto não seria apagar a identidade individual de cada um. Seria termos algo para trabalhar em todas as federações, entidades relacionadas com o desporto. Seria uma ferramenta poderosa para as universidades, as associações de treinadores, etc.

Se compararmos Portugal com outros países (apenas da Europa) com números similares aos nossos em termos de população ou menores, percebemos três indicadores onde somos diferentes.

Primeiro, e ao contrário de uma Dinamarca, Suíça, Áustria, já para não falar da Eslovénia ou Croácia, temos mais modalidades onde costumamos aparecer no topo. O que somos é mais inconstante, ou seja, há mais dispersão e menos consistência do sucesso.

Segundo, a maioria dos países com a nossa dimensão são a favor da hiperespecialização (é assumido em termos estratégicos) e em Portugal existe mais dispersão competitiva e de investimento. Resta saber sinceramente se é propositado ou fruto da incapacidade que temos de gerir conflitos e, com isto, tentar agradar a muitos.

Terceiro, há um aproveitamento mais difuso do nosso talento e é fruto de um sistema menos estruturado. A excelente notícia é que temos uma margem de crescimento elevado se existir uma estratégia clara e que seja respeitada continuadamente.

Este trabalho não é da responsabilidade de uma entidade só. Provavelmente seria uma discussão interessante a ter/observar entre vários treinadores de diferentes modalidades. O que distingue o treinador português dos outros do Mundo? É algo de modalidade a modalidade ou tem mais de comum? E o dirigente? A verdade é que, no contexto certo, somos altamente competitivos. Temos competências que são negligenciadas em Portugal e depois lá fora fazem-nos brilhar. E os atletas?

Por último, considero que Portugal não tem tanto um problema de talento, mas mais de estratégia e dispersão. Produzimos acima da média com menos recursos. Podemos e devemos considerar isso uma vantagem competitiva, embora ainda pouco estruturada. E é precisamente por isso que o risco é maior: aquilo que não é compreendido, não é replicável, aquilo que não é estruturado, é mais difícil de manter. Parece-me que Portugal continua a ter bons resultados apesar do sistema, mas não por causa dele.

A oportunidade é esta mesmo, conseguir transformar talento numa vantagem.

Se isso acontecer, deixamos de ser um país que surpreende e passamos a ser um país que pode dominar em (algumas) modalidades globais. E neste caso, a verdadeira questão não seria o como foi que chegámos aqui, mas seria até onde podemos ir se, finalmente, tivermos uma estratégia de como e para onde queremos ir.