Não é falta de ambição nem excesso de proteção. É formação
Na formação desportiva existe um erro que se tem tornado cada vez mais frequente: confundir desenvolvimento com rendimento imediato.
Quem coloca a aprendizagem acima da classificação é frequentemente acusado de proteger demasiado as crianças ou de revelar falta de ambição.
No entanto, talvez a questão deva ser outra: será que sacrificar oportunidades de aprendizagem para ganhar mais cedo é realmente ambição?
Colocar o desenvolvimento acima do resultado não significa retirar valor à competição. Os jogos continuam a existir, as equipas continuam a querer ganhar e as derrotas continuam a gerar frustração. Nada disso desaparece.
A diferença está no peso que lhes atribuímos.
Uma derrota continua a ser uma derrota, mas não tem de definir tudo. Um erro continua a gerar frustração, mas não tem de definir a criança nem o seu valor.
Hoje, qualquer contexto onde exista tolerância ao erro, paciência perante o processo ou preocupação com o desenvolvimento individual tende a ser rapidamente interpretado como excesso de proteção. Parece existir a ideia de que ensinar significa eliminar o erro, quando, na realidade, ensinar implica precisamente ajudar a criança a compreendê-lo, aceitá-lo e crescer através dele.
O erro não representa uma falha do processo de aprendizagem; faz parte dele.
Uma criança que experimenta, toma decisões, falha e volta a tentar está exatamente a viver aquilo que deveria viver naquela fase do desenvolvimento. É através dessas experiências que constrói competências, ganha confiança, desenvolve autonomia e aprende a lidar com desafios.
Retirar o erro do processo não acelera a aprendizagem. Muitas vezes, limita-a.
Por isso, tolerar o erro não deve ser confundido com excesso de proteção. Proteger seria retirar a criança da dificuldade, evitar que enfrentasse desafios ou impedir que lidasse com a frustração inerente a qualquer processo de aprendizagem.
Formar é diferente.
Formar implica criar condições para que a criança experimente, falhe, reflita e tente novamente, compreendendo que a evolução raramente acontece de forma linear.
Da mesma forma, não colocar o resultado no centro de tudo também não significa falta de ambição.
Falta de ambição seria desistir de melhorar, aceitar a estagnação ou não exigir evolução.
Quem acredita verdadeiramente na formação quer ganhar e prefere ganhar a perder, como qualquer pessoa competitiva.
A diferença está em não permitir que a vontade de vencer hoje se sobreponha ao desenvolvimento de quem ainda está a aprender.
Porque quando o resultado imediato se torna prioridade, muitas vezes reduzem-se oportunidades, limita-se a experimentação, condiciona-se a tomada de decisão e acaba por se ensinar menos para ganhar mais.
Importa também olhar para uma ambição que muitas vezes passa despercebida: a ambição da própria criança.
A vontade de aprender. De melhorar. De ultrapassar dificuldades. De conseguir amanhã aquilo que hoje ainda não consegue fazer.
Nem sempre a ambição do adulto coincide com a necessidade da criança.
Talvez seja precisamente aí que resida o verdadeiro desafio da formação.
Não ganhar cedo.
Mas formar crianças que continuem a aprender, a persistir e a gostar do jogo muito depois do resultado final.
Porque talvez o maior sucesso da formação não seja a criança que ganha cedo, mas aquela que continua a querer aprender anos depois.