João Pereira, ex-Casa Pia, tirou o curso UEFA Pro em Madrid - Foto: IMAGO - Foto: IMAGO

João Pereira explica porque Lamine Yamal «é tal como Messi»

Ex-técnico do Casa Pia foi lecionado por Luis de la Fuente e adjuntos da seleção de Espanha no curso de treinador da UEFA; desvenda alguns dos segredos que fazem desta equipa uma das finalistas do Mundial 2026

João Pereira concluiu o curso de UEFA Pro (Grau IV) em Madrid em janeiro deste ano, onde assistiu a palestras dadas por Luis de la Fuente e membros da equipa técnica da seleção de Espanha, que está na final do Mundial 2026: Juanjo González e Carlos Alberto Cruz. O ex-treinador do Casa Pia recorda que o selecionador falou mais da «liderança» enquanto treinador, mas enalteceu a impressionante apresentação de Juanjo.

«Foi a melhor apresentação que tivemos», recorda, em declarações exclusivas a A BOLA, «ao nível do detalhe, da sistematização do trabalho e a metodologia de trabalho deles», e revelou a forma como La Roja aborda a preparação do jogo, visando também a final com a Argentina deste domingo (às 20h00).

«Eles moldam o momento ofensivo ao adversário em função dos espaços que se abrem e em função das possibilidades que poderão abrir no decorrer do jogo. Podem alterar o seu jogo posicional sem alterar muito o sistema tático, mas é como uma alternativa, algo acessório e não algo que faz parte das ideias-matriz principais do modelo de jogo», afirma.

O luxo de ter Lamine Yamal… como Messi

João Pereira não demorou a destacar a importância que Lamine Yamal tem no jogo ofensivo espanhol. «É uma particularidade» contar com ele, denota. «Ofensivamente é muito forte, mas depois não tem tanto compromisso defensivo», o que leva Espanha a «moldar» o jogo em relação a «quem joga por trás ou de quem joga ao lado do Lamine», de modo a «equilibrar a equipa de uma forma diferente».

A gestão de Yamal também passa pela forma como De la Fuente lida com o craque de 19 anos. «É um jogador irreverente, muito corajoso, algo irresponsável e ele quer potenciar isso», comenta. «Eu recordo-me de ele dizer: “Quanto mais a exigência aumenta, mais nós precisamos dele noutras funções. Porém, eu não lhe quero passar demasiada responsabilidade porque em momento algum eu quero perder o lado intuitivo do Lamine Yamal.”»

Para João Pereira, a importância de Yamal para a Espanha «é tal como o Messi» é importante para a Argentina. «Este tipo de jogadores atrai dois ou três adversários. Muitas vezes os treinadores aguentam-nos 90 minutos porque entendem que esses jogadores precisam de dois, três segundos e de uma única oportunidade para desbloquearem um jogo.»

João Pereira no curso UEFA Pro em Madrid

«Prefiro que ganhe Espanha, que me abriu as portas»

Sem atribuir favoritismo claro a nenhuma equipa – algo quase impossível de se fazer, dada a qualidade de ambas – João Pereira não esconde estar a torcer por nuestros hermanos devido ao curso que tirou em Madrid. «A Real Federação Espanhola, abriu-me as portas. Tenho uma costela formativa de Espanha, sou o que sou por ter sido formado também no futebol espanhol», realça.

Por outro lado, a Argentina «é a atual campeã e tem esse favoritismo em termos teóricos», e pelo facto de ter uma «veia bairrista»: «Os duelos também fazem parte do jogo, o correr para trás faz parte do jogo, o saltar mais alto faz parte do jogo, o contacto físico faz muito parte do jogo. E aí eu considero que eles têm uma vantagem.»

No entanto, identifica uma vantagem espanhola. «Do ponto de vista tático, penso que a Espanha terá vantagem no plano de jogo, a forma como tem mais enraizado o modelo de jogo. Em termos de individualidades, acho que é ela por ela: de um lado há Lamine, do outro lado há Messi, entre outros tantos jogadores que são equiparados, na minha opinião.»

A adaptação espanhola

João Pereira também denota a adaptação necessária de uma equipa para defender Messi… e onde a Espanha pode procurar uma vantagem frente a La Pulga. «Olhando para o último jogo que a Argentina teve, quando sentiu mais dificuldades foi quando a Inglaterra pressionou alto. Se nós repararmos, como o Messi não é um jogador de andar ali entre linhas a receber bolas pelo ar, é mais de receber bolas pelo chão. E se Espanha conseguir criar esse stress, é quase como se estiver a jogar contra menos um jogador, por assim dizer, nessa fase do jogo.»

O técnico de 34 anos também reafirmou que, na fase defensiva, Espanha faz um plano menos adaptado ao adversário, em relação ao que acontece na fase ofensiva. «Defensivamente, é uma ideia muito mais vincada, não olhando tanto para o adversário, a não ser para particularidades como a forma como pressionam o guarda-redes, se é pé direito, se é pé esquerdo. Depois, são muito agressivos nos encurtamentos no corredor lateral. Se tiverem de atirar o jogo mais para um lado, também o fazem.»

Memórias que ficam

Ao longo da conversa, João Pereira denotou a qualidade das três palestras, a de Carlos Alberto Cruz, preparador físico — «Foi mas prático, estivemos com ele no ginásio ele apresentou-nos exercícios que faziam no ginásio, exercícios de ativação. E depois, no plano teórico, mostrou a forma como faziam a monitorização do GPS» — a de Juanjo — «Muito, muito tático e muito relacionado com o treino e com a análise do adversário» e a de De la Fuente — «Mais relacionado com liderança, sem apresentação aí.»

Com isso em mente, João Pereira acabou por notar a característica humana inerente ao selecionador espanhol. «Ele vê o homem antes de ver o atleta, e vê o atleta antes de ver o jogador. Basicamente é esta a forma como ele analisa as partes para depois chegar ao jogador», recordou.

A iniciar sessão com Google...