Foi assim que Moffi abriu o marcador em Estugarda - Foto: Imago
Foi assim que Moffi abriu o marcador em Estugarda - Foto: Imago

Fogo nos pés, gelo na cabeça: dois golpes na lição portista em Estugarda (crónica)

Do toque letal de Moffi ao rasgo de Zaidu que deu origem ao tento de Rodrigo Mora, o FC Porto respondeu ao golo do Estugarda com cabeça de gente grande. Dragões deixam porta dos quartos de final da UEFA Europa League aberta

O FC Porto abriu com chave de ouro a primeira parte do duelo com o Estugarda. A vitória frente a um adversário de grande valor, 4.º classificado da Liga alemã, deixa boas perspetivas de apuramento para os ‘quartos’ e, desta vez, ao contrário do que aconteceu no clássico com o Benfica, os dragões não deixaram escapar a vantagem de dois golos construída num curto espaço de tempo, com assinaturas de Moffi e Rodrigo Mora.

Esse risco chegou a pairar — o VAR travou a celebração de Angelo Stiller, ao detetar irregularidade no lance —, mas o FC Porto não foi apenas superior no marcador. Também o foi na forma como leu e dividiu o jogo: com mais fogo e arrojo antes do intervalo; calculista q.b. no período complementar, em que sofreu, é certo, mas também esteve perto de aplicar o golpe de misericórdia ao Estugarda.

Francesco Farioli surpreendeu ao operar uma autêntica revolução no onze para esta primeira mão dos oitavos de final da Liga Europa. O técnico italiano mexeu em oito peças face ao duelo com o Benfica, mantendo apenas Diogo Costa, Alberto Costa e Jan Bednarek. Tudo o resto foi novo — a começar pelo regresso, prometido na véspera, de Borja Sainz, acompanhado na frente por William Gomes e Terem Moffi. Atrás deles, Rodrigo Mora assumia o papel de maestro num meio-campo com Fofana e Pablo Rosario, enquanto Thiago Silva — na sua estreia absoluta na Liga Europa, após 105 partidas na Champions! — e Zaidu reforçavam o setor defensivo.

O Estugarda entrou mais forte, mais dominador, a tentar ditar a pauta em casa e a empurrar o FC Porto para o seu meio-campo. Foram minutos de algum desconforto para os dragões, que tiveram de se reajustar. Aos poucos, com marcações mais firmes e uma pressão alta a sufocar a saída de bola dos alemães, os portistas inverteram o rumo da história. E fizeram-no com uma autoridade assinalável — tão incisiva, que o Estugarda mergulhou numa crise de confiança em apenas meia dúzia de minutos.

Aos 21’, tudo começou num erro germânico. Nubel, o guarda-redes, repôs a bola em jogo, mas o passe saiu mal direcionado e traiçoeiro. Thiago Silva, atento como sempre, intercetou de imediato e lançou o contra-ataque. A bola chegou a Moffi, o nigeriano tabelou com Borja Sainz e, na devolução, disparou cruzado, seco, a fulminar as redes. Um golo com assinatura de predador e com o selo da eficácia portista.

Três minutos depois, novo alarme alemão. Outra vez Moffi, outra vez no espaço, desta feita a obrigar Nubel a uma defesa apertada. Mas o aviso estava dado.

Aos 27’, o segundo capítulo da noite azul e branca. Zaidu, num arranque fulgurante pela esquerda, recuperou uma bola, levantou a cabeça e cruzou para o coração da área. Lá estava Rodrigo Mora, o prodígio, a surgir para encostar com serenidade. Um golo de manual — recuperação, profundidade, frieza.

O FC Porto parecia dono e senhor do jogo, mas o Estugarda não desistiu. E foi precisamente num momento de desorganização que os alemães reduziram. A jogada foi confusa, cheia de ressaltos e indecisões dentro da área portista, até que Deniz Undav, de costas para a baliza, ganhou no físico a Thiago Silva e, à meia-volta, disparou para o 1-2, não dando hipótese a Diogo Costa.

No último fôlego da primeira parte, já em tempo de compensação, Nartey ainda tentou surpreender o internacional português com um remate de longe, bem colocado, que o guardião defendeu com segurança, segurando a vantagem portista até ao descanso.

A arte de 'congelar' alemães

O segundo tempo começou como o primeiro: mais Estugarda, mas a dar espaço para o FC Porto contra-atacar. Sentindo que o adversário crescia, 15 minutos depois da reentrada Farioli não facilitou: lançou a artilharia pesada, Froholdt, Pepê e Deniz Gul, sacrificando Mora, Sainz e Moffi. Mais tarde, também Gabri Veiga entrou em campo. A intenção era clara: dar mais ímpeto à equipa, congelar as ideias dos alemães e, sobretudo, manter a bola longe da área de Diogo Costa.

Resultou? O Estugarda ainda empatou, mas o lance não passou no crivo do VAR – Tiago Tomás estava fora de jogo. No essencial, o FC Porto, mesmo a sofrer no terreno do 4.º classificado da Bundesliga – não é coisa pouca –, mostrou competência no controlo da bola e do tempo, sem se deixar esmagar pela fúria de 60 mil almas nas bancadas, quase todas a puxar pelos da casa. Essa gestão emocional também trouxe oportunidades: Pepê, Gul e Fofana apareceram em situações promissoras. Gabri quase marcava e Diogo Costa negou o golo a Fuhrich. O objetivo principal, porém, foi cumprido com mérito: a vitória, adornada por uma dose de maturidade que os alemães, desta vez, não conseguiram igualar.