João Mário fala, em entrevista a A BOLA, num sentimento de dever cumprido no momento de deixar o clube onde jogou entre os oito e os 25 anos

«Farioli deu uma energia diferente, mas não podia recusar a oportunidade»

Após 17 anos de ligação ao FC Porto, João Mário abraçou, no último verão, a primeira aventura no estrangeiro. Trocou a Juventus pelo Bolonha em janeiro «para somar mais minutos». Só volta ao «clube do coração» se sentir que pode «acrescentar»

Feliz em Bolonha e casado de fresco, João Mário abre o coração em A BOLA para falar sobre a saída do FC Porto e da primeira época na exigente Serie A. Sentiu que precisava de deixar a «zona de conforto», mas continua atento aos dragões: «Fico feliz a vê-los a jogar!»

— Comecemos pelo presente. Chegou ao Bolonha em janeiro e não tardou a afirmar-se. Como tem sido a experiência?

— Decidi vir para cá para procurar mais minutos, principalmente. Fiquei muito feliz com a transferência para a Juventus e por ter ido para um grande clube europeu e mundial, com muito mediatismo, mas a verdade é que não tive os minutos que queria. Apesar de estar num grande clube, a minha felicidade também depende do tempo que jogo. Da parte do Bolonha, senti uma grande vontade de me terem no clube e de apostar em mim. Senti isso do lado do treinador [Vincenzo Italiano] que gosta bastante das minhas características. O estilo de jogo também me favorece. E não foi só pelo míster, mas também por toda a Direção. As coisas têm corrido bem e estou feliz aqui.

— Está há oito meses no futebol italiano. Antes deste empréstimo, as coisas não correram assim tão bem em Turim. Acredita que deu o passo certo após uma vida ligado ao FC Porto?

— Sinto. O FC Porto é a minha casa e será sempre o meu clube do coração. Estive lá desde os oito anos, fazer todo o processo de formação e chegar à equipa principal do clube que amo é um sentimento de enorme orgulho. Mas também senti que precisava de um novo desafio, de sair um pouco da minha zona de conforto. Era algo que podia fazer-me crescer, não só como jogador, mas como pessoa. Quando soube da oportunidade de vir para a Juventus, soube que não podia recusar. Não me arrependo nada da decisão que tomei.

Quando soube da oportunidade de vir para a Juventus, soube que não podia recusar

— Ao falar da saída do FC Porto, deixa transparecer um certo sentimento de dever cumprido…

— Sem dúvida. Fiz todo o processo nas camadas jovens do FC Porto, o que não é fácil. Começar tão novo e fazer o caminho todo entre a formação e a equipa principal... Quando era pequeno, tinha um treinador que nos dizia: «Isto é um funil e, de todos os que estão aqui, só um ou dois é que chegam à equipa principal... se chegarem.» Ficou-me sempre na cabeça. À medida que os anos foram passando, fui percebendo que de facto era muito difícil. Muitos colegas meus tinham uma qualidade enorme e foram saindo. Poder chegar à equipa principal e ter a oportunidade que o míster Sérgio Conceição me deu foi incrível e uma grande conquista. Poder ser campeão nacional, ganhar a Taça de Portugal, a Taça da Liga... Ganhei todos os títulos que podia ganhar a nível interno. Senti-me completamente realizado por poder ganhar tudo pelo clube onde cresci, que é a minha casa e que amo.

— Tocou aí nos bons momentos, mas também viveu outros menos positivos, desde logo a época passada. Entretanto, surgiu Farioli. Sentiu que ia ter menos espaço?

— Não. As primeiras impressões que tive do míster Farioli foram excelentes. Tive a oportunidade de trabalhar com ele apenas durante algumas semanas na pré-época, mas senti que realmente deu uma energia nova ao clube e à equipa. Era do que precisávamos depois da época passada. Todos sabemos que não foi a melhor, não vale a pena aprofundar. Mas não senti que ia ter mais ou menos oportunidades com ele, porque não houve tempo para perceber isso. A oportunidade que surgiu perante mim foi algo que, apesar de sentir que o míster Farioli podia trazer algo diferente, eu não podia recusar. A conversa que tivemos foi apenas de despedida. Desejou-me a maior das sortes para esta aventura. Agora, vejo todos os jogos do FC Porto e fico extremamente feliz, porque sinto a equipa confiante, com um estilo de jogo intenso. É o estilo de jogo que Farioli implementou, à imagem do que é ser Porto. Os resultados têm aparecido e espero que continuem assim até ao final da época, com o título de campeão.

Às vezes, digo à minha mulher: «Olha, hoje há jogo do FC Porto, não podemos ir ali ou acolá»

— Tenciona ir aos Aliados festejar se o FC Porto for campeão? O calendário não deve dar grande margem de manobra…

— Quando é o último jogo? [Fim de semana de 17 e 18 de maio] Pois, é complicado. O nosso campeonato acaba a 24 de maio, uma semana depois. Mas, se tivesse a oportunidade, ia. Às vezes, digo à minha mulher: «Olha, hoje há jogo do FC Porto, não podemos ir ali ou acolá.» Acompanho mesmo. Criei amizades para a vida e fico genuinamente feliz por ver que as coisas estão a correr bem individualmente e não só à equipa. Fico genuinamente feliz pela época que o FC Porto está a fazer e vou continuar a acompanhar. Não podendo ir aos Aliados, vou festejar aqui, certamente.

— Voltar ao FC Porto está nos planos para o futuro?

— Não sei, só o futuro o dirá. Como já referi, é o clube que amo e é a minha casa. Depende de vários fatores, porque também não quero voltar num registo em que já não possa acrescentar algo ao FC Porto. Ir só por ir, não quero. Mas, como é óbvio, não fecho as portas, porque é um clube pelo qual tenho imenso apreço e carinho. Não se sabe o futuro, mas ir apenas por ir é algo que está fora de questão. O FC Porto vai ser sempre a minha casa e o Porto é a cidade onde quero viver com a minha família quando terminar a carreira. É onde quero estar. Em termos de clube, se houver essa oportunidade e eu sentir que posso acrescentar algo de valor, sim. Se não, prefiro outro tipo de desafios.

Veja a entrevista a João Mário na íntegra