O Mundial de 2026 de A a Z

O futebol que se jogou, os protagonistas, o que de bom e mau aconteceu, o que é para aproveitar e o que é para deitar fora, a forma como Messi e Ronaldo disseram adeus aos Campeonatos do Mundo e muito mais, sem esquecer a política da FIFA e a política da Casa Branc

Argentina - Sete vezes finalista do Campeonato do Mundo, e com três estrelas encimando o emblema da AFA, a Argentina continuará a ser uma das grandes potências do futebol. Em 2026 viveu nos limites e, a páginas tantas, pareceu ter mais vidas do que um gato. A derrota com a Espanha, na decisão, significou também o fim da era-Messi, devendo verificar-se uma necessária transformação geracional. Houve 17 jogadores que pertenceram aos convocados de Scaloni em 2022 e 2026. Quanto às cenas lamentáveis a que o Mundo assistiu, por muito que os jogadores saiam da Argentina, para alguns, o espírito 'barrabrava' não sai deles…

Brasil - Uma desilusão, no Mundial em que conseguiram um hexa sem títulos, algo inédito no seu historial. A aposta em Carlo Ancelotti (ainda) não deu frutos - embora vá valendo muitas críticas, a maior parte, xenófobas - e a verdade é que a canarinha se encontra um patamar abaixo de outras seleções. O escrete não pode queixar-se do guarda-redes nem dos centrais, teve um ataque onde Vini Jr. se entregou à equipa, mas nunca mostrou ter meio-campo para poder sonhar com a ‘Copa’.  

Cristiano Ronaldo - O capitão de Portugal foi o jogador mais velho a ser utilizado entre os 1248 futebolistas inscritos na fase final do Mundial. Nos cinco jogos que fez nos Estados Unidos deixou a certeza de que o seu tempo de centralidade na Seleção Nacional, acabou. E foi por aí que Portugal se perdeu, já que CR7 ainda podia ajudar, noutros moldes e com um enquadramento diferente, e isso não foi colocado na equação. O lugar na história e a gratidão dos portugueses ninguém lhe tira, mas já não há justificação para que permaneça no melhor onze da turma das quinas.

Diogo Costa - O guarda-redes do FC Porto foi a minha aposta, uns dias antes do Portugal-RD Congo, para destaque da Seleção Nacional no Mundial da América do Norte. Revelou classe e maturidade, mostrando significativa evolução face ao Catar, em 2022. É um valor seguro, com que Jorge Jesus pode contar, sem perder o sono. 

Espanha - Alguma coisa devem andar a fazer bem, ‘nuestros hermanos’. Campeões da Europa em 2008, 2012 e 2024, vencedores da Liga das Nações em 2023 e campeões do Mundo em 2010 e 2026, por aqui se vê como os jogadores vão passando e a qualidade do futebol se mantém. Orientados pelo discreto Luís de la Fuente, campeão, como jogador, pelo Atlético de Bilbau de Javier Clemente, nos inícios da década de 80 do século XX, os espanhóis, oriundos de todas as regiões autónomas, foram capazes de ser um só em querer e determinação, levando a festa a Madrid e a Barcelona, a Sevilha e a Valência, ou a Vigo e a Bilbau. Na final, venceram por K.O., tal a superioridade que demonstraram. Jogo mais difícil na caminhada para o título? Com Portugal.

Fernandez, Enzo - O antigo jogador do Benfica, transformado em vilão da final ao ser expulso depois de uma entrada duríssima sobre Cubársi, tem todas as condições futebolísticas para ser o líder da Argentina pós-Messi. Resta saber se tem estaleca mental para isso. O futuro di-lo-á. 

Gianni Infantino - Apesar de ter inventado um prémio da Paz para Donald Trump antes do Mundial; apesar de ter sido exposto pelo presidente dos Estados Unidos no caso da cunha à Comissão Disciplinar; apesar de ter alinhado em demasiadas ‘americanices’, desde as alegadas pausas para hidratação até aos anéis de campeão, passando pelos ilegais 24 minutos e onze segundos do intervalo da final; a verdade é que a FIFA organizou um Mundial com estádios cheios, proventos milionários e bom futebol. Inclusivamente, das 48 seleções presentes, apenas o Uzbequistão e Curaçao não se mostraram competitivamente à altura. Assim, não admira que tenha a reeleição, em Novembro próximo, no bolso. 

Henderson, Jordan - O veterano internacional inglês protagonizou o caso mais caricato da competição, ao fraturar um pulso na celebração de um golo dos Três Leões. O antigo capitão do Liverpool não merecia tal malapata.

Irão - Independentemente de terem sido desportivamente prejudicados (estágio, arbitragens, fronteiras), não tenho memória de um país que estivesse em guerra com outro e mesmo assim fosse ao território deste participar num evento desportivo. Será preciso recuar à Trégua Olímpica da Grécia Clássica.

João Pinheiro - O árbitro nascido em Vila Nova de Famalicão esteve à altura da responsabilidade de arbitrar num Mundial e deixou uma boa imagem da arbitragem nacional. Pena é que uma andorinha não faça a Primavera. 

Kylian Mbapée - Melhor marcador do Mundial com dez golos em oito jogos, melhor marcador da história dos Mundiais com 22 golos em 22 jogos, o ponta-de-lança do Real Madrid aproveitou o palco norte-americano para confirmar qualidades e exercer alguma liderança. Não foi, porém, suficiente para deter a batalha de egos que estalou entre os convocados por Didier Deschamps, fatal para as ambições dos gauleses, apontados como principais favoritos à conquista do troféu.

Lionel Messi - No estilo ‘poupadinho’ a que os 39 anos obrigam, Messi esteve sempre bem enquadrado por uma equipa que o reverenciou e dele extraiu o que de melhor a ‘Pulga’ ainda tinha para dar. O que Messi fez na ‘virada’ contra a Inglaterra ficará como um dos grandes momentos deste Mundial e contribuiu para que a lenda que envolve o prodígio argentino ganhasse um novo capítulo. Saiu do Campeonato do Mundo pela porta grande.

Martinez, Roberto - O ex-selecionador de Portugal errou ao colocar Cristiano Ronaldo como o ‘alfa’ e o ‘ómega’ de Portugal, desaproveitando os enormes recursos de que dispunha. Martinez deixou nos portugueses a sensação de que podia ter sido feito mais e melhor do que se fez. Contudo, deixou marca ao vencer a Liga das Nações de 2025, como tinha feito em 2018 com a Bélgica, terceira no Mundial, a melhor classificação de sempre dos Diabos Vermelhos, ou com o modesto Wigan, que levou à conquista da Taça de Inglaterra. 

Nagelsmann, Julian - A prestação da Alemanha no Mundial foi patética e a demissão do selecionador tornou-se inevitável. Aos 37 anos, depois de ter prometido muito, Nagelsmann tem colecionado fracassos e vai ter de dar novo impulso a uma carreira quesegue em plano descendente.

Otamendi, Nico - Depois de dez anos passados em Portugal - quatro no FC Porto e seis no Benfica - onde fez 255 jogos na I Liga (19 golos), Otamendi despediu-se, contra a Espanha, dos grandes palcos (está de regresso à Argentina), orgulhando-se de uma carreira com 25 títulos, entre os quais os de campeão do Mundo e Olímpico. Depois de Di María e ao mesmo tempo de Messi, o ‘general’ vê a hora de passar o testemunho. 

Paraguai - Depois da grande proeza que foi eliminar a Alemanha nos 16 avos de final, os paraguaios ‘borraram a pintura’ ao serem arautos do anti desportivismo na partida dos ‘oitavos’, com a França. Fica como imagem de marca do seu desempenho a tentativa de esburacarem a marca de penálti, antes do golo dos gauleses. Uma coisa da idade das cavernas…  

Quantidade - Foram 48 seleções a participar na fase final do Mundial de 2026 - e nem correu mal - fala-se em 64 para o próximo Campeonato do Mundo em Portugal, Espanha e Marrocos, o que parece manifestamente exagerado. Oxalá a FIFA respeite o futebol, e esse valor fale mais alto do que os argumentos dos patrocinadores.

Rodri - Foi o ‘Bola de Ouro’ do Mundial, da mesma forma como tinha sido ‘Bola de Ouro’ ao serviço do Manchester City: com um futebol coletivo, solidário, sempre de enorme qualidade, que o fez estar sempre no lugar certo à hora certa. Não é preciso fazer o pino com a bola na nuca para se ser o melhor do Campeonato do Mundo. Para isso há o circo…

Schjelderup - O extremo do Benfica, autor do melhor golo do Mundial, marcado à Inglaterra, saiu da América do Norte muito valorizado, o que levanta a seguinte questão: o Benfica precisa mais de 40 milhões, ou de Schjelderup? Quem tiver dúvidas que puxe atrás o filme de Grimaldo, antes de assinar pelo Leverkusen.

Tantashev, Ilgiz - A caótica arbitragem que protagonizou no França-Paraguai fica como imagem de marca da submissão de Pierluigi Collina aos interesses políticos da FIFA, ao nomear árbitros manifestamente impreparados para jogos que estavam bem para lá das suas capacidades. A necessidade (política) de manter as Confederações satisfeitas, continua a ser uma pedra no sapato da arbitragem nos Mundiais.

Uzbequistão - A par de Curaçao, não justificou a presença no Mundial. Foi a vitória mais folgada de Portugal, mas, francamente, não deverá constar do rol de proezas da Seleção Nacional.

White House - Meter uma cunha, ou, dito de forma mais fina, usar a magistratura da influência, nem é assim tão fora da caixa, no futebol ou noutra atividade qualquer. Agora meter uma cunha, como Trump fez a Infantino, e proclamá-lo publicamente como um ato de serviço público, é outra coisa, que me escuso de classificar. Como escrevi antes, com amigos assim, Infantino não precisa de inimigos. Ainda a propósito de Trump: tive pena de Pedro Sanchez não estar ao lado de Filipe VI na entrega da taça de Campeão do Mundo a Rodri, juntamente com o presidente dos Estados Unidos…

Vozinha - Cabo verde foi a Cinderela deste Mundial, uma seleção destemida, com bom futebol, que encheu de orgulho os habitantes das dez ilhas, da diáspora e de quem fala a mesma língua. Vozinha, com exibições brilhantes, foi a grande figura da equipa. 

Yamal, Lamine - Apesar de ser campeão do Mundo, apesar de ter recebido o testemunho, ‘made in La Masia’, de Messi, ainda tenho dúvidas quanto à carreira do prodígio do Barça. Se a cabeça ajudar, tem tudo para ser um dos maiores de sempre do futebol. Caso contrário…

Xenofobia - Houve casos, intoleráveis, de impedimentos de entrada nos Estados Unidos e Canadá, de jogadores, dirigentes, adeptos e árbitros (Omar Artan, da Somália, o mais visível). Uma nódoa no Mundial de 2026.

Zinedine Zidane - O regresso ao futuro do novo selecionador francês é suficientemente importante para encerrar este A a Z.

Vídeos

A iniciar sessão com Google...