José Mourinho, treinador do Benfica, pediu que o público também faça parte do jogo — Foto: Miguel Nunes
José Mourinho, treinador do Benfica, pediu que o público também faça parte do jogo — Foto: Miguel Nunes

Mensagem a Farioli, ilha no oceano, dificuldade de treinar o Benfica, parolice, tangas a até toupeiras, tudo o que disse Mourinho

Treinador dos encarnados anuncia que Benfica vai com tudo — apesar de ter anunciado mais uma baixa na equipa — para o clássico e ainda a pensar no título. Assinalou que a equipa não teve ajudas feias, mas sofreu «empurrões ao contrário». E disse que ainda não venceu FC Porto e Sporting porque os treinadores dos rivais são melhores. Conferência de Imprensa rica no Seixal

— À partida para este terceiro clássico com o FC Porto, está à espera de um jogo mais estratégico, como foram os outros dois, ou um jogo mais amarrado? E, por outro lado, que importância atribui a este jogo para as contas do campeonato?

— Olhe, não sei o que esperar, honestamente. Dizer o que se espera tem sempre um risco elevado. O futebol é imprevisível. Podemos falar de intenções, declarações de intenções... Agora, dizer aquilo que se espera, encontro isso um bocadinho complicado. As contas do campeonato fazem-se jogo a jogo. Tem sido assim desde o princípio e será assim até que matematicamente as coisas estejam abertas, para o campeão, as competições europeias, a decida de Divisão. Enquanto a matemática o permitir, os jogos têm todos a mesma importância. Mas, objetivamente, a nossa distância para o primeiro classificado é de sete pontos. Não quero imaginar porque sou otimista, mas pondo em cima da mesa uma dose de pessimismo: sete podem transformar-se em 10, obviamente que seria um passo gigante [atrás] para as nossas possibilidades de sermos campeões se esfumarem nesse momento. Mas não quero ser pessimista e pensar nisso, quero ser o mais pragmático possível no sentido de que, enquanto matematicamente as coisas forem possíveis, vamos com tudo aquilo que temos.

— Francesco Farioli, há pouco em conferência de imprensa, considerou o Benfica o maior rival do FC Porto e disse ter admiração por si enquanto treinador e pessoa. Como reage a estas palavras?

— Sobre as palavras dele relativamente a mim como treinador e pessoa, já lhe agradeci. Não falámos ao telefone, mas já lhe enviei mensagem. Conhecemo-nos há um bom par de anos. Ao longo desse tempo temos trocado algumas palavras, telefonemas de circunstância. E já lhe agradeci. Se não me tivesse, não o mencionaria. Perguntou-me e, assim, aproveito para dizer o que é que fiz. A última mensagem que tínhamos trocado foi pelo Natal. Agora, senti a necessidade de fazê-lo. Se ele diz que nós somos o maior rival, é uma opinião dele. Se você me perguntar quem é o nosso maior rival na luta pelo título, digo que é o FC Porto porque jogamos amanhã com o FC Porto e é a equipa que vai em primeiro lugar. Mas, objetivamente, considero que o Sporting e o FC Porto são verdadeiramente os nossos rivais e estão à nossa frente. São os nossos rivais pela luta pelo título.

— Farioli destacou a evolução e e a mudança de mentalidade do Benfica. Enalteceu o facto de o Benfica não ter derrotas no campeonato. Pensando no FC Porto que defrontou no Dragão e no FC Porto dos últimos jogos, na sua opinião, o FC Porto melhorou ou piorou de rendimento?

— Não me sinto muito confortável a estar aqui a comentar as palavras do Francesco ainda que tenham sido positivas, simpáticas e agradáveis de ouvir. Honestamente, também não sinto que deva fazer essa avaliação se o FC Porto está melhor ou pior. Não quero ir por aí. Quero ir na direção de que temos um jogo seguramente muito difícil, contra uma equipa que, por natureza, é difícil. Quando jogámos contra eles, tive palavras que considero absolutamente normais e ainda fui criticado. Mas não tenho problemas em repetir. É uma equipa fácil de analisar, fácil de decifrar. Até é um elogio: jogam de um modo muito percetível, os princípios de jogo são muito percetíveis. Aquilo que disse, e repito, é que é muito difícil jogar contra eles. Há outras equipas que são mais complicadas de decifrar, têm outro tipo de dinâmicas, de princípios, variam muito de jogo para jogo e é mais fácil de jogar contra essas equipas, porque têm essa variabilidade, mas depois também têm muitas debilidades. É difícil jogar contra o FC Porto.

— É o terceiro clássico que joga esta época frente ao FC Porto. Amanhã, no Estádio da Luz, que tipo de papel podem ter os adeptos? Podem empurrar o Benfica?

— É sempre a mesma história e utilizo muitas vezes, ao longo da minha carreira, estas palavras: ir ao jogo para ver o jogo, ou ir ao jogo para jogar o jogo. Há adeptos que vão ao jogo para ver o jogo e pagam o seu bilhete para isso, não são criticáveis. Mas há outros adeptos que vão ao jogo para jogar o jogo. Quando tens muita gente que vai ao jogo para jogar o jogo, é quando crias um determinado tipo de ambiente e positividade atrás da tua equipa. Há meses que ganhamos jogos a pensar neste jogo. Aquilo que nos motivou quando tínhamos 10 pontos de desvantagem, às vezes começávamos jogos com 12 ou 13 porque jogávamos depois do FC Porto… Uma das coisas que nos motivaram nesta luta e nesses jogos difíceis, era poder chegar a este jogo em condições de luatr seriamente pelo campeonato. Se tivessemos a 12/13/14/15 pontos, empatado em Barcelos ou nos Açores… A grande motivação era chegar a este jogo e dizer: ‘OK, vamos lá ver se conseguimos lutar pelo título.’ E, tendo feito isso tão bem quanto os rapazes fizeram, acho que os rapazes merecem, honestamente, esse apoio extra. Que foi o apoio extra que o FC Porto teve contra nós nos dois jogos.

— Não obstante o Benfica ter vencido Nápoles e Real Madrid e ter competido até pela qualificação para os oitavos de final da Liga dos Campeões, em Portugal, salvo na Supertaça, ainda não venceu FC Porto, SC Braga e Sporting. Porque é que isso aconteceu e porque é que os benfiquistas devem ter motivos para acreditar que agora será diferente?

— Aconteceu porque o treinador do Sporting e do FC Porto são melhores do que eu. O motivo pelo qual os benfiquistas podem acreditar que podemos ganhar amanhã é aquilo que a equipa tem feito de bom — ganhando a esses adversário que teve a gentileza de referir e, mesmo nos jogos em que não conseguimos ganhar ao FC Porto e ao Sporting, competimos a sério. Perdemos um, mas podíamos não ter perdido; empatámos dois, mas podíamos ter vencido. Essa proximidade à vitória, que foi o que aconteceu apesar de não termos conseguido ganhar, é o suficiente para os adeptos irem à Luz e confiarem que podemos ganhar.

— Sente os rapazes prontos para ganhar este jogo? E em relação ao FC Porto, o que destaca mais: o ataque, o meio-campo ou a defesa?

— Não consigo fracionar ou separar, nem gosto. Se têm tantos pontos é porque têm sido equipa na sua globalidade. Têm um estilo definido pelo treinador, pela adminitração ou por ambos, e pelas contratações que fizeram no verão e em janeiro, para continuar a alimentar aquele estilo e filosofia, que os tem levado a fazer tantos pontos. Mais que na época passada, que é uma ilha num oceano, não é normal. Se o Francesco disse qualquer coisa positiva em relação ao nosso processo ofensivo, acho que disse o que praticamente todos veem, que alguns não querem referir. O Benfica é uma equipa que cria muito ofensivamente, joga muito no campo adversário, expões-se muitas vezes, porque não somos uma equipa que marca muito golos. Marcamos pouco em função do que criamos ofensivamente. Mas é a nossa forma de jogar, também é uma exigência do benfiquismo, que não aceitaria que o Benfica jogasse de outra maneira. Há clubes nos quais é mais fácil ser treinador, porque não existe essa exigência — exige-se resultado mas não se exige um determinado modo de jogar. O Benfica é diferente. Mas é assim. Às vezes até cometemos alguma erro e pagamos por isso. Não é que tenhamos pago muito porque os nossos resultados no campeonato não têm sido negativos. Mas é um modo de jogar. Não critico. Cada um joga de acordo com as suas ideias e de acordo com a idiossincrasia do clube.

Sobre os rapazes: não estão todos prontos, porque há rapazes que não podem ir a jogo. Mas aqueles que vão a jogo, estão prontos. Tivemos uma boa semana. Fomo preparando o jogo de uma dificuldade máxima e que exige uma atenção ao detalhe. Estão preparados. Temos a ausência já conhecida do Aursnes e penso que teremos também alguma não conhecida, mas tivemos alguns percalços nos últimos dias e haverá mais alguma ausência não conhecida. Se isso vier a acontecer faz parte e vamos com os rapazes que estão prontos.

— Esteve mais de 20 anos fora. Regressou e o ambiente no futebol parece continuar basicamente na mesma. Porque lhe parece que este clima de guerra acontece?

— A que é que se refere?

— Às trocas de palavras entre os presidente de Sporting e FC Porto, aos comunicados do Benfica, por exemplo. A este ambiente.
— Misturar os comunicados do Benfica com a troca de palavras entre os presidentes do FC Porto e do Sporting, é bocadinho exagerado da sua parte. Relativamente às palavras dos presidentes: presidente é presidente, treinador é treinador. Eu, a não ser que seja levado a uma situação limite, evitarei sempre entrar em conversa de presidente. São eles que nos empregam e desempregam, que nos são hierarquicamente superiores e longe de mim comentar as palavras que trocaram os presidentes de Sporting e FC Porto. Se me fizesse a pergunta noutro âmbito, talvez pudesse ser mais específico. Sou treinador e posso tentar analisar coisas relativamente ao jogo, influências diretas no jogo. Por aí posso ir, agora por trocas de palavras entre dirigentes importantes não é para mim.

— Quais são as ausências não conhecidas de que falava? Em relação ao último jogo do FC Porto, houve uma mudança em relação à forma como joga, com Pepê mais na zona central. Pensando nisso e na ausência de Aursnes, preocupa-o para o preenchimento do meio-campo?

— De facto, o FC Porto em Alvalade utilizou uma variante que, de certa maneira, até me surpreendeu. Cria dificuldades diferentes ao adversário. Obrigou-nos a trabalhar um bocadinho mais. Trabalhámos relativamente ao que o FC Porto tem feito toda a época e depois ao que fez no jogo com o Sporting, com o ala esquerda a jogar por dentro e a criar um quadrado na zona central. De resto, até podem aparecer com outra variante. Se isso acontecer, temos de ser capazes de ler o jogo, comunicar e de nos organizarmos, sem fazer a parolice de mandarmos o Trubin para o chão, para me reunir com os jogadores num timeout. Surpreendeu o Sporting naquela fase inicial, tiveram uma entrada muito boa. Sobre as ausências, dou-vos um bocadinho mais de trabalho de investigação. Para alguns será mais fácil, basta uma chamada que há sempre aí alguma toupeira escondida que o dirá. Para outros têm que trabalhar um bocadinho mais. Mas nestas coisas não dou tangas, não há mentiras nem mentirinhas. Estamos de facto com dúvidas com um par de jogadores que são normalmente titulares.

— Caso o Benfica não consiga vencer, será mais importante não perder do que tentar ganhar? E o resultado do SC Braga-Sporting pode mudar a abordagem?

— O jogo do Sporting não muda nada. Amanhã, mais do que pensar em ‘vamos com tudo’ ou ‘vamos segurar’, é sentir o jogo com a ambição que temos. Aquilo que nos motivou a dar muito ao pedal, sem ter uma única ajuda daquelas ajudas feias, que uma pessoa até se sente mal com elas... ainda bem que não tivemos nenhuma dessas. Tivemos alguns empurrões ao contrário. Mas lutámos muito para chegar a este jogo em condições de ainda podermos pensar que podemos [chegar ao título]. Vamos com tudo o que temos e a pensar que é possível. Veremos o que conseguimos. Adversário difícil, mas vamos com tudo o que temos.