Giro: o que esperar de Afonso Eulálio na terrível terceira semana
A última semana do Giro de Itália pode transformar definitivamente Afonso Eulálio numa figura do pelotão mundial ou devolver o jovem português à realidade brutal das grandes voltas, que castigam quem não tem resistência para 21 dias sempre a elevado nível. E talvez seja precisamente aí, nessa fronteira entre a euforia e o desgaste, que reside o fascínio da corrida que recomeça na terça-feira nos Alpes.
Há duas semanas, poucos imaginariam o português vestido de rosa durante tantos dias. Hoje, o cenário mudou: Eulálio já não é apenas a surpresa romântica do Giro, mas um candidato credível a um dos cinco primeiros lugares da classificação geral. A forma como resistiu ao contrarrelógio e, sobretudo, às primeiras jornadas de alta montanha, alterou a perceção do pelotão.
Mas a terceira semana do Giro raramente perdoa improvisações. É aí que normalmente desaparecem os corpos frescos e sobrevivem apenas os organismos preparados para três semanas de sofrimento contínuo. O português chega a esta fase com sinais contraditórios: por um lado, mostrou capacidade de recuperação acima do esperado; por outro, começou a evidenciar pequenas quebras quando a corrida endureceu verdadeiramente ao ritmo imposto pela Visma de Jonas Vingegaard.
A diferença talvez esteja menos nas pernas e mais na profundidade das equipas. A Bahrain Victorious tem protegido Eulálio com enorme dedicação coletiva, algo que o próprio português já destacou publicamente. Contudo, na última semana, as equipas deixam de gerir e passam a executar estratégias de destruição. A Visma deverá endurecer cada subida longa, numa estratégia de desgaste dos rivais de Vingegaard, já aplicada com êxito na etapa (14.ª) em que o dinamarquês conquistou a camisola rosa a Eulálio, em que após o ritmo demolidor dos companheiros bastou-lhe acelerar (não necessitou de atacar, como o próprio reconheceu no final). De resto, porque o líder da geral admitiu esta segunda-feira que não vai lutar por todas as etapas de montanha para economizar energia para o Tour.
Como reagirá, então, o português à acumulação extrema de esforço acima dos 2000 metros e em jornadas consecutivas de alta montanha? Tecnicamente, Eulálio parece ter condições para resistir nas subidas longas em ritmo constante. O problema pode surgir nas acelerações violentas. Ainda que Vingegaard possa correr de forma mais conservadora, Eulálio tem bastante concorrência ao pódio e à camisola branca de Melhor Jovem que enverga, que, mais do que visar a liderança, certamente atacarão o figueirense. Nessa dimensão explosiva, o português ainda parece ligeiramente abaixo de Felix Gall, Jai Hindley ou o oponente mais ameaçador à maglia bianca, Giulio Pellizzari.
Ainda assim, há indicadores encorajadores. A recuperação diária de Afonso tem sido excelente, a leveza física favorece-o nas grandes altitudes e a confiança acumulada com tantos dias de liderança pode funcionar como combustível competitivo.
A previsão mais racional aponta para um cenário intermédio: Eulálio dificilmente conseguirá vencer o Giro perante a superioridade de Jonas Vingegaard e a consistência coletiva da Visma. Porém, também já não parece plausível um colapso total. O mais provável é que o português entre numa luta feroz pelo top-5, caso consiga sobreviver às etapas alpinas sem um dia verdadeiramente mau.
Nas contas do pódio, Eulálio tem o segundo lugar da geral preso por 24 segundos para Felix Gall e 37 para o quarto classificado, Thymen Arensman, vantagens que parecem escassas para o português na muita montanha que falta.
Para a batalha pelo top-5, dispõe de 1.56 minutos sobre o sexto da tabela, Pellizzari, que, reforce-se, também é o sério rival do corredor luso à camisola branca. O jovem italiano, apontado antes da partida do Giro como um dos principais adversários de Vingegaard, passou por uma infeção gástrica que o atrasou, mas pelos indicadores prestados na última etapa montanhosa parece estar em franca recuperação.
Por fim, na luta por ainda honroso top-10, Eulálio conta com 4.38 minutos de avanço para o francês Mathys Rondell, que na etapa-rainha em que o português perdeu a rosa, não lhe ganhou mais do que 19 segundos.
Logo, um lugar entre os dez primeiros parece perfeitamente ao alcance, ou num cenário extraordinário, aos cinco melhores. Para um corredor que há pouco mais de um ano ainda era visto sobretudo como promessa de montanha saída do ciclismo português continental, isso já representaria um feito histórico.