Itália, revoltada, não quer agência americana ICE na segurança dos Jogos de Inverno
A notícia de que uma unidade da agência norte-americana de Imigração e Alfândega, mais conhecida por ICE, poderá estar envolvida na segurança dos Jogos de Inverno Milão-Cortina-2026, que começam a 6 de fevereiro e nos quais Portugal participa com três atletas, gerou uma onda de indignação em Itália. A controvérsia levou a duras críticas por parte de políticos e da comunicação social italiana, com o presidente da Câmara de Milão a descrever a agência como «uma milícia que mata».
A polémica surgiu após uma porta-voz do Departamento de Segurança Interna (DHS) dos Estados Unidos ter indicado que agentes da Homeland Security Investigations (HSI), divisão da ICE focada no crime transnacional, ajudariam a «avaliar e mitigar riscos» durante o evento. A HSI, que frequentemente colabora em grandes eventos internacionais, viu a sua afiliação à ICE tornar-se um ponto de discórdia, especialmente no contexto das políticas de imigração dos EUA e de recentes tiroteios fatais envolvendo agentes federais no Minnesota.
Giuseppe Sala, presidente da Câmara de Milão, foi uma das vozes mais críticas, afirmando à rádio italiana RTL 102.5 que a agência não é bem-vinda na cidade. «Esta é uma milícia que mata. É uma milícia que entra nas casas das pessoas assinando a sua própria autorização — é claro que não são bem-vindos em Milão», declarou, questionando ainda a decisão no contexto da administração de Donald Trump. «Os agentes da ICE não devem vir para Itália porque não estão alinhados com a nossa forma democrática de garantir a segurança».
Em resposta, as autoridades americanas procuraram esclarecer a situação. Tricia McLaughlin, porta-voz do DHS, garantiu que «a ICE não conduz operações de fiscalização de imigração em países estrangeiros» e que o papel da HSI nos Jogos se limitaria a apoiar o Serviço de Segurança Diplomática do Departamento de Estado dos EUA e as autoridades italianas na mitigação de riscos de organizações criminosas transnacionais. Sublinhou ainda que «todas as operações de segurança permanecem sob a autoridade italiana».
A Embaixada dos Estados Unidos em Itália corroborou esta informação, explicando que, tal como em eventos olímpicos anteriores, várias agências federais, incluindo a HSI, apoiarão o Serviço de Segurança Diplomática, que lidera o esforço de segurança norte-americano.
A contestação política em Itália, no entanto, não diminuiu. Alessandro Zan, deputado do Partido Democrático, da oposição, considerou «paradoxal confiar» a segurança dos Jogos «àqueles que são eles próprios criminosos, operando com violência e matando inocentes a sangue-frio». Na rede social X, escreveu: «Em Itália, não queremos aqueles que espezinham os direitos humanos e atuam fora de qualquer controlo democrático».
Senadores do mesmo partido solicitaram formalmente esclarecimentos ao governo, exigindo garantias de que as normas de privacidade e cibersegurança italianas e da União Europeia seriam cumpridas.
A controvérsia teve início no sábado, quando o jornal italiano Fatto Quotidiano noticiou o envolvimento da ICE, citando uma fonte anónima. Inicialmente, o ministro do Interior, Matteo Piantedosi, negou ter conhecimento do assunto, mas não o descartou. Já Attilio Fontana, presidente da região da Lombardia, pareceu confirmar a presença da agência, embora o seu gabinete tenha posteriormente recuado, afirmando que este respondia a uma questão hipotética.
Por sua vez, o Comité Olímpico Internacional (COI) distanciou-se da polémica, afirmando que a segurança dos Jogos é «da responsabilidade das autoridades do país anfitrião, que trabalham em estreita colaboração com as delegações participantes», remetendo todas as outras questões para os Estados Unidos.
O Comité Olímpico e Paralímpico dos Estados Unidos (USOPC) desmentiu as notícias que davam conta de que a agência de Imigração e Alfândega (ICE) seria responsável pela segurança dos seus atletas.
Em comunicado, o organismo classificou tais relatos como «falsos», esclarecendo que a segurança dos atletas americanos tem sido assegurada de outra forma desde os Jogos Olímpicos de Barcelona-1992.
O USOPC explicou que, desde então, tem trabalhado em «estreita coordenação» com o Serviço de Segurança Diplomática do Departamento de Estado. Esta colaboração, segundo a mesma nota, «proporciona um nível adicional de apoio e coordenação, servindo também como um recurso valioso para os cidadãos norte-americanos que assistem aos Jogos de uma forma mais ampla».