Gonçalo Ramos, 2022: «A primeira convocatória por mérito foi logo para o Mundial»
No Campeonato do Mundo de 2022, no Qatar, a Seleção Nacional alcançou os quartos de final, nos quais foi eliminada por Marrocos. Sob o comando de Fernando Santos, Portugal terminou em 1.º lugar no Grupo H e registou a maior goleada em fases a eliminar ao vencer a Suíça por 6-1 nos oitavos de final. Gonçalo Ramos marcou três desses golos. Um hat trick que fez dele uma das grandes revelações de Portugal nesse Mundial, no qual protagonizou momentos inesquecíveis ao serviço da Seleção Nacional. A BOLA falou com Gonçalo Ramos na Cidade do Futebol sobre o sonho concretizado em 2022 e a emoção com que este ano vai representar Portugal.
—Ainda te lembras onde é que estavas em 2022 quando ouviste o teu nome como um dos convocados para o Mundial do Qatar?
— Lembro-me. Estava a dormir [risos]. Estava em casa depois de um treino no Benfica e tinha por hábito fazer sempre a minha sesta. Era um momento importante e estava nervoso, à espera da convocatória. Adormeci e acordei aí uns 15 ou 20 minutos depois da convocatória, fui ao telemóvel e tinha várias chamadas. Da minha mãe, do meu pai, dos meus amigos e percebi logo que à partida tinha sido convocado. Depois também fui ao WhatsApp, tinha lá a convocatória e a informação da Seleção. Liguei aos meus pais…
— Choraste ou riste?
— Fiquei meio em choque e depois, nesse dia à noite, caí em mim e foi um alívio. Foi o realizar de um sonho. Mas, acho que nós só nos apercebemos quando estamos lá. Quando chegamos e treinamos com o grupo. Quando convivemos. Como é uma competição que só acontece de quatro em quatro anos, nós falamos entre nós da importância de não perder este tipo de competições. Temos um cuidado diferente nos jogos, não nos queremos lesionar e não queremos estar mal. Queremos estar a 100% e não queremos falhar uma competição destas.
Estava nervoso, à espera da convocatória e... adormeci
— O menino que em Olhão começou a jogar futebol alguma vez sonhou estar num palco do Mundial?
— Acho que nem é preciso chegar tão longe, a um Mundial e a uma Seleção Nacional. Acho que só estrear-me como profissional na primeira Liga portuguesa já é um sonho. Quando começamos a jogar é só por diversão e por amor ao jogo. Aquilo é o nosso hobby e é a nossa maneira de nos divertirmos, como outra coisa qualquer. Como os peões, as cartas, ou o que quer que seja. Com o passar do tempo vai ficando mais sério e só nos apercebemos quando já estamos demasiado envolvidos no nosso futebol. Acaba por ser um processo muito complexo, mas ao mesmo tempo muito natural e muito espontâneo. Quando nós nos apercebemos ou já estamos lá ou já passou.Eu conseguir alcançar um sonho porque é sem dúvida um sonho, mas ao mesmo tempo nem dei por isso. Foi a equipa B do Benfica, depois já estava na equipa A e quando dei por mim houve uma lesão. Acho que na minha primeira convocatória para a Seleção foi porque o Rafa saiu. Eu vim e depois a chamada seguinte foi logo a convocatória do Mundial e lá fui eu logo ao Mundial. Praticamente a minha primeira convocatória por mérito, digamos assim, foi o Mundial, porque a outra foi meio que por uma desistência e para substituir alguém.
Consegui alcançar um sonho, mas ao mesmo tempo, foi tão rápido, que nem dei por isso
— Quando pensas no Mundial do Qatar, o que é que te vem logo assim à memória?
— O meu hat trick. Acho que quando se fala desse Mundial ou nos lembramos dos meus três golos ou da desilusão de perdermos com Marrocos. Mas acho que vem primeiro um momento bom e aquela noite foi mágica e acabou por ser uma das imagens da nossa equipa naquele Mundial.
Até para mim foi uma surpresa substituir o Ronaldo com a Suíça
— Com o peso de substituir Cristiano Ronaldo, para surpresa de muitos. Como é que viveste esse momento?
— Foi difícil porque até para mim foi surpresa. Eu não estava 100%, nem se calhar 50% à espera de jogar. Só soube ali uma horinha antes do jogo. Esse dia foi caótico. Com o mister Fernando Santos nós só sabíamos a equipa, com certeza, quando chegávamos ao balneário. O mister chegava ao balneário e escrevia a equipa. Escrevia Diogo Costa, os defesas, não sei o quê e depois, no final, escreveu o meu nome. Foi estranho porque durante a semana, nos treinos, não deu para perceber que ia ser titular. Estava tudo meio baralhado. Naquela semana houve alguma coisa diferente, mas pensei: 'Não vou ser titular e o Cristiano não vai ficar no banco sem jogar.' Foi um nervosismo… Eu nunca tinha sido titular na Seleção. Era o meu primeiro Mundial, era um jogo importantíssimo,a eliminar, logo sem margem para erro, e para substituir o Cristiano. Era um peso… Até podia ser para substituir o Cristiano num jogo amigável contra a pior equipa do Mundo que o peso já era gigante, agora imagina substituir o Cristiano naquelas circunstâncias. Estava muito nervoso nesse dia. Lembro-me que aqueles dois ou três minutos no túnel, em que nós estamos alinhados, à espera que o árbitro dê a ordem para começarmos a entrar, pareciam uma eternidade. Só queria que o jogo começasse, porque depois, com a bola a rolar, os nervos saem. Durante o jogo é tudo diferente, porque é a nossa zona de conforto. Jogar é o que nós queremos fazer. Só que até lá parecia que o tempo estava em câmara lenta e eu só queria que o jogo começasse. Era muita responsabilidade. Era um momento muito importante. Há poucos momentos na carreira em que temos uma oportunidade daquelas em que tens os olhos todos em cima de ti. Isso acabou por mexer comigo e por me dar aquela adrenalina e aquele nervosismo especial para o jogo.
Quando se fala do Qatar lembro-me logo do meu 'hat trick', aquela noite mágica
— O que é que o Fernando Santos te pediu antes daquele jogo?
— Eu lembro-me que o mister dizia-me muitas vezes para eu fazer o que fazia no Benfica, pois queria que jogasse exatamente como jogava no Benfica. Ele dizia-me sempre para aparecer ao primeiro poste, que é onde fazia os golos, e inclusive nesse jogo até fiz um golo ao primeiro poste. Ele dizia para jogar como estava a treinar desde que tínhamos chegado ao Qatar. Esse foi o maior voto de confiança que ele me podia ter dado, porque basicamente ele disse-me para ser eu próprio. Para me libertar e me divertir em campo. Não me pediu nada de extraordinário. Pedia-me só para ser o Gonçalo que era no Benfica, pois foi isso que me tinha levado ao Mundial.
— Falavas desse golo que foi ao primeiro poste. Marcaste três bem diferentes. Qual foi aquele de que mais gostaste?
— É o primeiro, sem dúvida. Acho que é difícil recriar um golo daqueles. Acho que foi um momento de explosão, de libertação e foi numa fase precoce do jogo. Acabou por me libertar para o resto do jogo. Toda aquela pressão que eu tinha pelo momento, acabou também, de certa forma, por libertar a equipa, porque era uma eliminatória. Nós sabíamos claramente que éramos superiores, mas entrar a ganhar nos minutos iniciais era importante. Então, foi um golo de libertação e de explosão. Deu-me confiança para encarar o resto do jogo de outra forma e acabou por me soltar.
— Depois da vitória por 6-1 sobre a Suíça, fomos eliminados por Marrocos nos quartos de final....
— Foi duro. Foi uma noite complicada e eu acho que vai ficar sempre um saborzinho amargo quando se fala desse jogo, porque todos sabemos que dava para mais. Mas não havia muito mais a fazer em termos de entrega e comprometimento. Eles estiveram melhor nesse jogo e há que dar-lhes mérito.
— A forma como Portugal caiu nesse Mundial, nos quartos de final, aumenta a pressão para este ano?
— Cada vez mais pela qualidade que temos, por termos ganho a Liga das Nações, e pela mensagem que nós passamos, mesmo nas nossas declarações, ninguém esconde que somos favoritos e que queremos ganhar o Mundial. Se calhar não há nenhuma seleção no Mundo que tenha a nossa qualidade, as nossas armas, a forma em que os nossos jogadores estão…. Sabemos que podemos chegar lá, mas também sabemos que é um caminho duro. Depende de noites inspiradas, de sacrifícios, de tudo e mais alguma coisa. Mas fazemos o que podemos e tentamos preparar-nos da melhor forma, porque sabemos que temos tudo o que é preciso. É um comboio que só passa de quatro em quatro anos e sabemos que não há margem para brincar. Estamos a encarar este Mundial como uma oportunidade.