Oito dos nove empates do Benfica no campeonato foram já com José Mourinho — Foto: IMAGO
Oito dos nove empates do Benfica no campeonato foram já com José Mourinho — Foto: IMAGO

Chega de desculpas, Mourinho

Depois do Qarabag, das arbitragens ou do percurso fora de normal dos rivais, agora foram os jogadores. É tempo de assumir responsabilidades. Este é o 'Livre sem barreira', espaço de opinião de Hugo do Carmo

O Benfica não foi além de um empate com o Casa Pia e não aproveitou a surpreendente igualdade do FC Porto com o Famalicão, o que significou o definitivo adeus dos encarnados ao título. José Mourinho foi o primeiro a reconhecê-lo, logo após a desilusão em Rio Maior. Até aqui tudo normal.

O mais estranho foi o que se seguiu, com o treinador a tecer críticas internas. «Neste momento tinha vontade de não fazer jogar mais alguns jogadores, mas há valores mais altos que se levantam, são ativos e mesmo que eu não quisesse continuar com algum deles se calhar é mais fácil não continuar tentando valorizar do que hostilizando.» Disse e repetiu. Primeiro na flash interview e depois na sala de imprensa. Pelo que não foi uma gafe — algo que Mourinho raramente comete —, e também não acredito que tenha sido uma reação a quente, mesmo considerando o peso desolador do empate.

Mourinho é um mestre da comunicação e tudo o que diz tem um propósito. O special one não tem paralelo no discurso, pelo que há, sim, que descodificar a mensagem. A BOLA logo identificou Rafa, Enzo Barrenechea e Lukebakio como os que mais têm desiludido o treinador, mas também facilmente se percebe que Sudakov e Ivanovic, até pela diminuta utilização, igualmente não o convencem.

Não foi Mourinho a escolher o plantel e é normal que vários jogadores não se enquadrem nas suas ideias de jogo, mas não é normal que o treinador critique publicamente elementos do grupo. Ele melhor do que ninguém sabia que ato contínuo às suas declarações o elencar de nomes ia ser uma prioridade de todo o País. Dito e feito.

Certo é que o título para o Benfica é uma miragem e que o segundo lugar, que vale o acesso à UEFA Champions League, ficou mais distante. Muito pouco para um clube com a dimensão do Benfica.

Os encarnados continuam imbatíveis na Liga, mas já cederam nove empates, oito deles já com Mourinho no comando técnico. É certo que dois foram com o FC Porto e outros dois com Sporting e SC Braga, mas há mais quatro muito penalizadores, daqueles cujos pontos se consideram irrecuperáveis. Com Rio Ave, Tondela e Casa Pia, por duas vezes, voaram oito pontos. Que, como se percebe, fazem agora toda a diferença.

Depois do Qarabag, das arbitragens ou do percurso fora de normal dos rivais, Mourinho critica agora jogadores. Até admito que tenha razão em muitas das queixas, mas entendo que já chega de desculpas. É tempo de assumir responsabilidades. Até porque falhou em várias opções e muitos momentos. As contratações de Rafa e Sidny em janeiro, por exemplo, já têm o seu selo.

Esta época, mesmo que atinja o segundo lugar, está perdida para o Benfica. Logo é tempo de planificar a próxima. E o presidente Rui Costa, em exclusivo a A BOLA, deu-lhe quarta-feira carta branca. «José Mourinho tem contrato por mais um ano, não é uma questão neste momento. Estamos em sintonia.»

Talvez fosse o que Mourinho queria ouvir…