João Matos: «Irei ser sempre do Sporting»
Despediu-se da quadra com a mesma lucidez com que sempre anulou os pivôs: sabendo ler o tempo e o espaço antes de todos. João Matos transformou o rigor defensivo numa obra de arte e fez da braçadeira de capitão uma extensão da própria pele. Para trás fica um legado invejável.
- «O Sporting não foi a minha vida, o Sporting é a minha vida». Esta frase pertence-lhe e peço para a comentar.
- Entrei naquela casa há 24 anos, tenho 39, ou seja, mais de metade da minha vida foi passada no Sporting. Só isso já justifica essa frase. Depois nunca escondi qual é a cor da família, a cor pela qual se torce lá em casa e não é por o João Matos jogar no Sporting, já o meu avô sofria, o meu irmão partia as mesas em casa a ver o Sporting. Aquela casa sempre viveu Sporting, já tinha a camisola dos queijos Castelões quando era criança [risos], há muitos, muitos anos e as coisas conjugaram-se, aliado à cor de coração, que nunca escondi, juntaram-se mais de duas décadas a representar o clube, é mais que óbvio que é a minha vida. Irei ser sempre do Sporting, agora mais afastado, noutro contexto, mas irei sempre torcer pelo Sporting, irei querer que ganhe sempre.
- Falou aí em mesas, foi precisamente o primeiro desporto federado que praticou, ténis de mesa.
- Foi e, na altura, foi uma decisão difícil. O meu pai, de origem asiática, sempre foi muito bom no ténis de mesa e comecei a praticar quando estava na quarta classe. Depois, quando mudo de escola, tinha uma equipa de ténis de mesa e já sabia que ia para aquela escola, que a minha mãe trabalhava lá, e joguei durante cinco anos, no último conjuguei com o futsal. E aqui entre nós, era muito melhor no ténis de mesa do que no futsal, sem dúvida alguma [risos]. É uma modalidade fascinante que me trouxe coisas muito valiosas, muito boas para o futsal, em termos de reação, reflexos, pensamento e tomada de decisão rápidos. Foi um período espetacular, tenho muitas saudades e ganhei uma mágoa tão grande que, desde então, não pego numa raquete. Afastei-me, acho que é um luto constante na vida.
- Então o que pesou para escolher as quadras?
- Venho de uma família de desportistas. Os meus irmãos jogavam à bola, a minha irmã andebol, mais tarde jogou futsal também. Eu ia ver os jogos deles e cresci na rua a jogar à bola com duas pedras a fazer de baliza. Ainda hoje há um muro perto da casa dos meus pais pintado por mim e pelo meu irmão a fazer de baliza. Estava no sangue, aquele desporto mais fácil de praticarmos enquanto somos crianças, infelizmente hoje em dia já não se vê isso, miúdos a jogar na rua. Até que surgiu oportunidade de ir ao Clube de Carnaxide fazer uns testes. Tinha algum jeito, destaquei-me e fugia de casa para ir treinar — os meus pais agora já sabem disso [risos]. O futsal é um desporto muito fascinante, que cativa um jovem muito rapidamente. Estamos em constante toque com a bola, muito perto da baliza, sempre a jogar e mesmo que tenhas de ser substituído voltas a entrar. E foi amor à primeira vista, até aos 39 anos.
- Um torneio da Associação de Futebol de Lisboa foi a rampa de lançamento.
- Já tinha havido contactos com o Clube de Carnaxide, mas o Sporting não tinha escalão de iniciados e fiz mais um ano no Carnaxide, depois fui observado nesse torneio e ingressei no Sporting como juvenil de primeiro ano. De início foi muito complicado, fora da minha zona de conforto, com jovens de enormíssimo talento, muito melhores do que eu. Ainda hoje o Paulo Moutinho me chama rato atómico [risos], porque os outros eram mais tecnicistas e eu tinha de usar as minhas características de intensidade, velocidade, estratégia. Fui-me desenvencilhando para vingar na modalidade.
- A estreia na equipa sénior aconteceu em 2005/2006, pela mão de Paulo Fernandes, ante o SC Braga, numa época em que o Sporting fez história ao conquistar pela primeira vez a dobradinha. Foi uma espécie de amuleto?
- Só sei que me estreei enquanto júnior e foi o meu primeiro campeonato nacional, fiz oito jogos nessa época. Sou fraco de memória, a não ser com algo muito diferente. Mas foi o início de uma longa caminhada, o Paulo Fernandes olhou para mim com potencial e acho que foi aí um clique importante.
- Em mais de duas décadas trabalhou apenas com três treinadores no Sporting: Paulo Fernandes, Orlando Duarte e Nuno Dias. Três gerações diferentes que tanto contribuíram para o futsal em Portugal.
- Incrível! Três treinadores totalmente distintos, mas os três deixam marca muito vincada. O Paulo porque apostou em mim, acreditou e lançou-me, depositou em mim muita confiança. Ainda hoje quando estou com ele não é como treinador e jogador, é sempre com um abraço de agradecimento e carinho muito além do comum. Depois o Orlando foi quem me levou à Seleção pela primeira vez, quem me levou a um Europeu, tendo eu feito apenas dois treinos na preparação porque me lesionei. Era um pai para os jogadores, dava a vida por nós, tinha o seu feitio duríssimo, tinha o seu feitio de velha guarda, muito vincado que ainda hoje o tem, casmurro e rijo [risos] e o Nuno, já lá vão 14 anos. Veio revolucionar tudo, com dinâmica, exigência, rigor e detalhe. Veio trazer todo um mundo novo e não é por acaso que o Sporting é considerada a equipa da década, isso diz muito da qualidade do Nuno. E, sem esquecer o Jorge Braz, na Seleção, tenho a certeza absoluta que fui treinado pelos dois melhores treinadores do Mundo, o Nuno a nível de clube e o Braz na Seleção.
- Enquanto capitão também foi extensão do treinador. Com que situações mais difíceis teve de lidar?
- Felizmente não tive balneários problemáticos. Nunca houve assim discussões nem agressões. E na minha cabeça estava sempre claro que se posso fazer a ponte entre os problemas, chegar às pessoas que os têm de resolver muito bem, se não não levava esse problema para casa. Tenho de ter o meu equilíbrio emocional, senão não vou funcionar. E como motivar uma equipa que já ganhou tudo? É um dos maiores mistérios e segredos do Sporting. É ser rigoroso com o teu trabalho, nunca precisei de ter grandes conversas com o Nuno, eu sabia o que ele queria e vice-versa, apenas reforçávamos a mensagem a passar ao grupo.
- E num estalar de dedos passaram-se 24 anos. Tornou-se num 'one man club', fez 812 jogos de leão ao peito, marcou 166 golos e conquistou 44 troféus. Tudo valeu a pena?
- Mesmo que não tivesse esses números, valia a pena. Ficam os títulos, os números de jogos, as Champions, os campeonatos, a Seleção. Fica na história, mas há muitos títulos que não me lembro de ganhar, mas lembro-me de momentos com o André Sousa, com o Bebé, o Benedito, o Pauleta, o Alex, o Merlim, o Evandro, o Café e de tantos outros. Jantares, conversas, festejos, mais do que os títulos foram os momentos que valeram a pena, tantas emoções vividas. Deu-me alegria, experiência, crescimento. Valeu a pena pelo legado que possa ter deixado aos mais jovens, pelas aprendizagens que possa ter passado aos outros. Tudo valeu a pena. Se fosse no futebol, com este currículo, não precisava de trabalhar mais na minha vida, mas, amanhã, tenho que pegar nas pastas e vou para o escritório. Mas, é extraordinário aquilo que levo na bagagem para a vida. O que o alto rendimento e a alta competição me deram, e que não foi só títulos, não foi só levantar troféus, não foram só números, foram pessoas, ligações, aprendizagens, vivências.
- Falando da parte financeira, ao longo dos anos o Sporting foi perdendo peças fulcrais no plantel para mercados financeiramente mais fortes. O que o fez ficar?
- Sempre fui, ou tentei ser, uma pessoa muito racional, mas o lado emocional de clube e de família pesou muito na decisão. Sempre fui um animal competitivo, e estar no Sporting é ter uma ligação emocional a um clube, estar perto da minha família, que é o meu suporte, e continuava num clube competitivo e a ganhar. Para quê mudar? Nunca fiquei no conforto de estar numa casa que me acolheu, sempre lutei por mais desportivamente e por melhores contratos dentro do clube. Podia ter enveredado por outros caminhos, mas se calhar não estava aqui hoje, porque não criava este legado, esta história bonita de uma só camisola, de um amor a um clube com muitos títulos.