O atual comentador da Eurosport e ex-número 1 mundial está atento ao que se passa em Roland Garros e no ténis atual

Jim Courier: «Nuno Borges precisa apenas de confiança»

O norte-americano que venceu quatro Grand Slams, duas vezes Roland Garros, e foi n.º 1 do mundo durante 58 semanas, falou com A BOLA e deixou elogios aos maiato, o melhor tenista português da atualidade

Jim Courier, antigo número um mundial e comentador da Eurosport, falou com A BOLA sobre o estado atual do circuito profissional de ténis. Conhecido pela sua franqueza e capacidade analítica, o norte-americano abordou os temas mais quentes do momento, desde a ausência de Carlos Alcaraz em Roland Garros até ao debate eterno sobre a igualdade financeira no desporto. Antes disso, porém, Courier reservou uma atenção muito especial ao ténis português e à evolução de Nuno Borges.

«Tenho visto o Nuno jogar já há algum tempo. Sei que ele não está a fazer a sua melhor época até agora, um pouco abaixo dos 50 no ranking, talvez não tenha tido os resultados que gostaria, mas ele é um jogador que, de forma muito discreta, tem um dos melhores serviços no ténis masculino. O serviço dele é tão impressionante com a sua precisão e velocidade, e a direita dele é também uma grande arma. Portanto, para ele, tenho a certeza de que tudo se resume à confiança, como para todos os outros, certo? Se ele se sentir confiante de que as direitas vão entrar quando ele precisa... e a defesa não é o seu melhor trunfo. Por isso, ele precisa que o seu jogo ofensivo funcione realmente», analisou o vencedor do Grand Slam parisiense em 1991.

Nuno Borges
Nuno Borges

Confrontado com o desafio de como uma nação pequena e louca por futebol como Portugal pode contornar as dificuldades para produzir atletas de topo mundial de forma consistente, Courier apontou caminhos e exemplos a seguir:

«Quanto à forma como uma nação pequena produz grandes jogadores, penso que podemos olhar para muitas nações pequenas que conseguiram fazê-lo, como a Sérvia, a Croácia, a região do Báltico. Esses são grandes exemplos. Certamente a República Checa e a Eslováquia, que têm uma longa história no desenvolvimento de grandes jogadores. E eu imagino que isso provavelmente se resuma à filosofia de treino nas nações, bem como a conseguir que alguns dos melhores atletas queiram jogar ténis, o que nem sempre é fácil. Em países que são loucos por futebol. Portanto, também compreendo esses desafios. Nós temos esse desafio na América, de conseguir que os nossos melhores atletas queiram jogar ténis, ténis masculino em particular, porque há muitos outros desportos que são mais populares no meu país», sustentou.

A luta pelos prémios monetários

Courier também analisou a disparidade e a divisão dos prémios monetários entre os circuitos masculino e feminino, um tema que gera atrito tanto entre os jogadores e as organizações (os Majors) como na própria questão da igualdade de género.

O americano de 56 anos recordou que este tipo de tensões laborais não é novo, remontando ao período em que jogava e a ATP se fundou. «Os trabalhadores e a gestão vão sempre lutar pelos lucros», atirou de forma pragmática. No entanto, o antigo n.º 1 defendeu convictamente o modelo atual que une homens e mulheres nos maiores palcos do mundo. «Quanto aos prémios monetários masculinos e femininos, penso que mostrámos claramente que o melhor produto que o ténis oferece ao consumidor, o veículo de entretenimento que proporcionamos que é melhor, é o ténis masculino e feminino em conjunto. Os torneios mais poderosos e lucrativos, aqueles que geram mais interesse, são aqueles em que os homens e as mulheres jogam juntos. E penso que de certa forma nos estabelecemos na igualdade de prémios monetários», argumentou.

Para o antigo tenista, esta união funciona como uma salvaguarda comercial, flutuando o mediatismo consoante as épocas. Courier sublinhou ainda que o ténis tem algo único face a desportos como o golfe ou o futebol, onde os Mundiais e os Opens principais são jogados de forma totalmente separada. «Precisamos de celebrar isso», rematou, acrescentando que a verdadeira diferenciação de receitas para as estrelas se faz hoje nos contratos comerciais fora do court.

O vazio de Alcaraz e a magia da segunda semana em Paris

A fechar, a incontornável ausência do espanhol Carlos Alcaraz em Roland Garros. Para muitos entusiastas, a falta de uma reedição da final histórica do ano passado retira brilho ao torneio francês, mas Jim Courier, com a experiência de quem já ergueu a Taça dos Mosqueteiros, relativizou o impacto a longo prazo. «Certamente nos primeiros dias do torneio todos nós sentiremos a ausência do Alcaraz», admitiu. Contudo, a visão romântica e madura imperou. «Mas se tiverem estado em tantos Majors quanto eu, sabem que as histórias começam a assumir o controlo na semana 2. E a expectativa do que está para vir e da história que vai ser feita este ano torna-se maior do que qualquer coisa que possa estar em falta. (...) Estaremos entusiasmados com o final, não importa o que aconteça. Porque no sábado e no domingo da segunda semana do torneio, vamos ter dois campeões com aqueles troféus nas mãos e histórias que todos nós vamos estar a contar no próximo ano por esta altura», rematou.

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