João Cancelo: «Quero jogar no Benfica, é óbvio, mas não vou de borla»
Formado no Benfica e assumidamente ligado ao clube do coração, João Cancelo não esconde que um regresso à Luz continua a estar no horizonte - ainda que dependente do momento certo. Em declarações ao Canal 11, o internacional português reforçou a ligação emocional aos encarnados, admitindo que «ao Benfica e ao Barcelona é difícil dizer que não», dois clubes que marcaram a sua infância e o seu percurso.
Apesar de reconhecer os obstáculos financeiros de um eventual regresso, Cancelo deixa claro que a motivação vai além do dinheiro. «Gostava de jogar no Benfica, é óbvio, mas não sei se será possível brevemente. Felizmente, cheguei a um patamar salarial que é difícil para o Benfica acompanhar. Para jogar no Benfica, é como no Barça, é por amor. Não vou jogar de borla, mas tenho de ir numa fase em que não queira ganhar muito dinheiro.»
A ligação emocional é ainda mais profunda por razões pessoais. «Ter só dois na equipa principal do Benfica está-me atravessado. Especialmente pela parte da minha mãe, que era benfiquista e sonharia que eu jogasse no Estádio da Luz. É o clube da minha mãe, do meu irmão, de todos os meus amigos», confessou. No entanto, não quer voltar a qualquer custo. «Não quero ir para o Benfica sentindo que não estou no meu melhor. O Benfica é um clube exigente, um dos maiores do mundo, e, se sentir que não consigo estar à altura, é melhor não ir», afirmou.
Atualmente no Barcelona, por empréstimo do Al Hilal, o lateral prefere não traçar planos rígidos para o futuro. «Tenho mais um ano de contrato, se tiver de jogar na Arábia, jogo, se tiver de jogar na Europa, jogo. Vai depender do Al Hilal», disse.
«Ainda vou dar uma perninha ao Barreirense»
Houve ainda espaço para falar de raízes, com uma referência emotiva ao Barreirense. «Vi o Barcelona-Real Madrid, na final da Supertaça, no telemóvel porque fui ver o Barreirense-Olímpico Montijo no estádioFui ver um jogo ao estádio, encapuzado.»
«Antes havia o Estádio D. Manuel de Mello, que mandaram abaixo, com muita pena minha. Se tivesse o dinheiro que tenho hoje, naquela altura, não deixava. Nem pensar. Agora têm um campo sintético. O Barreirense também não está bem financeiramente. A Academia tem boas condições, mas o campo para os seniores poderia ser melhor. Custa-me ver o clube assim», disse, mostrando vontade de ajudar: «Ainda vou dar uma perninha lá. Nem que seja para vender bilhetes.»
«João Félix é o jogador mais talentoso da Seleção»
Entre opiniões sobre o futebol atual, Cancelo destacou ainda o talento de João Félix — «é o jogador mais talentoso da Seleção» — deixando, no entanto, um reparo: «Falta-lhe linguagem corporal. Às vezes parece que está desligado do jogo.» Já sobre Bernardo Silva, não poupou no tom descontraído: «É palhaço, é um pica-miolos», confessou, admitindo que gostaria de jogar com o médio no futuro: «Gostava que ele fosse para o Barcelona ou para o Benfica.»
Sobre o campeonato português, não hesitou na previsão: «Benfica. Tenho sempre esperança.» E quanto a um possível encontro com José Mourinho na Luz, deixou elogios claros: «Gostaria de ser treinado por ele. É uma referência.»
«Num dia, num segundo, tudo desabou»
Para além da carreira, Cancelo abriu também o lado mais pessoal, recordando o impacto profundo da morte da mãe. «Supera-se, mas tens sempre um vazio. A minha mãe era saudável e foi um choque. Num dia, num segundo, desabou tudo. Obrigou-me a ser o líder da família, que eu não estava preparado para ser», partilhou. Um momento que marcou a sua vida e o levou por caminhos difíceis: «O meu pai é um pilar na minha vida, meteu-me a jogar futebol desde pequeno, mas um amor de mãe não dá para substituir. Senti muita falta da minha mãe, vivi situações complicadas, estive em caminhos complicados, mas a minha vida foi ao sítio.»
Nesse processo, o futebol teve um papel determinante. «O futebol deu-me a vitamina para continuar. Era uma das promessas da formação do Benfica, já me viam com um jogador que podia chegar lá e pensei: ‘Se não for jogador de futebol, o que vou fazer? Vou acabar nas ruas’. Sou viciado em futebol. Tive aquela reação de querer deixar o futebol, mas pensei se era isso que a minha mãe queria», recordou.