Jesus e o ‘Efeito Borboleta’
«PODERIA um bater de asas de uma borboleta no Brasil provocar um tornado nos Estados Unidos?» Era este o título do artigo em que o matemático e meteorologista Edward Lorenz explicava o Efeito Borboleta, uma das expressões da Teoria do Caos e que mostra como pequenas alterações nas condições iniciais de grandes sistemas podem levar a mudanças drásticas no clima a milhares de quilómetros de distância. Trata-se, a pergunta, de uma metáfora. Que serve, também, para as mais recentes declarações de Jorge Jesus no Brasil, que provocaram um tornado no Rio de Janeiro e em Lisboa - são mais de 7700 quilómetros de distância. Jorge Jesus não é, convenhamos, uma borboleta - aliás, a forma como se comportou por estes dias encaixa-se melhor na expressão elefante numa loja de porcelana. Não bateu as asas mas falou. E quando Jorge Jesus fala, já se sabe, não fica pedra sobre pedra. E desta vez as suas declarações fizeram estragos nos dois lados do Atlântico.
Deve, o que disse Jesus, ser analisado sobre dois prismas. E nenhum deles lhe é favorável. O primeiro, então, é inqualificável, tendo em conta que deu - se o disse a um jornalista amigo que depois as tornou públicas deve escolher melhor as companhias... - um ultimato ao Flamengo para contratá-lo: ou até dia 20 ou nada feito. É feio, fosse quem fosse o treinador do Flamengo. Mas fica pior se tivermos em conta que no banco do Flamengo está Paulo Sousa, um treinador português. Jorge Jesus é, ninguém tem dúvidas disso, um grande treinador. Mas fora do banco o seu comportamento, em especial no que toca a colegas de profissão, sempre foi muito censurável. É, aliás, muito fácil encontrar na classe quem tenha muito a dizer sobre ele. E poucas vezes coisas boas. Aliás, basta recuar uns anos e olhar para a forma, e a regularidade, como Jorge Jesus falava do Benfica quando ambicionava regressar à Luz para perceber que aquilo que fez a Paulo Sousa não foi um acaso ou um acidente. Rui Vitória e Bruno Lage que o digam, o último com o alto patrocínio de Luís Filipe Vieira, que ainda teve, recentemente, o desplante de dar o nome do último treinador campeão no Benfica, a quem o próprio fez de forma tão evidente a cama, para criticar a aposta de Rui Costa em Roger Schmidt. Há, de facto, gente com muita lata...
MAS Jesus, que como todos sabemos tem um ego do tamanho do Mundo, não se podia ficar pelas declarações sobre o Flamengo. Falou, e aí fê-lo de forma pública, sobre o Benfica, em especial sobre os dias que conduziram à sua saída da Luz. E não foi simpático para Rui Costa, que, segundo o treinador, quase lhe implorou para não se ir embora porque estava só há seis meses no cargo. Deve, naturalmente, dar-se o devido desconto: afinal, Jesus estava ali a candidatar-se a um emprego e não lhe ficaria bem dizer que tinha sido despedido do último porque não conseguiu, com o maior investimento da história do patrão na equipa de futebol, ganhar um único título, nem colocar a equipa a jogar o mínimo dos mínimos para entusiasmar os adeptos - foi, talvez no Brasil não o saibam mas por cá todos o sabemos, por isso que Jorge Jesus saiu e não porque Pizzi disse umas coisas inqualificáveis a um dos seus adjuntos.
As palavras de Jesus provocaram, como não podiam deixar de provocar, um tornado em Lisboa. E a pergunta que todos fizeram é lógica: «Se foi Jesus quem se quis ir embora e Rui Costa queria tanto que ficasse, porque lhe está o Benfica a pagar os ordenados até final do contrato?» O Benfica foi, pois claro, obrigado a reagir, afirmando que nunca Jesus pediu que o deixassem ir embora e que «em nenhum momento se mostrou disponível para abdicar das remunerações a que teria direito». Alguém está a mentir. Talvez um dia uma borboleta bata as asas num sítio qualquer e se saiba a verdade...