Milan: Ruben Amorim para acordar um gigante em crise profunda
Durante décadas, o Milan foi sinónimo de excelência. O clube que dominou a Europa sob a liderança de Silvio Berlusconi tornou-se uma referência, acumulando títulos, estrelas e uma identidade que inspirava respeito em qualquer estádio. Hoje, porém, a realidade é bem diferente. E é neste contexto que surge o nome de Ruben Amorim como principal candidato a assumir o comando técnico dos rossoneri em 2026/27.
Se o treinador português acabar mesmo por rumar a San Siro, encontrará um dos maiores clubes da história do futebol, mas também uma instituição mergulhada numa profunda crise, marcada por instabilidade diretiva, mudanças constantes de rumo e resultados muito aquém da dimensão do emblema.
De Berlusconi ao declínio
A era dourada de Silvio Berlusconi terminou oficialmente em 2017, quando o histórico proprietário vendeu o clube após mais de três décadas de sucesso. Até aí, o Milan conquistara praticamente tudo: cinco Ligas dos Campeões, oito campeonatos italianos e uma imagem de marca assente num futebol dominante e ambicioso. Os problemas maiores começaram precisamente depois da sua saída.
A venda ao empresário chinês Li Yonghong revelou-se um desastre financeiro e, dois anos depois, o clube passou para as mãos do fundo Elliott Management. Em 2022, chegou a vez da norte-americana RedBird Capital assumir o controlo, prometendo modernizar a estrutura e devolver o Milan ao topo do futebol europeu. Os resultados, contudo, ficaram muito aquém das expectativas.
Para se ter noção da dimensão da crise recente do emblema milanês, vejamos os números. Desde 2017, o Milan conquistou apenas dois troféus: uma Serie A (2021/22) e uma Supertaça italiana (2024/25). Um registo modesto para um clube que soma sete Ligas dos Campeões e 19 campeonatos no seu palmarés.
A instabilidade refletiu-se também no banco de suplentes. Desde esse mesmo ano, passaram por Milanello nomes como Vincenzo Montella, Gennaro Gattuso, Marco Giampaolo, Daniele Bonera, Stefano Pioli, Paulo Fonseca, Sérgio Conceição e Massimiliano Allegri. Oito treinadores em nove anos, sendo que, destes, apenas Stefano Pioli conseguiu chegar às duas temporadas completas no San Siro.
2025/26, um «fracasso inequívoco»
A temporada 2025/26 simbolizou na perfeição essa desorientação. O Milan passou largos meses nos lugares cimeiros da Serie A e chegou a alimentar ambições de lutar pelo título. Contudo, o rendimento colapsou na reta final. Derrotas sucessivas - seis nas últimas dez jornadas - afastaram a equipa da Liga dos Campeões e culminaram numa humilhante queda para o quinto lugar.
A reação da direção foi radical: despedimento de Allegri e saída de figuras-chave como o diretor desportivo Igli Tare, o diretor técnico Geoffrey Moncada e o administrador Giorgio Furlani. A própria RedBird classificou a época como um «fracasso inequívoco».
Mas os problemas vão além dos resultados. Nos últimos anos, os adeptos têm acusado a administração de não compreender a cultura do clube. A saída de Paolo Maldini, em 2023, foi encarada por muitos como o momento em que o Milan se desligou definitivamente da sua identidade histórica.
Os exemplos de Fonseca e Conceição
Foi por este ambiente que passaram os únicos treinadores portugueses da história do clube (até agora). O primeiro foi Paulo Fonseca, que chegou no verão de 2024 rodeado de expectativas, depois de um bom trabalho no Lille, mas nunca conseguiu estabilizar a equipa nem criar uma ligação forte com a estrutura. A experiência durou quatro meses: 24 jogos e 12 vitórias foram o legado do técnico que acabou por sair sem títulos e sem deixar marca.
Para substituir Fonseca, chegou Sérgio Conceição. O antigo treinador do FC Porto assumiu o comando em janeiro de 2025 e não poderia ter começado melhor. Vitórias nos dois primeiros jogos - contra os gigantes Juventus e Inter - e conquista da Supertaça italiana, que continua a ser o último troféu ganho pelo Milan. Foi, no entanto, sol de pouca dura. A falta de consistência competitiva e os problemas internos acabaram por ditar o destino do técnico no final da temporada, depois de 16 triunfos em 31 partidas.
Agora, o nome de Ruben Amorim surge associado ao banco rossonero. O português construiu reputação precisamente por aquilo que o Milan mais tem procurado nos últimos anos: uma ideia de jogo clara, liderança forte e capacidade para desenvolver jogadores. No entanto, se aceitar o desafio, encontrará um cenário muito diferente daquele que encontrou no Sporting... e mais parecido ao que teve pela frente na infeliz passagem pelo Manchester United.
Para Amorim, a ida para San Siro pode representar uma segunda oportunidade noutro dos maiores palcos do futebol mundial. Mas também será, provavelmente, o desafio mais complexo da carreira. A questão é: poderá correr bem?
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