Varandas foi à raiz do problema
Em teoria, Frederico Varandas deveria ter falado aos sócios e adeptos do Sporting logo no domingo, no Estádio Nacional, mas entende-se que o presidente leonino tenha precisado de algum tempo para digerir a derrota histórica que fez a Taça de Portugal fugir para uma equipa de escalão inferior, o bravo Torreense.
Varandas não é propriamente de fugir aos microfones, verdade seja dita, e apenas três dias depois comentou o desaire do Jamor, para confirmar de viva voz aquilo que A BOLA já tinha anunciado: vem aí uma remodelação significativa no plantel, tendo em conta que a SAD entende que muitos jogadores chegaram a um fim de ciclo no clube, depois de várias conquistas acumuladas de verde e branco.
Não foi a derrota na final da Taça que formou essa convicção. Ela já existia, na realidade, como se percebeu pelo pacto para a saída do capitão Morten Hjulmand, por exemplo. A desilusão no Jamor veio confirmar a ideia de que é preciso reavivar a ambição do plantel, mas a novela em torno da venda de Viktor Gyokeres, há um ano, já tinha dado lição importante à SAD do Sporting. O mercado deixa pouca margem para certezas absolutas, mas convém preparar antecipadamente o ponto de rebuçado dos jogadores.
Frederico Varandas decidiu assumir o plano — e não vou ser eu a censurá-lo por dizer a verdade —, mas o tom foi excessivo. O murro na mesa pode ir ao encontro da exigência dos adeptos, depois da desilusão do passado domingo, mas o discurso — quase individualizado em certos momentos — pode ter um efeito nefasto dentro de portas. No balneário, o recado do presidente pode até ser encarada como um sinal de ingratidão entre jogadores que fizeram com que o Sporting passasse de clube de Liga Europa para clube de Champions, citando uma expressão do próprio líder leonino. Já para não falar no impacto que essas palavras possam ter na (des)valorização dos jogadores que o Sporting está disposto a negociar.
Embora tenha legitimidade para tal, Varandas não deveria ter hostilizado aqueles que fizeram subir a fasquia no clube. Pelo menos publicamente, até porque alguns dos visados podem nem chegar a sair.
O problema esteve mais na forma do que no conteúdo, até porque a perceção de que é preciso recuperar devoção para reencontrar a glória está correta. O ataque ao mercado tem sido enérgico, mas será preciso manter a estabilidade mesmo prescindindo de raízes antigas.