Jimmy Floyd Hasselbaink
Jimmy Floyd Hasselbaink

Hasselbaink critica Mourinho: «Hipócrita. Como se sentem os jogadores negros do plantel do Benfica?»

Antigo avançado recorda tempos difíceis em Madrid e pede ainda à UEFA que arranje soluções contra o racismo

O antigo avançado Jimmy Floyd Hasselbaink criticou José Mourinho, treinador do Benfica, e abordou o problema persistente do racismo no futebol, partilhando as suas próprias experiências e comentando os recentes incidentes envolvendo Vinícius Júnior e outros jogadores.

Hasselbaink considera que o ciclo de racismo no futebol «nunca acaba», sentindo que se está sempre a «voltar ao início». A questão voltou a ganhar destaque após Vinícius Júnior ter acusado Gianluca Prestianni, do Benfica, de abuso racial durante um jogo da UEFA Champions League e de quatro jogadores da Premier League terem sido alvo de insultos racistas nas redes sociais num único fim de semana, o que levou a investigações policiais.

Solidão no Atlético Madrid

O antigo internacional neerlandês recordou os seus tempos no Atlético de Madrid (1999/2000), onde ouvia cânticos racistas e foi mesmo cuspido por adeptos à saída de um estádio. «Eu era o único a ser cuspido e era, na verdade, o único jogador negro da equipa», recorda este domingo em entrevista ao jornal The Guardian, acrescentando que ninguém o ajudou. Sobre o que sentiu, descreve: «Faz-te sentir um inútil. Faz-te sentir uma m****. Toda a gente seguiu em frente. Não se falou muito sobre o assunto. As pessoas viram. O que podes fazer quando estás sozinho?»

Apesar da sua experiência, Hasselbaink considera que não sofreu «tanto como Vinícius», que terá sido alvo de abuso racial 20 vezes em oito anos no Real Madrid, a maioria em Espanha.

Boca tapada é «área cinzenta»

No que toca ao incidente entre Vinícius e Prestianni, Hasselbaink expressou preocupação com a dificuldade de provar a acusação, uma vez que o jogador do Benfica tapou a boca com a camisola. Kylian Mbappé terá alegado ter ouvido Prestianni chamar «macaco» a Vinícius por cinco vezes, algo que o jogador argentino nega. «Todos pensamos que ele disse alguma coisa, porque é que ele está a tapar a boca?», questiona Hasselbaink. «Mas não o podemos provar. Essa ainda é uma área cinzenta».

As críticas mais duras de Hasselbaink foram dirigidas a José Mourinho, treinador do Benfica, por ter relacionado a celebração do golo de Vinícius, considerada provocatória, com o incidente que se seguiu. «Mas de que raio está ele a falar?», exclamou, recordando a famosa celebração de Mourinho em Old Trafford quando treinava o FC Porto, com o já famoso deslizar de joelhos. «Que hipócrita. Que grande hipócrita. Inacreditável», afirmou.

«Ele devia ter ido ter com o jogador e perguntar-lhe mesmo: 'O que é que disseste?'. Depois, se ele disser que não o insultou racialmente, dizes: 'OK, falei com o jogador, foi isto que ele disse'. Se ele o insultou racialmente, tem de ser punido. O Mourinho tem jogadores negros na sua equipa no Benfica. O que devem estar eles a sentir?»

O Mourinho tem jogadores negros na sua equipa no Benfica. O que devem estar eles a sentir?

O antigo avançado sugere que, para a próxima época, se proíba os jogadores de taparem a boca durante as discussões em campo, uma ideia que o presidente da FIFA, Gianni Infantino, também apoiou, sugerindo mesmo um cartão vermelho para quem o fizer. «Ele deve ter dito algo controverso, senão porque estaria a tapar a boca?», insiste Hasselbaink. «Não vai tapar a boca para dizer: 'Vinícius, és um jogador magnífico, absolutamente fantástico, posso ficar com a tua camisola?'».

Não vai tapar a boca para dizer: 'Vinícius, és um jogador magnífico, absolutamente fantástico, posso ficar com a tua camisola?'

O problema do racismo manifesta-se também no abuso online, que tem sido ligado ao aumento do investimento nas apostas desportivas. Na mesma semana, Hannibal Mejbri (Burnley), Wesley Fofana (Chelsea), Romaine Mundle (Sunderland) e Tolu Arokodare (Wolves) foram alvo de insultos racistas.

Hasselbaink, que em Portugal jogou no Campomaiorense (1995/96) e no Boavista (96/97), defende a aplicação de castigos mais severos para combater o racismo no futebol, incluindo irradiação vitalícia para adeptos e suspensões mais longas para jogadores, sem direito a salário.

A frustração de Hasselbaink estende-se à aparente inércia dos órgãos de poder, como a UEFA. «É muito simples ajustar isto. É muito simples tomar uma posição. A UEFA, aqui e ali, multou clubes – valores mínimos. Mas é embaraçoso», criticou.