Jogo dos Wolves em Minneapolis marcado por tensão e protestos contra o ICE
O encontro entre os Timberwolves e os Warriors, realizado no Target Center este domingo, com vitória dos californianos por 85-111, decorreu sob um clima de forte tensão social em Minneapolis, na sequência da morte de Alex Pretti, na véspera, por agentes federais e de uma onda de protestos contra as políticas de imigração.
A partida, inicialmente agendada para sábado, foi adiada pela NBA para o dia seguinte depois dos jogadores dos Wolves, via o veterano base/extremo Joe Ingles, ter feito o pedido ao treinador de Golden State, Steve Kerr, justificando que a equipa não se sentia em condições psicológicas para entrar em campo após a morte de Pretti. Enfermeiro de 37 anos, baleado por agentes federais do ICE nessa manhã. Segundo a Liga, a decisão visou garantir a segurança das equipas e dos adeptos, além de libertar recursos policiais e médicos que poderiam ser necessários noutros locais, caso surgissem novos protestos.
Na sexta-feira, um dia antes da morte de Pretti, milhares de pessoas marcharam pelas ruas de Minneapolis, apesar das temperaturas gélidas, numa greve geral que levou ao encerramento de inúmeros estabelecimentos comerciais. Os jogadores dos Warriors, incluindo Stephen Curry e o treinador Steve Kerr, assistiram aos protestos das janelas do hotel.
Mesmo no dia da partida, foi difícil encontrar a normalidade. Novas marchas de protesto obrigaram ao encerramento de ruas junto ao Target Center, obrigando a alterações aos habituais trajetos. No interior do pavilhão, adeptos exibiam cartazes em protesto - que até é proibido pelas norma da NBA e costumam ser retirados - contra a presença de agentes federais nas cidades gémeas de Minneapolis e St Paul.
O ambiente pesado contagiou as habituais conferências de imprensa antes da partida dos dois técnicos e Chris Finch, treinador dos Wolves, com a voz embargada, quebrou o protocolo e expressou as condolências do clube pela morte de Alex Pretti. «É triste assistir ao que está a acontecer», afirmou Finch. «A nível humano, e como alguém que tem grande orgulho em estar aqui, sei que muitos dos nossos jogadores sentem o mesmo», disse Finch. Depois, a partida, que terminou com a quinta derrota seguida de Minnesota, foi precedida por um momento de silêncio em memória de Alex Pretti e todo o encontro foi marcado por uma atmosfera carregada e sem a energia habitual.
Desde o início, ficou claro que não seria uma noite normal. Os da casa entraram em campo de forma apática, acumulando um número impressionante de erros. Cometeram sete turnovers nos primeiros 6m e ao intervalo já tinham 16, tendo terminado com 25, contra 12 dos Warriors.
Anthony Edwards (32 pts, 11 res) cometeu oito dessas perdas de bola. Julius Randle (11 pts, 5 res, 6 ass) registou 3/11 em lançamentos de campo, Naz Reid (10 res) ficou em branco (0/4) pela primeira vez desde novembro de 2022 e Jaden McDaniels (3 pts, 3 res) também não actuou muito melhor acabando com 1/8 em lançamentos e igualmente contribuindo com 4 turnovers. Com 26 pontos e 7 assistências, Stephan Curry foi o mais produtivo dos forasteiros.
O ambiente nas bancadas era igualmente estranho. O público, normalmente fervoroso e ruidoso, não criou a habitual atmosfera intimidatória. Nem mesmo Draymond Green, considerado o «inimigo público n.º 1» pelos adeptos dos Wolves (e não só), foi alvo de mais do que assobios tímidos. O grupo de afundanços dos T- Wolves, que atua nas paragens dos jogos, usou t-shirts com a inscrição «ICE OUT», em protesto.
Steve Kerr descreveu o ambiente como invulgarmente pesado. «Sinceramente, o que senti foi que a equipa deles estava a sofrer. A vibração nas bancadas... foi um dos jogos mais bizarros e tristes de que já fiz parte». A certa altura, com o marcador em 17-38, Kerr chegou mesmo a pedir desculpa a um veterano dos Wolves pelo facto de o encontro estar a ser disputado.
Já um funcionário dos recinto, que preferiu não se identificar ao jornalista do site The Athletic, declarou: «Nada parece certo». «Os nossos corações não estão cá». Quanto a um detentor de cativo anual, salientou que nada daquilo «pareceu real», mas foi uma oportunidade de «tentar esquecer tudo por algumas horas». Sentimento semelhante ao de outros expectadores. «Jogo difícil, mas foi bom sentir um pouco de normalidade», escreveu um adepto na rede social Reddit.
Apesar de o resultado do jogo não ter correspondido às expectativas da maioria, houve quem considerasse que o evento serviu para unir as pessoas. Adeptos com diferentes convicções políticas sentaram-se lado a lado, vestiram as mesmas cores e apoiaram os mesmos jogadores, partilhando a frustração da derrota e da má exibição.
Muitos também consideraram que o ambiente no pavilhão apenas refletiu a tristeza e a tensão que existe na cidade desde o início do ano. «Parecia que o peso da cidade tinha sido transportado para dentro da arena nos ombros dos adeptos (e dos jogadores) e que sobrecarregava a atmosfera», afirmou Nicole, outra adepta habitual, detentora de lugar cativo. «Foi a prova de que o que está a acontecer ultrapassou o ponto em que é possível 'escapa'” através de uma 'distração' temporária».
Steve Kerr refletiu ainda sobre o clima de divisão social que se vive, lamentando a polarização. «O que é tão triste em tudo isto é que, neste momento, estamos a atacar-nos uns aos outros. No clima atual do fluxo incessante de notícias é impossível simplesmente dizer: eu estou certo e a outra pessoa está errada».
Recorde-se que a morte de Pretti foi a segunda de um residente de Minneapolis por agentes federais no mesmo mês, depois de Renee Good, a 7 de janeiro também ter sido baleada no seu carro. Incidentes intensificaram a agitação na cidade, que já vivia semanas de protestos contra o aumento da fiscalização federal sobre a imigração.
A tensão social tem tido um impacto visível no quotidiano de Minneapolis. Recentemente, uma loja da cadeia de supermercados Target foi alvo de uma operação de agentes da autoridade fronteiriça, levando a empresa a proibir funcionários hispânicos de fazerem entregas no exterior por receio de que fossem detidos.
Esta segunda-feira, Wolves e Warriors voltam a defrontar-se no Target Center. para o terceiro (1 v-1 d) dos quatro encontros entre as duas formações na regular season.