Banho de Farioli na conferência de imprensa (Foto: EPA/Fernando Veludo)
Banho de Farioli na conferência de imprensa (Foto: EPA/Fernando Veludo)

Farioli fez um pacto e transformou cicatrizes em medalhas

Quando o futebol se cruza com a matemática num pacto raro assente em feridas do passado. Eis o resumo da época do FC Porto. Eu sou o Jorge Pessoa e Silva e esta é a cronica semanal do meu Livro do Desassossego

Há cerca de um ano, Francesco Farioli nem terá percebido muito bem o que lhe passou por cima. Treinava o Ajax e tinha 9 pontos de vantagem para o PSV, no campeonato dos Países Baixos, a cinco jornadas do fim. Terminou a época… em segundo! Uma das derrocadas mais impressionantes na história do futebol europeu. Não foi apenas uma derrocada aparatosa, foi uma experiência com perguntas a mais e respostas a menos.

Há cerca de um ano, o FC Porto via-se ao espelho em tons de cinzento. E não se reconhecia. Em pleno Mundial de clubes, Francisco Moura garantia que os jogadoresestavam a fazer d e tudo para assimilar as ideias do treinador Martin Anselmi… Terá Moura sido apenas ingénuo? Ao fim de seis meses de trabalho, Anselmi ainda tentava que os jogadores entendessem a ideia de jogo...

Quando Farioli se apresentou no balneário foi para falar de cicatrizes. Das dele e das dos jogadores, que perderam identidade antes da confiança. Não eram só os maus resultados; era o desconforto do desencontro. E foi nesse ponto — entre as cicatrizes de um treinador e as de um grupo — que nasceu um pacto. Não proclamado, mas assumido e vivido em grupo: curar para vencer. Ou vencer para curar? Talvez acreditar para sarar. Porque não há cura que não se inicie sem um primeiro passo. E não há primeiro passo sem se acreditar no rumo. Querer sarar foi no Olival um ato de desobediência ao destino e de negação das críticas. Foi acreditar por dentro antes de o mostrar por fora. Saber que se é melhor do que o resultado.

Há uma reação no futebol, como na vida, de virar a página quando as coisas correm mal. De começar do zero. Como se o passado fosse um incómodo. Farioli e os seus fizeram o contrário. Assumiram as cicatrizes e começaram a construir a partir da mesma página. E cada vitória foi um ajuste de contas com o que ficara por resolver. No fundo, este título não é apenas uma soma de pontos. É um processo de regeneração. De jogadores como Pepê, por exemplo, que depois da depressão sentida e vivida, apareceu transfigurado esta época. Porque acreditou no líder, porque este também lhe pediu ajuda para curar a sua própria ferida. Porque tudo passou a fazer sentido, nas relações e no trabalho de campo.

E as cicatrizes foram transformadas em medalhas. E a vida deixa de ser um círculo fechado. Sem a derrocada no Ajax não haveria a festa no Dragão. A vida que teima em deixar abertas as portas pelas quais queremos passar.

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Há muitos estilos de liderança. E todas podem vencer. Farioli apresenta-se como um homem com cicatrizes. Que sofreu como eles estavam a sofrer. Estendeu a mão e desafiou os jogadores a serem muito maiores do que a desilusão. Mostrou-se homem, de carne e osso. Chama-se a isto empatia. E antes de se afirmar pela autoridade formal, foi escolhido pelos jogadores como o líder. Há líderes que têm quem lhes obedeça cegamente. Há outros que têm exércitos que dão a vida por eles. Farioli está neste grupo. Juntos provaram uma regra básica da matemática: desde que queiramos somar e multiplicar, menos com menos dá mais…

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