Deniz Gul espera deixar marca no Mundial - Foto: IMAGO

Herança pesada: avançado do FC Porto com o número de herói turco... exilado

Deniz Gul vai vestir a camisola 9 no Mundial, que pertenceu a Hakan Sukur na lendária campanha de 2002

Os sete golos que Deniz Gul marcou pelo FC Porto na temporada finda foram suficientes para convencer o selecionador da Turquia, Vincenzo Montella, a incluir o avançado dos dragões na pré-convocatória para o Mundial. Já no ciclo de preparação para a grande prova, o ponta de lança voltou a dar prova de utilidade, ao faturar na goleada (4-0) aplicada à Macedónia do Norte e cravou o seu nome na lista final de eleitos.

Como se não bastasse, Gul foi escolhido para envergar uma das camisolas mais simbólicas da seleção turca: a 9, que, há 24 anos, foi vestida pelo lendário Hakan Sukur.

Lembramos os mais esquecidos: em 2002, naquela que havia sido a última participação dos Ay-Yildizlilar na maior competição do desporto rei, o número 9 foi utilizado pelo antigo avançado, ainda hoje o melhor marcador da história da seleção, com 51 golos em 112 internacionalizações. Na Coreia do Sul e no Japão, a Turquia alcançou um impressionante terceiro lugar, após tombar nas meias-finais frente ao Brasil, que viria a sagrar-se pentacampeão do Mundo.

Mas a história do outrora herói deu uma volta de 180 graus bem mais à frente. Uma volta tão grande que, hoje em dia, Sukur é nome proibido no país natal.

Em fevereiro de 2016, depois de enveredar pela política, Hakan Sukur foi acusado de insultar o presidente Recep Tayyip Erdogan na rede social X. Em agosto, foi emitido um mandado de captura contra o ex-futebolista, acusado de pertencer ao movimento Gulen, designado como organização terrorista na Turquia.

Cerca de dois anos depois, em entrevista ao The New York Times, Sukur explicou que deixou a Turquia em setembro de 2015, mudando-se para os Estados Unidos com a mulher e os três filhos. Já depois de ter aberto um estabelecimento de restauração na Califórnia, revelou, em 2019, através do YouTube, que estava a trabalhar como motorista da Uber, enquanto o governo turco ia confiscando as suas propriedades, negócios e contas bancárias no país natal.

Hakan Sukur em ação no Mundial 2002

Após sete anos e meio em solo norte-americano, o antigo goleador e a família receberam os vistos de residência permanente. Nesse mesmo ano (2023), Sukur inaugurou uma academia de futebol em Palo Alto, destinada a jogadores jovens. O ex-jogador mantém-se, ainda assim, como persona non grata para o governo turco. Prova disso mesmo foi o episódio ocorrido a 1 de dezembro de 2022, em pleno Mundial do Qatar.

Durante a transmissão do jogo entre Marrocos e Canadá na TRT, emissora pública da Turquia, o comentador Alper Bakircigil referiu, a propósito do golo de Hakim Ziyech ao quarto minuto de jogo, um recorde detido por Hakan Sukur, que marcou o golo mais rápido da história dos Mundiais aos 10,8 segundos, no jogo de atribuição do terceiro e quarto lugares contra a Coreia do Sul, em 2002. Ao intervalo, Bakircigil foi retirado da transmissão e despedido horas mais tarde.

Fazendo a ponte para o presente, Deniz Gul — o único ponta de lança de raiz nos convocados de Montella — é, agora, o dono da mítica camisola 9 da Turquia. Em termos desportivos, não faltará quem espere uma reencarnação do instinto goleador de Hakan Sukur no jovem atacante do FC Porto. Por outro lado, é pouco provável que, em solo turco, a lenda seja lembrada a viva voz...

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