Ian Cathro: «Estive dois dias no FC Porto com Villas-Boas e foi muito marcante»
— Tem mostrado não ter receio de colocar o dedo na ferida em situações que são insuficiências do nosso futebol e uma delas foi a calendarização do jogo com o Santa Clara, em que o Estoril foi obrigado a jogar quando tinha jogadores a representar as suas seleções. Considera-se prejudicado nessa situação?
— Nem é preciso fazer a pergunta… é completamente absurdo! Tenho quase a certeza de que havia uma linha qualquer num papel que alguém fez e talvez quem a fez nunca imaginou que isto ia acontecer. Acho que na próxima época vão ajustar qualquer coisa para admitir que isto não acontecerá, mas é completamente vergonhoso. A qualidade de jogo, dos jogadores, o talento que existe no campeonato português, têm de ser protegidos. Tenho amigos em outros clubes, em outras realidades a brincar comigo: dizem-me têm jogo, como podem ter jogo? E temos jogo… é completamente absurdo e espero mesmo muito que quem tem essa responsabilidade, não sei exatamente quem, mas tem de fazer alguma coisa para não deixar essa vergonha passar-se mais vezes.
— Outro ponto que identificou foi o estado de relvado do jogo com o Tondela, de que até falou novamente há pouco tempo. Acho que é algo pontual ou estrutural da nossa liga e acontece mais vezes?
— Vou dar um exemplo de uma das coisas que aconteceu, porque foi na época passada, no Farense e nunca vi isso acontecer, nunca… quem tem a máquina de cortar a relva, nas zonas do campo que não tinha relva e estava muito mau, alguém foi com um saco de relva morta, já cortada, pôr relva no chão para tentar fingir que havia mais relva no campo! Nunca vi isso num jogo profissional, é mais uma das pequenas coisas que vai completamente contra a qualidade do jogo. Acho que toda a gente tem uma responsabilidade grande para proteger a qualidade que existe, mas se vamos ter situações assim, como fazer jogos nesse relvado que fizemos e outras situações como jogar numa data FIFA, é uma desvalorização total do futebol português.
— Apesar destes episódios, o Ian gosta de futebol português e gosta muito de cá estar. O que o liga ao nosso futebol e lhe faz gostar tanto de cá treinar?
— Talvez tudo tenha começado com a primeira oportunidade para trabalhar com o Nuno [Espírito Santo], no Rio Ave. Aprendi que se voltar a trabalhar em equipas técnicas [como adjunto], vai ser do Nuno e de mais ninguém, vem da visão do que é uma equipa técnica. Prefiro olhar para o Nuno como amigo que como referência, fico mais feliz em dizer amigo que referência. Mesmo antes disso, o primeiro momento em que pensei talvez procure fazer uma carreira no futebol profissional e não na formação foi uns anos antes do Rio Ave, quando passei um ou dois dias no FC Porto, quando o André Villas-Boas era o treinador. E foi, por acaso, um momento muito marcante na minha vida, decidi quase logo no momento – vou tentar fazer carreira no lado profissional porque talvez seja capaz. Era um miúdo com sonhos, quando tinha sonhos e já não tenho, mas houve um momento em que tinha e este foi no futebol português, começou logo aí uma ligação.