Magia de Guitane travou o açor e faz sonhar com a troca do ‘M’ pelo ‘E’ (crónica)
Uma máquina goleadora, o Estoril, que aviou o Santa Clara – uma das melhores defesas da Liga - com mais quatro golos, depois de nos anteriores dois jogos ter aplicado cinco ao Estrela da Amadora e quatro ao Vitória de Guimarães. Em 20 jogos realizados na Liga, os canarinhos marcaram 41 golos, numa média superior a dois por jogo.
Com um ataque bem afinado por Ian Cathro, na frente há magia, com Rafik Guitane, Alejandro Marqués e Begraoui, que fazem sonhar os adeptos estorilistas e até o seu treinador, que no final do encontro admitiu fazer um upgrade aos objetivos da temporada e retirar a palavra começada por ‘M’ (manutenção), para substituí-la pela que começa por ‘E’ (Europa). Mas primeiro, como também disse, há que estabilizar o clube na classificação, para depois Cathro ter «outra conversa».
Não foi fácil o terceiro triunfo consecutivo do Estoril na Liga, porque o Santa Clara conseguiu contrariar o marcador que levou os açorianos para intervalo com uma desvantagem de dois golos, para anulá-la aos 65 minutos. Só que apareceu a magia de Rafik Guitane no (pesado) relvado do Estádio de São Miguel para travar a reação da equipa de Vasco Matos e apagar as velas do bolo de aniversário do emblema insular, que neste dia comemorou 105 anos de existência. O argelino sacou da cartola um golo esplêndido, num remate em jeito que colocou a bola no ângulo superior direito da baliza de Gabriel Batista. Um momento, esperado por Ian Chatro, equipa técnica e companheiros, que não se cansam de o incitar nos treinos: “Rafik chuta, chuta…”, revelou.
Também houve muita eficácia canarinha, que marcou nas duas verdadeiras oportunidades que dispôs até ao intervalo. Begraoui abriu a contagem de grande penalidade, quando Hélder Malheiro considerou que Calila derrubou Marqués. Antes Brenner Lucas e Gabriel Silva, desperdiçaram, à vez e em minutos consecutivos, duas boas chances para abrir o marcador. Depois um livre teleguiado de Pizzi colocou a bola na cabeça de Marqués para aumentar a vantagem. E, novamente, depois de desperdício açoriano, por Gabriel Silva.
Descontente, Vasco Matos mudou três peças ao intervalo e espevitou ofensivamente o Santa Clara, que chegou rapidamente ao 2-2. Primeiro num cabeceamento de Calila e depois num tiro de Gabriel Silva de longe. Empolgados, os açorianos falharam a reviravolta por Welinton Torrão e depois apareceu a magia de Guitane para lançar o Estoril para o triunfo, selado por Begraoui em mais uma grande penalidade. Gonçalo Paciência estreou-se pelo Santa Clara e nos descontos viu Robles evitar o golo.
As notas dos jogadores do Santa Clara (5x4x1): Gabriel Batista (4), Diogo Calila(5), Sidney Lima (4), Frederico Venâncio (4), Henrique Silva (4), Lucas Soares (4), Brenner Lucas (4), Pedro Ferreira (4), Serginho (5), Klismahn (4), Gabriel Silva (6), Welinton Torrão (5), Djé Tavares (4), Wendel (4), Gonçalo Paciência (-) e Paulo Victor (-).
As notas dos jogadores do Estoril (4x2x3x1): Robles (5), Ricard (6), Boma (5), Bacher (5), Pedro Amaral (5), Pizzi (6), Holsgrove (6), Rafik Guitane (7), João Carvalho (6), Begraoui (7), Alejandro Marqués (6), Gonçalo Costa (5), Ferro (5), Xeka (-), Tsoungui (-) e Khayon Edwards (-)
O que disseram os treinadores:
Vasco Matos, treinador do Estoril
«Primeira meia-hora muito forte da nossa equipa, temos três oportunidades claras de golo, obviamente que aí a culpa é nossa, falta eficácia, chegamos ao último terço criamos situações e a eficácia diferencia claramente o resultado na 1.ª parte. Um jogo bem conseguido da minha equipa, com bola a defender bem também, contra uma boa equipa, com jogadores de um nível muito alto, muito acima, e a equipa provou que está ligada ao processo. Mas, claramente no último terço, temos de meter a bola dentro da baliza. Em relação às decisões da arbitragem não vou comentar, vou deixar isso para as pessoas que aqui dentro tratam disso, esse não é o meu papel, que é trabalhar, treinar, analisar o jogo e ver o que a equipa fez. Não vou falar de arbitragens, já chega, mas ao longo desta época tem sido demais. Na 2.ª parte fazemos as alterações, chegamos ao empate com outra meia-hora muito forte. A seguir poderíamos ter chegado ao 3-2 e depois, quando o jogador do Estoril faz aquele grande golo, tira-nos do jogo. A diferença está, claramente, na eficácia. [Dois meses sem vencer, sente-se com força e confiança?] Claramente. A equipa técnica está sempre muito ligada ao trabalho, os jogos têm dado esses indicadores e acreditamos que as coisas vão mudar. [Derrota afeta?] Tem de nos dar força para o próximo jogo e ir à procura dos três pontos. Acredito muito que eles vão aparecer e ser felizes no final.»
Ian Cathro, treinador do Estoril
«Foi um jogo muito difícil devido à qualidade da equipa que estava no outro lado e também pelas condições do relvado. Acho que sem ir muito no detalhe, conseguimos fazer um bocadinho do nosso jogo, foi muito difícil fazer tudo, mas mantivemos alguma ordem. Ganhámos porque conseguimos manter uma estabilidade emocional que é um passo muito importante no crescimento da nossa equipa. [13 golos e 3.ª vitória consecutiva. Estes números são a estabilidade do Estoril?] Esses resultados são muito mais do que a estabilidade que eu tenho dito. Quero conseguir uma estabilidade na classificação, tirar aquela palavra que começa com ‘M’. Acho que estamos a fazer muito mais do que isso neste momento, mas sei que o futebol tem altos e baixos, não é nada linear. Nós vamos continuar a trabalhar normalmente. [Não olha para o ‘M’ de manutenção, olha para o ‘E’ de Europa?] Eventualmente sim, mas temos de dar muitos passos em termos da equipa e também do clube, porque se vamos ser capazes de entrar verdadeiramente nessa luta, não é para fazer o playoff, é para a fase de grupos. E isso precisa de um crescimento do clube e nós temos de ser realistas. Em função desse crescimento, quero fazer o meu papel, e o primeiro passo é tentar tirar essa palavra com ‘M’. Depois, de conseguir isso, podemos ter outras conversas.»