Liga Conferência: no palácio de cristal ou no bairro operário, a história está à espreita
A cidade alemã de Leipzig recebe hoje, a partir das 20 horas, a quinta final da Liga Conferência, num jogo em que se escreverá história seja qual for o vencedor. Porque tanto o Crystal Palace como o Rayo Vallecano, à sua maneira, desafiaram o destino, emprestando um certo romantismo a um jogo que faz esquecer que estamos a falar do parente pobre das competições UEFA.
Para os adeptos e treinadores envolvidos, naturalmente, esta é a sua Champions. «Agora que estou de saída posso contrariar o meu presidente: ele disse que o melhor dia tinha sido a final da Taça de Inglaterra, mas não concordo porque o melhor dia que está por vir é o de Leipzig», disse, em tom humorado, Oliver Glasner, o treinador que ganhou em Wembley em 2025 frente ao Manchester City e pouco depois venceu a Supertaça inglesa diante do Liverpool.
Mas quem o ouviu no início do ano nunca imaginaria tantos sorrisos em maio. Após ser eliminado da Taça de Inglaterra, a 10 de janeiro, pelo Macclesfield, da sexta divisão (117 lugares abaixo dos londrinos, o primeiro detentor do troféu a perder para uma equipa amadora desde 1909) e depois das saídas de Eberechi Eze para o Arsenal e Marc Guehi para o Manchester City, o técnico austríaco acusou o presidente, Steve Parish, de o ter «abandonado» e anunciou que sairia do clube no final da época.
Com os adeptos a gritar «Fora, Glasner» após o empate (1-1) diante dos bósnios do Zrinjski Mostar, da Bósnia, no play-off de acesso aos oitavos de final da Conference em fevereiro e uma série de 15 jogos em que a equipa só venceu uma vez, poucos acreditariam que este dia chegaria.
«Ficaria muito desgostoso se [após o anúncio da saída] os jogadores se fossem abaixo. Mas felizmente que isso não aconteceu porque lhes pedi para lutarem por eles mesmos», explicou Glasner, vencedor da Liga Europa em 2022 ao serviço do Eintracht Frankfurt.
Dean Henderson, o guarda-redes herói na final da Taça de Inglaterra frente ao Manchester City ao defender três penáltis (e que paradoxalmente o fez sentir-se deprimido na sequência do feito, admitiu-o ontem pela primeira vez) revelou que a necessidade de encontrar essa força adveio também do sentimento de injustiça logo no arranque desta época.
Porque o Palace deveria estar a jogar a Liga Europa, mas o facto de à data ter o mesmo proprietário do Lyon (John Textor) a UEFA determinou que não pode haver duas equipas na mesma competição e baixou os eagles, com o Nottingham Forest a substituí-los. «Seria um final perfeito: o primeiro título europeu do clube», sintetizou Oliver Glasner, que ainda espera pelo contributo de Brennan Johnson, o autor do golo que deu a Liga Europa ao Tottenham na época passada, na final frente ao Man. United de Ruben Amorim.
Clube comprado por 916 euros
Do outro lado estará um Rayo Vallecano nos antípodas do adversário. Ao contrário dos ingleses, que nasceram à beira do Palácio de Cristal que deu nome à exposição mundial de 1851, Vallecas é tido como o bairro operário dos arredores de Madrid, cujas origens humildes se notam num estádio com falta de condições e motivo de tensão entre os donos e os adeptos, que não admitem a sua deslocação em nome de uma pretensa salvação das finanças.
«Estarmos numa final europeia é o maior feito do desporto espanhol dos últimos 50 anos», afirmou ontem Raúl Martín Presa, presidente e dono do Rayo, que em 2011 adquiriu 98 por cento das ações do clube por 961 euros, mas assumindo uma dívida de €40 milhões deixada pelos antecessores.
Pela primeira vez numa disputa continental, o clube tem uma estrela que não é um jogador, mas o seu treinador: Iñigo Pérez, um antigo médio nascido em Navarra que fez carreira no segundo escalão em Espanha, foi adjunto de Andoni Iraola no Rayo Vallecano, não acompanhou o líder da equipa para o Bournemouth por alegados problemas burocráticos, em fevereiro de 2024 foi escolhido para assumir a equipa, na época seguinte terminou em 8.º e hoje disputa uma final europeia.
Aos 38 anos é visto como mais um produto de excelência da escola espanhola que está a dominar o futebol e pode contribuir para um registo inédito: as quatro provas do futebol europeu serem conquistadas por técnicos do mesmo país: Champions (Luis Enrique ou Arteta), Liga Europa (Unai Emery), Champions feminina (Pere Romeu, Barcelona) e Liga Conferência.
A Liga Conferência é a competição mais recente da UEFA e que vai na sua quinta edição. A primeira equipa a vencê-la foi a Roma, treinada por José Mourinho, em 2022. Seguiu-se o West Ham, em 2023, o Olympiakos em 2024 e o Chelsea em 2025. Em caso de triunfo, o Crystal Palace será a terceira equipa inglesa a conquistar a competição em seis anos. O vencedor terá também acesso à Liga Europa da próxima época. O Palace ficou em 15.º na Premier League e o Rayo Vallecano acabou a La Liga em 8.º, precisando de ganhar hoje para se qualificar para as provas UEFA (desta vez a oitava posição não chega).