Daniel Freitas tinha 24 anos
Daniel Freitas tinha 24 anos

Foi há oito anos que médio do São Paulo foi vítima de assassinato hediondo

Daniel Freitas foi degolado, num crime que chocou o Brasil em outubro de 2018

Completaram-se na passada terça-feira oito anos sobre o brutal assassinato de Daniel Corrêa Freitas, futebolista formado no Botafogo e com passagens por São Paulo, Coritiba e São Bento. O crime, ocorrido em outubro de 2018, deixou marcas profundas na família do atleta, natural de Conselheiro Lafaiete, no interior de Minas Gerais, que recorda os momentos de angústia vividos até à confirmação do desfecho fatal.

O pesadelo começou a 28 de outubro de 2018, num domingo em que o Brasil se encontrava parado pelas eleições presidenciais que ditaram o triunfo de Jair Bolsonaro (PSL) sobre Fernando Haddad (PT). Por volta das 18h00, uma mensagem no grupo de primos da família fez soar os alarmes: «Algum de vocês teve contacto com o Daniel nos últimos dias?»

A mãe do jogador, Eliana Aparecida Corrêa, estava sem notícias do filho há quase dois dias. O último paradeiro conhecido de Daniel tinha sido uma festa em Curitiba, na noite de sexta-feira, dia 25. A partir de então, as chamadas para o telemóvel não eram concluídas e as mensagens deixaram de ser entregues.

Após momentos de desespero, os familiares apuraram que o jogador havia participado na celebração do 18.º aniversário de Allana Brittes, numa casa de espetáculos da capital paranaense. «Eu nunca tinha ouvido falar o nome dessa moça», confessou Henrique Salsamo, primo e um dos melhores amigos de infância de Daniel, em declarações ao ge.

Na altura, os familiares conseguiram contactar Allana Brittes, residente em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. A jovem alegou que Daniel tinha ido para sua casa após a festa, pernoitado no local e saído na manhã seguinte através de uma viatura de transporte privado (Uber). «E isso era uma mentira do car*!», desabafou Henrique.

Allana é filha de Edison Luiz Brittes Junior, conhecido como «Juninho Riqueza», homem que viria a ser condenado pelo homicídio de Daniel. As investigações policiais concluíram que a jovem tinha conhecimento dos atos praticados pelo pai, tendo tentado defraudar as averiguações com falsas informações e enganado a família do jogador. Em depoimento judicial, uma tia da vítima recordou que Allana se mostrou «extremamente solícita o tempo todo», disponibilizando-se para ajudar e fornecendo contactos de hotéis locais.

Perante a falta de respostas consistentes, um dos primos do jogador contactou hospitais, forças policiais e o Instituto Médico Legal (IML) de São José dos Pinhais. Foi nessa instituição que surgiu a indicação de que dera entrada, na manhã de sábado, o corpo de um indivíduo por identificar com características idênticas: jovem branco, com cerca de 25 anos e sem tatuagens.

Daniel, que faleceu aos 24 anos, recuperava ainda das sequelas de uma grave lesão no joelho direito sofrida três épocas antes — período durante o qual contraiu duas roturas do ligamento cruzado anterior em menos de dois anos. A presença de uma cicatriz cirúrgica no mesmo joelho do corpo que se encontrava no IML serviu de confirmação formal da morte à família.

«Como assim? Que po é essa, mano?», reagiu Henrique ao receber a trágica notícia. Dois anos mais novo que o futebolista, Henrique cresceu ao lado de Daniel em Conselheiro Lafaiete, mantendo uma relação de proximidade quase fraternal. Recordou o primo como alguém pacífico, frisando que «nunca brigou nem com uma formiga, nunca teve uma treta», e admitiu que nunca equacionou a hipótese de homicídio nas primeiras suspeitas.

O processo judicial conheceu a decisão final há cerca de dois anos através de julgamento em tribunal do júri popular, determinando as penas dos envolvidos. Enquanto a mãe do jogador prefere manter o recolhimento e o silêncio para não reabrir feridas, a memória de Daniel permanece viva entre os familiares mais próximos.

A morte brutal do futebolista Daniel Corrêa chocou o meio desportivo pelas circunstâncias extremas em que ocorreu. O corpo do atleta foi encontrado numa zona de mata em São José dos Pinhais, de tal forma desfigurado que o reconhecimento inicial apenas foi viável através de uma cicatriz no joelho. As marcas e escoriações no cadáver indicavam que tinha sido vítima de agressões violentas.

De acordo com o relatório pericial, a vítima sofreu um «extenso ferimento disposto em quase toda a circunferência da região cervical», que quase provocou a decapitação completa, restando apenas três centímetros de pele intacta. O documento registou ainda a «amputação peniana total», tendo o órgão genital sido localizado em cima de uma árvore nas imediações de onde jazia o corpo.

Oito anos volvidos sobre os acontecimentos, o primo do jogador, Henrique, recorda ao Globoesporte o choque ao tomar conhecimento dos factos através da imprensa local: «O que fizeram com ele foi uma cobardia. Tudo isto foi muito frio, muito macabro mesmo. Lembra crimes de 500 ou mil anos atrás, em que as pessoas morriam com a cabeça decapitada e outras coisas mais. Nada do que ele possa ter feito justifica isto.»

Ascensão precoce e o revés das lesões

Natural de Juiz de Fora, Daniel Corrêa foi criado em Conselheiro Lafaiete, cidade com cerca de 140 mil habitantes situada a sensivelmente 100 quilómetros de Belo Horizonte. Deu os primeiros passos futebolísticos na formação do Cruzeiro, um dos seus clubes de eleição juntamente com o Fluminense, este último por influência paterna.

O médio franzino rumou ao Botafogo na fase final da sua formação com o rótulo de promessa, evidenciando-se pelos golos e pela velocidade com a bola colada ao pé direito. Integrou a equipa principal em 2013 e, no ano seguinte, sob a orientação do treinador Oswaldo de Oliveira, tornou-se numa das figuras de maior destaque. Em maio de 2014, apontou o seu único hat-trick da carreira no triunfo por 6-0 frente ao Criciúma, a contar para o Brasileirão.

«O Daniel sempre foi um indivíduo muito tranquilo, muito tranquilo mesmo. Tímido, falava baixo. Não tinha muito o estereótipo do jogador de futebol, no sentido de ser alguém tatuado ou com uma personalidade muito forte», descreve Henrique, acrescentando: «Era tão reservado que, por vezes, parecia não querer a dimensão que estava a ganhar. Não estamos a falar de um jogador de nível de seleção brasileira, mas de alguém que teve algum sucesso no início da carreira e ficou assustado com essa realidade.»

Após cumprir 28 partidas, somar cinco golos e rubricar três assistências na temporada de 2014, o médio viu a progressão ser travada por uma rutura do ligamento cruzado do joelho direito em setembro, numa partida diante do Ceará para a Copa do Brasil. Daniel nunca recuperou totalmente da mazela, voltando a romper o mesmo ligamento em janeiro do ano seguinte ao subir as escadas da sua residência. A condição tornou-se crónica, ao ponto de o atleta desabafar perante as pessoas mais próximas: «Sinto dor até para me deitar.»

Passagens por São Paulo e empréstimos sucessivos

O São Paulo assegurou a sua contratação ao bater a concorrência do Palmeiras em dezembro de 2024, mas a estreia apenas ocorreu em setembro de 2015, num nulo frente ao Joinville. Com apenas 15 jogos disputados pelo emblema paulista, o médio acumulou passagens por empréstimo no Coritiba e na Ponte Preta, marcadas por poucos minutos e debilidades físicas permanentes.

«Ele já estava um pouco desiludido. Penso que, se não tivesse ocorrido esta tragédia, provavelmente hoje ele já não estaria a jogar», confessou o primo Henrique a respeito das frustrações desportivas do atleta.

O último clube da carreira de Daniel Corrêa foi o São Bento. No fim de semana de eleições em 2018, a formação tinha agendado um encontro frente ao CRB, relativo à Série B do Brasileirão. Fora das opções e sem ser convocado para o jogo após o treino de sexta-feira, o jogador recebeu autorização de folga até segunda-feira e viajou para Curitiba para se juntar a amigos na celebração do aniversário de Allana Brittes.

A estrutura do São Bento tinha prometido alargar o descanso dos atletas até terça-feira caso a equipa vencesse o encontro. O conjunto triunfou por 1-0 com golo de Zezinho, mas, no momento em que a formação entrou em campo no sábado, Daniel Corrêa já tinha sido assassinado.

O processo judicial que investiga o homicídio de Daniel Corrêa, antigo futebolista com passagens por Botafogo e São Paulo, revela uma sequência de acontecimentos brutais que culminou na morte do jogador, cujo corpo viria a ser encontrado entre as 10h00 e as 11h00 de sábado, dia 27, numa zona de mata.

A denúncia do Ministério Público do Paraná, que resultou na indiciação de sete pessoas, reconstitui as horas que antecederam o crime. Daniel tinha viajado à boleia de Sorocaba para Curitiba para marcar presença no aniversário de Allana, jovem em cuja festa de 17 anos já tinha participado no ano anterior. O atleta ficou alojado em casa de um dos seus melhores amigos, que também foi ao evento.

A noite começou numa discoteca onde, segundo as testemunhas recolhidas pela polícia, tudo decorreu dentro da normalidade, registando-se um elevado consumo de bebidas alcoólicas. Os exames periciais realizados ao corpo de Daniel detetaram 13 decigramas de álcool por litro de sangue, o que comprova um estado de embriaguez avançado.

Pela manhã, Allana decidiu prolongar os festejos na residência da família, localizada em São José dos Pinhais, a menos de 15 quilómetros de Curitiba. Enquanto o melhor amigo de Daniel regressou a casa por motivos laborais, o jogador integrou o grupo restrito que seguiu para a habitação dos Brittes. No local, os presentes concentraram-se na zona exterior, tendo Cristiana, mãe da aniversariante e também bastante embriagada, ido descansar.

Foi nessa altura que Daniel entrou na suite e se deitou na cama ao lado de Cristiana, envergando apenas camisa e roupa interior. O atleta chegou a enviar fotografias e uma mensagem de voz, num tom bem-disposto, a um primo:

«Mano, a situação aqui é desesperadora. Não sei como é esta casa onde vim parar, mas tem uma cota a dormir, tem uma miúda a dormir. O namorado da miúda não sei onde está, o marido da cota não sei onde está. O que é que eu faço?»

Às autoridades, Cristiana relatou ter acordado com Daniel a esfregar-se no seu corpo, em ereção e a apalpar-lhe os seios, sustentando a alegação de violação. Contudo, as investigações não comprovaram essa versão. O primo da vítima, Henrique, abordou o comportamento do atleta:

«Eu não sei se ele a violou sexualmente, imagino que não, mas o Daniel importunou-a. Disso tenho a certeza absoluta. Porque me parece que entrou num quarto para o qual não foi convidado e estava a mandar umas fotitos a um primo nosso, certo? Ele estava a importuná-la, disso tenho a certeza.»

A violência desencadeou-se quando Edison Brittes encontrou a porta do quarto trancada e, ao espreitar pela janela, viu Daniel na cama com a mulher. Edison saltou pela janela, arrancou o jogador da cama e iniciou as agressões. A ele juntaram-se Ygor King, David Willian Vollero e Eduardo Henrique Ribeiro, dando início a uma sessão de espancamento que durou vários minutos.

Na sequência das agressões, Daniel foi atirado para o chão da garagem, gravemente ferido, quase inconsciente e já sem roupa interior. Segundo testemunhas, o jogador suplicou várias vezes pela própria vida enquanto Edison Brittes ia à cozinha buscar uma faca sem serra. De seguida, os quatro agressores colocaram Daniel na bagageira de uma viatura e abandonaram a casa.

Os relatos de Ygor, Eduardo e David apontam que, ao chegarem a uma área de mato a cerca de 20 minutos de distância, Edison retirou o futebolista do carro e golpeou-lhe o pescoço, provocando a hemorragia externa fatal confirmada pela autópsia. De acordo com os três intervenientes, Edison terá amputado sozinho o órgão genital da vítima, atirando-o para longe e arrastando o corpo para fora da estrada.

Não obstante, o inquérito policial remetido ao Ministério Público do Paraná não descarta que a mutilação genital tenha ocorrido antes do golpe letal no pescoço, havendo indícios de que Daniel terá sido imobilizado por mais de uma pessoa durante os atos de tortura. Contactados pela reportagem do ge, o delegado reformado Amadeu Trevisan, que liderou as investigações na esquadra de São José dos Pinhais, e um dos investigadores do caso escusaram-se a prestar declarações gravadas.

Perante a extrema violência dos factos, o primo Henrique expressou a sua indignação face ao desfecho:

«Quer ele a tenha importunado ou não, nada justifica a crueldade de um crime que faz lembrar a Idade Média, um crime em que se corta a cabeça a uma pessoa. Não justifica.»

O tribunal de júri considerou Edison Luiz Brittes Junior o único responsável pelo homicídio de Daniel, condenando o empresário a uma pena de 42 anos de prisão. A sentença engloba as acusações de homicídio triplamente qualificado — cometido por motivo torpe, meio cruel e com recurso que impossibilitou a defesa da vítima —, além de ocultação de cadáver, fraude processual e corrupção de menores. O arguido permanece detido na Penitenciária Estadual de Piraquara, no Paraná, sendo o único dos envolvidos que continua a cumprir pena na cadeia.

O desfecho do julgamento, realizado em março de 2024, ditou ainda a condenação de Allana Emilly Brittes a sete anos e nove meses de reclusão, tendo a filha do homicida sido considerada culpada de fraude processual, corrupção de menores e coação no curso do processo. Por sua vez, a mãe, Cristiana Rodrigues Brittes, foi condenada a um ano e seis meses de cadeia pelos crimes de fraude processual e corrupção de menores. Em sentido oposto, David Willian Vollero, Eduardo Henrique Ribeiro, Ygor King e Evellyn Brisola Perusso foram totalmente absolvidos pelo júri.

Recorde-se que a investigação policial culminou na acusação de sete pessoas pelo Ministério Público. Entre elas constava Evellyn Brisola Perusso, indiciada por fraude processual e corrupção de adolescente por ter ajudado a eliminar vestígios do crime na habitação e persuadido uma jovem de 17 anos, presente na festa, a alinhar na encenação. Enquanto cinco dos arguidos aguardaram o desfecho do processo em liberdade, Edison e Eduardo viram a prisão preventiva ser sucessivamente prolongada até ao momento da decisão judicial.

O caso foi resumido de forma crua durante o processo: «O Daniel estava a querer armar-se em machão ao entrar num quarto para o qual não foi convidado, e o Edison matou-o e cortou-lhe o pénis fora para mostrar 'eu sou mais macho do que tu'. E, no fim de contas, um tentou ser mais homem do que o outro: um está dentro de um caixão e o outro está dentro de uma cadeia. Por causa de mulher, foi isso que aconteceu.»

Apesar da sentença pesada, o desfecho judicial está longe de trazer conforto aos familiares da vítima. Henrique, primo de Daniel, optou há anos por se afastar das notícias sobre o processo e recusa sequer saber os detalhes da pena.

«Eu estaria satisfeito sabe como? Se o Daniel estivesse aqui. O Daniel não está aqui. Mas eu não sei quantos anos ele apanhou de prisão, eu não sei em que cidade ele está preso, eu não sei nada. E prefiro não saber, não quero nem que me fale. Se eu estou satisfeito? Eu não estou satisfeito com nada, não. Eu estou indignado com o que aconteceu. Não há justiça que pague uma pessoa que morreu», desabafou Henrique.

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