Alexander Manninger no Liverpool no último ano de carreira (IMAGO)
Alexander Manninger no Liverpool no último ano de carreira (IMAGO)

Morreu o carpinteiro que se sentiu honrado por ser suplente de Buffon

Alexander Manninger foi vítima de trágico acidente aos 48 anos

Alexander Manninger, antigo guarda-redes que passou por clubes como Juventus, Fiorentina, Torino e Arsenal, morreu esta quinta-feira num acidente de viação. Poucos dias antes, o austríaco tinha concedido uma longa entrevista à Gazzetta dello Sport onde recordou a carreira e falou sobre a vida que levada, longe dos relvados.

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De regresso à sua Áustria natal, Manninger voltara à primeira profissão da vida, a de carpinteiro. «Ser carpinteiro ensinou-me a importância do suor e dos sacrifícios», revelou, acrescentando que essa sua faceta foi apreciada por treinadores como Antonio Conte e Jurgen Klopp. «Diziam-me que eu era fundamental para transmitir aos mais jovens a atitude para o trabalho», recordou.

A carreira de Manninger ganhou notoriedade no Arsenal, sob o comando de Arsène Wenger. «Até me emociono só de pensar nisso. Tinha 20 anos, era um miúdo, Wenger queria trazer uma dimensão internacional para o clube e apostar nos jovens. Eu era um deles». O austríaco recorda com carinho a segurança que sentia por ter à sua frente «um monstro sagrado como Tony Adams», mas lamenta ter saído cedo demais. «Queria jogar», justificou.

A mudança para a Fiorentina em 2001 revelou-se uma «decisão errada». O clube estava à beira da falência e a situação era caótica. «Encontrei uma situação absurda. Durante vários meses não recebemos salários», contou. O treinador era Roberto Mancini, que por vezes brincava: «Quem sabe se amanhã treinamos, dizia. Ele brincava, mas todos sabíamos que podíamos falir a qualquer momento».

Depois de várias experiências, foi em Siena que encontrou estabilidade e o carinho dos adeptos. «Que cidade, que paz. Siena é a minha casa. Trataram-me como um rei», afirmou, destacando a ajuda do seu antigo colega Enrico Chiesa. «Ele ajudou-me imenso no início. Lembro-me que ele ficava horas a rematar, não saía do campo até que tudo lhe saísse bem».

Alexander Manninger com Buffon na Juventus em 2010 (IMAGO)

Essa dedicação fê-lo recordar Alessandro Del Piero, com quem partilhou o balneário na Juventus. «Quando eu era o suplente de Gianluigi Buffon, no final do treino ele ficava comigo horas. E que desafios! Surpreendia-me sobretudo nos penáltis: um batedor exímio», disse, lembrando que o antigo avançado era «de outra categoria».

Sobre a sua relação com Buffon, Manninger foi claro: «Fantástica, a sério. Nunca me fez sentir o peso da sua grandeza. Ficava espantado com a tranquilidade que ele tinha Foi uma honra ser seu suplente.»

Final em Liverpool

A carreira de Manninger terminaria no Liverpool, treinado por Jurgen Klopp, uma transferência que surgiu de forma inesperada em 2016. «Tudo começou com um telefonema», recordou o antigo guarda-redes, que tinha carinho por esse último capítulo.

A transferência foi um pedido expresso de Jurgen Klopp, que se lembrava dele de um jogo anterior. «O Jurgen sabia tudo sobre mim, dois anos antes eu tinha vencido o Dortmund dele com o Augsburgo», recorda. Klopp disse-lhe depois em Merseyside: «Quero aquele guarda-redes. Naquele dia defendeste tudo, tens de fazer o mesmo por mim». Apesar de não ter tido minutos em campo, a experiência foi marcante. «Na verdade, nunca joguei, mas já tinha quarenta anos. Deixar o futebol a despedir-me dos adeptos em Anfield foi uma emoção.»

Longe dos relvados, um antigo guarda-redes regressou à sua antiga profissão de carpinteiro, um trabalho que lhe ensinou o valor do esforço. «Ensinou-me o que é o suor e o trabalho árduo. E hoje sou feliz», afirmava, distanciando-se do mundo digital que domina o desporto. «Eu nem sequer tenho Instagram, imagine-se só. Sou feliz na minha paz e na minha simplicidade».