Mário Aníbal (foto: A BOLA)
Mário Aníbal (foto: A BOLA)

Mário Aníbal, o homem que nunca sonhou com os Jogos Olímpicos

Perfil realizado por Margarida Simões, no âmbito da disciplina de Jornalismo Desportivo da Licenciatura em Comunicação Social e Cultural da FCH-Católica, à qual A BOLA se associa.

Às nove da manhã, 80 mil pessoas enchiam o Estádio Olímpico de Sydney. O silêncio antes do tiro de partida dos 100 metros parecia impossível num recinto daquela dimensão, mas Mário Aníbal lembra-se dele como se tivesse sido ontem. O decatlo começava ali: dois dias, dez provas, um corpo levado ao limite. E, no meio de dezenas de atletas vindos de todo o mundo, um português que tinha passado anos a evitar um pensamento: os Jogos Olímpicos.

«Eu nunca sonhei em ir aos Jogos Olímpicos», diz hoje, sem hesitar. «O que sonhava era ser cada vez melhor».

A frase pode soar estranha vinda de um ex-atleta olímpico, mas ajuda a perceber quem é Mário Aníbal e a forma como sempre encarou o desporto. Ao contrário de muitos desportistas que crescem a imaginar medalhas e estádios cheios, o antigo decatleta construiu a carreira de forma quase matemática. Não acreditava em sonhos demasiado distantes, mas em progresso. Primeiro, melhorar alguns centímetros. Depois, baixar décimos. Mais tarde, aproximar-se dos 8.000 pontos. Quando finalmente chegou a Sydney, em 2000, não foi como um homem que concretizava uma fantasia de infância, mas como alguém que cumpria uma meta construída ao longo de anos de disciplina.

Mário Aníbal Dias Sampaio Ramos nasceu a 25 de março de 1972, em Nova Sintra, Angola. Veio para Portugal aos oito anos e cresceu na Chamusca, longe dos grandes centros do atletismo nacional. Foi nas aulas de Educação Física da Escola Secundária da Chamusca que um professor percebeu que existia ali algo diferente.

No fundo, o decatlo parecia combinar com a personalidade dele. Não há espaço para distrações nem especializações confortáveis. O decatleta precisa de dominar um pouco de tudo e sobreviver à exaustão. É uma modalidade para obsessivos do detalhe.

Talvez seja por isso que, mesmo enquanto atleta, Mário Aníbal nunca treinou automaticamente.

«Eu procurava perceber o que estava a fazer, porque é que estava a fazer, porque é que os intervalos eram assim e não eram assados», recorda. Essa curiosidade acabaria por definir a segunda parte da vida dele.

Em 1990 chegou ao Benfica e afirmou-se como um dos grandes nomes do atletismo português. Foi sete vezes campeão nacional de decatlo e bateu várias vezes o recorde nacional, fixando-o em 8.213 pontos, em 2001. Nos Jogos Olímpicos de Sydney terminou no 12.º lugar, o mesmo resultado que alcançou nos Campeonatos do Mundo de 2001.

Mário Aníbal nos Jogos Olímpicos de Sidney (foto: A BOLA)
Mário Aníbal nos Jogos Olímpicos de Sidney (foto: A BOLA)

A filha, Raquel Sampaio, diz que essa mentalidade nunca desapareceu.

«O meu pai é exatamente igual nas pistas e fora delas», conta. «É extremamente competitivo e dá sempre o seu melhor em tudo».

Raquel tinha apenas 5 anos quando o pai deixou de competir, em 2005. As lesões acumulavam-se há muito tempo e o corpo começava a dar sinais de desgaste, até que uma operação a um tumor na perna acabou por marcar definitivamente o fim da carreira. Para alguém que tinha passado praticamente toda a vida nas pistas e ginásios, deixar de competir significava reaprender a viver sem a rotina que o acompanhava desde a adolescência. Ainda assim, a memória desse momento ficou-lhe gravada.

«Lembro-me de estar com o meu pai num hospital depois de ser operado ao tumor que teve na perna e foi por causa disso que terminou a carreira enquanto atleta», recorda.

Mesmo longe das pistas como competidor, o atletismo nunca saiu verdadeiramente da vida de Mário Aníbal. Em casa, continuava a organizar os dias quase como se ainda estivesse em preparação para uma grande competição. A disciplina manteve-se e a família habituou-se à intensidade constante de quem parece estar sempre focado num objetivo. Tornou-se treinador, foi diretor técnico do atletismo do Sporting e acabou por continuar ligado ao alto rendimento através da Federação Portuguesa de Atletismo, onde está até aos dias de hoje.

A transição foi natural. Não apenas porque tinha experiência enquanto atleta, mas porque já observava o treino com olhos de treinador muito antes de deixar de competir.

«Ser ex-atleta não é suficiente para ser treinador», explica. «É necessária formação».

A frase resume outra das características que quem o conhece lhe atribui frequentemente: pragmatismo. Mário Aníbal não romantiza o desporto, fala dele com frontalidade quase cirúrgica.

Quando lhe perguntam que conselho daria a jovens atletas, responde sem rodeios: «Não percam muito tempo num sítio onde possam não ser felizes». Conta que, muitas vezes, aparecem pais com filhos à procura de respostas sobre o talento das crianças. E que prefere ser completamente sincero. «Faço quatro ou cinco testes e tenho de dizer: o menino não tem jeito nenhum, para procurar outra modalidade».

Não o diz por crueldade, pelo contrário, acredita que a honestidade evita anos perdidos e falsas expectativas criadas demasiado cedo. Essa exigência também aparece na forma como encara os valores no desporto. Fala frequentemente em respeito e humildade, mas introduz nuances pouco habituais.

«Um atleta de alta competição não pode respeitar muito o adversário», explica. «Porque senão vai sentir-se inferiorizado.»

A ideia parece contraditória, mas ajuda a perceber a forma como vê o alto rendimento: um espaço onde equilíbrio emocional e confiança são tão importantes quanto o talento.

A atleta Agate de Sousa conhece bem essa faceta. Atualmente campeã mundial do salto em comprimento, é treinada por Mário Aníbal e descreve-o como «flexível e compreensivo». «Sabe puxar por nós nos momentos certos e preocupa-se verdadeiramente com o atleta, dentro e fora das pistas», afirma.

Mário Aníbal com Agate de Sousa (foto: A BOLA)
Mário Aníbal com Agate de Sousa (foto: A BOLA)

A relação entre os dois ultrapassa a componente técnica. Agate destaca sobretudo o impacto da experiência de Mário Aníbal enquanto antigo atleta olímpico. «Ele já viveu o alto rendimento por dentro», explica. «Isso faz com que os conselhos dele tenham ainda mais impacto.»

Os ensinamentos raramente se resumem à técnica. «Costumo ouvir que só o talento não chega», conta a atleta.

Há pouco tempo, Agate viveu um desses momentos em que a confiança do treinador se tornou decisiva. Sem motivação para competir na pista curta, foi incentivada por Mário Aníbal a continuar. O resultado acabou por ser uma medalha de ouro mundial. «Foi ele que me incentivou», lembra.

Curiosamente, o próprio Mário Aníbal parece funcionar muitas vezes assim: como alguém que acredita antes dos outros acreditarem. Talvez venha daí a forma como encara o desporto enquanto ferramenta de construção pessoal. Diz que o atletismo lhe moldou o carácter e que ainda hoje vive «como se fosse um atleta de alta competição». «Se tiver que reagir, reajo. Se tiver que manter calmo, mantenho-me calmo», explica.

A idade mudou-lhe o corpo, naturalmente, mas nunca alterou a mentalidade competitiva que foi construindo ao longo de décadas de alto rendimento. «Continuo como um atleta de alta competição, já num corpo velho.»

Quem vive com ele confirma isso.

Raquel diz que cresceu com «a mentalidade de uma atleta», apesar de nunca ter seguido o desporto. Em casa, o pai nunca precisou de fazer grandes discursos motivacionais. A forma como vivia, bastava para transmitir essa exigência diária. Fala de disciplina, esforço e superação como valores transmitidos pelo pai desde sempre. «Eu tento dar sempre o máximo que tenho para dar», afirma.

Mas as lições não ficaram apenas nas pistas. Raquel lembra-se de dois ensinamentos particulares do pai: aprender a confiar nas próprias decisões e nunca demonstrar fragilidade em momentos difíceis. «Habituou-me a não mostrar que estou perdida», diz.

A descrição mais curiosa surge quando tenta resumir quem é Mário Aníbal.

«Para mim, é o senhor atletismo», afirma. «Não consigo pensar no meu pai sem pensar em atletismo.»

Talvez seja impossível separar as duas coisas. Desde os 12 anos que Mário Aníbal vive praticamente todos os dias ligado ao desporto. O atletismo atravessou a infância, a carreira olímpica, as lesões, a passagem para treinador e até a vida familiar.

Ainda assim, existe um lado menos visível que contrasta com a imagem séria normalmente associada aos treinadores de alta competição. Nos tempos livres gosta de tocar bateria, uma paixão que funciona como fuga ao rigor do atletismo. O prato preferido continua a ser muamba de galinha, uma ligação às origens angolanas que nunca perdeu apesar de ter vindo para Portugal ainda criança. E, talvez por acreditar mais no trabalho do que na sorte, diz que nunca teve superstições.

E tem o sonho de ganhar uma medalha olímpica. Não como atleta, mas como treinador, através de quem acompanha diariamente. Há algo de circular nisso. O homem que passou anos sem se permitir sonhar com os Jogos Olímpicos continua, décadas depois, preso nesse objetivo. Talvez porque, no fundo, nunca tenha sido apenas sobre ele. Ao longo dos anos, o atletismo deixou de ser apenas uma carreira individual para se transformar numa herança pessoal passada à família e aos atletas que segue.

Quando fala da entrada no Estádio Olímpico de Sydney, Mário Aníbal descreve o ambiente, as 80 mil pessoas, o esforço de dois dias inteiros. Mas a memória mais forte não parece ser a fama nem o reconhecimento, é a sensação de ter conseguido chegar até ali, de ter trabalhado o suficiente e, acima de tudo, de ter feito por merecer aquele momento.

Num tempo em que o desporto vive cada vez mais de frases feitas sobre motivação e superação, Mário Aníbal continua a parecer desconfortável com heroísmos fáceis. Prefere falar de trabalho, de método, de perceber por que é que um treino funciona e outro não, de repetir até acertar.

Talvez seja essa a razão pela qual continua relevante tantos anos depois de deixar de competir. Porque, para Mário Aníbal, o atletismo nunca foi um palco para sonhadores.

Foi sempre um lugar para quem está disposto a continuar a trabalhar quando os outros já desistiram, mesmo que ninguém esteja a ver.

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