Nádia Gomes foi mãe em 2019 - Foto: D.R.
Nádia Gomes foi mãe em 2019 - Foto: D.R.

«Tive medo. Não sabia se algum clube me iria querer»

Numa altura em que a gravidez no futebol voltou aos holofotes com o anúncio de Diana Silva, A BOLA falou com Nádia Gomes, que já trilhou este caminho com sucesso, apesar dos receios. A extrema deseja que a história da colega de Seleção sirva de impulso para a evolução da modalidade em Portugal

«Fiquei muito contente, até fiquei emocionada quando soube, mandei-lhe mensagem e tudo. Disse-lhe que seria um grande progresso para o futebol feminino em Portugal, espero que seja um grande exemplo para as mais novas.» Foi desta forma que Nádia Gomes, internacional portuguesa de 29 anos que joga no Chicago Stars, recebeu, do outro lado do Atlântico, a notícia de que Diana Silva estava grávida. Emocionada também, talvez, porque já viveu situação semelhante, em 2019, e sabe do desafio que a companheira de Seleção tem pela frente.

«Foi um desafio grande, não queria parar de jogar futebol, mas sabia que na liga americana havia outros casos de jogadoras que tinham tido bebés e tinham voltado bem, porque os clubes e a liga ajudam», contou a A BOLA a emigrante portuguesa nos Estados Unidos, que voltou ao radar nacional num passado recente, ao regressar aos compromissos da Equipa das Quinas.

Nádia Gomes, com o filho Braxton - Foto: D.R.
Nádia Gomes, com o filho Braxton - Foto: D.R.

Mas o caso Nádia foi um pouco diferente do de Diana: parou de jogar assim que soube que estava grávida de Braxton, que nasceu a 1 de setembro de 2019, e só regressou ao mundo do futebol… cinco anos depois. Um regresso antecipado foi hipotecado pela pandemia de Covid-19.

«Em 2018 estava no Orlando Pride, no final da época voltei para Utah, já estava a treinar para ir para outra equipa, o treinador tinha-me ligado, mas quando comecei a sentir sintomas parei de treinar. Em 2019 fiquei em casa, fiz trabalhos normais, mudei-me para a Califórnia para estar com o meu noivo. Fiquei até 2022. Aí disse: ‘Tenho de voltar para o futebol’», recordou a futebolista, embora não escondendo que pelo caminho teve de lutar contra o receio de não regressar ao ativo.

Não toquei numa bola durante esse tempo

«Sempre me senti apoiada pela minha família, mas tive medo, porque depois de sair daquela equipa [já tinha terminado contrato com o Orlando Pride] não tinha para onde ir. Ficas grávida, tens de tentar outra equipa, outros meios para entrar na liga. Não sabia se alguém me iria querer. Quando estás num clube, ele ajuda-te. Quando não estás, se calhar vão pensar que não és capaz», desabafou, antes de apontar para o caso da colega de seleção: «Receio faz parte, mas é um receio que se transforma em felicidade, e com a Diana dá para ver que é possível.»

Se sou um exemplo? Penso 'Uau, é uma grande história e espero que tenha impacto noutras meninas'... Sim, sou um exemplo de que se pode realizar sonhos e não desistir. Ser mãe não deve parar o futuro de uma mulher. Somos normais

Antes, já Nádia tinha provado que era possível voltar a um nível alto. Mesmo após ausência de cinco anos, não acusou o afastamento dos relvados. «Não toquei numa bola durante esse tempo, mas nunca ganhei peso, estava em forma, acho que é genética. Tinha um personal trainer, voltei a treinar futebol em 2022 e em 2023 ouvi falar numa segunda liga, utilizada por raparigas nas férias para se manterem em forma, e acabei como melhor marcadora na Liga esse ano [risos]. No final de 2023, o meu pai ajudou-me a encontrar um representante, e Francisco Neto chamou-me pela primeira vez em três ou quatro anos. Fiquei muitíssimo contente, foi muito bom ver as minhas colegas de Seleção, voltar e dar esperança às outras meninas», disse a extrema.

Nádia, o noivo Bryant e o filho Braxton - Foto: D.R.
Nádia, o noivo Bryant e o filho Braxton - Foto: D.R.

É uma inspiração, mas rejeita rótulos. «Se calhar tenho de me glorificar mais, tenho de pensar que sou um exemplo, mas não penso nisso diariamente. Penso 'Uau, é uma grande história e espero que tenha impacto positivo para outras meninas'. Mas sim, acho que sou um exemplo de que se pode realizar sonhos e não desistir. É algo que está a crescer mais no mundo do futebol feminino, espero que as jogadoras sintam que têm o apoio do clube e da seleção, porque ser mãe não deve parar o futuro de uma mulher. Somos normais.»

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