O erro não representa uma falha do processo de aprendizagem; faz parte dele — Foto: IMAGO
O erro não representa uma falha do processo de aprendizagem; faz parte dele — Foto: IMAGO

Não é falta de ambição nem excesso de proteção. É formação

Parece existir a ideia de que ensinar significa eliminar o erro, quando, na realidade, ensinar implica precisamente ajudar a criança a compreendê-lo, aceitá-lo e crescer através dele. 'Tribuna Livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Gonçalo Mendonça, coordenador do futsal de formação do Clube Recreativo Leões de Porto Salvo

Na formação desportiva existe um erro que se tem tornado cada vez mais frequente: confundir desenvolvimento com rendimento imediato.

Quem coloca a aprendizagem acima da classificação é frequentemente acusado de proteger demasiado as crianças ou de revelar falta de ambição.

No entanto, talvez a questão deva ser outra: será que sacrificar oportunidades de aprendizagem para ganhar mais cedo é realmente ambição?

Colocar o desenvolvimento acima do resultado não significa retirar valor à competição. Os jogos continuam a existir, as equipas continuam a querer ganhar e as derrotas continuam a gerar frustração. Nada disso desaparece.

A diferença está no peso que lhes atribuímos.

Uma derrota continua a ser uma derrota, mas não tem de definir tudo. Um erro continua a gerar frustração, mas não tem de definir a criança nem o seu valor.

Hoje, qualquer contexto onde exista tolerância ao erro, paciência perante o processo ou preocupação com o desenvolvimento individual tende a ser rapidamente interpretado como excesso de proteção. Parece existir a ideia de que ensinar significa eliminar o erro, quando, na realidade, ensinar implica precisamente ajudar a criança a compreendê-lo, aceitá-lo e crescer através dele.

O erro não representa uma falha do processo de aprendizagem; faz parte dele.

Uma criança que experimenta, toma decisões, falha e volta a tentar está exatamente a viver aquilo que deveria viver naquela fase do desenvolvimento. É através dessas experiências que constrói competências, ganha confiança, desenvolve autonomia e aprende a lidar com desafios.

Retirar o erro do processo não acelera a aprendizagem. Muitas vezes, limita-a.

Por isso, tolerar o erro não deve ser confundido com excesso de proteção. Proteger seria retirar a criança da dificuldade, evitar que enfrentasse desafios ou impedir que lidasse com a frustração inerente a qualquer processo de aprendizagem.

Formar é diferente.

Formar implica criar condições para que a criança experimente, falhe, reflita e tente novamente, compreendendo que a evolução raramente acontece de forma linear.

Da mesma forma, não colocar o resultado no centro de tudo também não significa falta de ambição.

Falta de ambição seria desistir de melhorar, aceitar a estagnação ou não exigir evolução.

Quem acredita verdadeiramente na formação quer ganhar e prefere ganhar a perder, como qualquer pessoa competitiva.

A diferença está em não permitir que a vontade de vencer hoje se sobreponha ao desenvolvimento de quem ainda está a aprender.

Porque quando o resultado imediato se torna prioridade, muitas vezes reduzem-se oportunidades, limita-se a experimentação, condiciona-se a tomada de decisão e acaba por se ensinar menos para ganhar mais.

Importa também olhar para uma ambição que muitas vezes passa despercebida: a ambição da própria criança.

A vontade de aprender. De melhorar. De ultrapassar dificuldades. De conseguir amanhã aquilo que hoje ainda não consegue fazer.

Nem sempre a ambição do adulto coincide com a necessidade da criança.

Talvez seja precisamente aí que resida o verdadeiro desafio da formação.

Não ganhar cedo.

Mas formar crianças que continuem a aprender, a persistir e a gostar do jogo muito depois do resultado final.

Porque talvez o maior sucesso da formação não seja a criança que ganha cedo, mas aquela que continua a querer aprender anos depois.

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