Presidente da Federação Portuguesa de Andebol

«Hoje, chegar às medalhas já não é um sonho, é uma realidade»

A viver um dos períodos mais fortes da história do andebol português, presidente da Federação acredita que Portugal pode lutar por medalhas no Euro-2028 e consolidar-se entre as melhores seleções. Promete espetáculo no Europeu que se realiza entre nós

— A Federação acabou de celebrar 87 anos e provavelmente não será fácil encontrar um momento de tanto vigor e tanta expansão da modalidade?

— Temos vivido anos muito importantes no andebol. Se me perguntar se há uma razão específica, acho que ninguém consegue apontar apenas uma. É um conjunto de fatores. Primeiro, o enorme empenho dos clubes, nomeadamente daqueles que têm estado nas competições europeias. Neste momento, temos duas equipas nos quartos de final da Champions e da European League. Isso não é pouca coisa para um país da nossa dimensão. Não temos a dimensão da Alemanha ou da França, nem a cultura desportiva dos países nórdicos. Também não temos o apoio estatal que existe em vários países de Leste, onde o desporto é encarado como uma projeção nacional. Temos de encontrar força noutros lados. E o papel dos clubes é extraordinário. Estamos também a viver uma geração muito forte de jovens talentos, o que é fundamental para os clubes e para as Seleções.

— Uma geração impressionante e muito jovem...

— A Federação montou uma estrutura mais consistente: centros de treino a Norte, Centro e Sul; deteção de talentos; acompanhamento técnico; capacitação constante das seleções jovens, desde os sub-16 aos sub-20, com muitos jogos internacionais e torneios. Hoje, muitos atletas chegam à Seleção principal com quase 100 internacionalizações nas camadas jovens. Isso faz toda a diferença. Também reforçámos áreas como o departamento médico, psicologia e nutrição. E aumentámos significativamente o investimento no alto rendimento. Entre 2016 e 2026 aumentámos em 116% o investimento no alto rendimento e nas Seleções Nacionais.

— Esse esforço financeiro é sobretudo da Federação ou existe apoio do Estado?

— Existe apoio do Estado através do IPDJ, claro, mas é apenas uma parte do financiamento. E neste momento há dificuldades. O contrato-programa de 2025 é igual ao de 2024, que já tinha sido igual ao de 2023. Estamos em maio e ainda nem sabemos qual será o apoio para este ano. Isso mostra bem a dificuldade de gerir uma federação tão dependente dos apoios públicos. Da forma como está montado o nosso sistema desportivo, que é muito baseado no voluntariado. Há milhares e milhares de anónimos que todos os dias estão nos pavilhões estão a fazer a sua actividade nos clubes, nas federações, nas associações regionais e portanto o apoio do Estado é, no nosso modelo, fundamental. Mas, dito isto, é muito importante que o setor privado também olhe para o desporto como uma mais valia. Nem só como uma responsabilidade social, porque é, mas como uma mais valia também para a sua posição. E isso não tem havido, infelizmente. Enfim, como é evidente, sou agradecido a todas as entidades que apoiam a Federação de Andebol. Esta ideia de que o desporto, e o desporto é a única atividade humana que, em simultâneo, vai a áreas como a saúde, seja física ou mental, é cada vez mais importante, a formação, a educação, o saber estar em comunidade, o respeitar as hierarquias, o respeitar o próximo, a igualdade de oportunidades. São todos iguais. São pobres, são ricos, vestem o mesmo equipamento, são iguais num determinado campo. A visibilidade e o sentido de pertença, seja da comunidade, daquela terra, do País... O valor que o desporto hoje traz ao País é brutal.

— E as empresas investem mais no desporto?

— Ainda pouco. O apoio privado é muito importante. Mas ainda não conseguimos demonstrar isso suficientemente à sociedade. Tenho defendido há anos que o Instituto Nacional de Estatística deveria fazer uma conta-satélite do desporto, para percebermos quanto vale realmente para o país. Porque 1€ investido no desporto representa muitos euros poupados na saúde e noutras áreas. E eu às vezes não percebo porque é que não há esse impulso. Recentemente li uma notícia que dizia que 1 euro investido nas cantinas escolares vale, segundo creio, 34 euros, para a sociedade na saúde. Agora imaginem! Não temos conseguido demonstrar que o desporto não é só aquilo que se passa naqueles 60 minutos, nos 90 minutos. Não, é muitíssimo mais que está em jogo.

— A Lei do Mecenato devia mudar?

— Tem de mudar. Tem de ser mais atrativa. Hoje ninguém dá apenas por dar. O desporto não pode viver só de apoios ocasionais ou de amizades. Há sempre um antigo atleta que agora é empresário, ou que teve alguém na família e apoia, mas o desporto não se pode basear só nesse tipo de apoios pontuais e de amizades. É importante e relevante, mas tem de ser algo mais estruturante e para ser mais algo estruturante. As empresas têm de sentir que a sociedade e o País lhes reconhece esse apoio, esse esforço. E se não for assim, continuamos sempre muito limitados e com muitas dificuldades. É preciso criar um modelo mais estruturado e atrativo para as empresas.

— E agora vai organizar o Europeu de 2028. Preocupa-o?

— Preocupa-me no bom sentido. Em 2016/17 aprovámos um documento chamado ‘Rumo 2028’, muito antes de surgir a hipótese do Europeu. A ideia era projetar dois ciclos olímpicos. Quando surgiu a possibilidade de organizar o Europeu, achei que era a altura certa. Já passaram mais de 30 anos desde o último Europeu em Portugal e os adeptos portugueses merecem ver a Seleção em casa. Agora, claro, faz ainda mais sentido porque a Seleção cresceu muito. O andebol ganha quando todos ganham. Não faz sentido haver apenas três ou quatro grandes países. É importante expandir a modalidade e criar novos polos fortes na Europa. Mas, Portugal, infelizmente, também não consegue organizar sozinho um Europeu, de andebol e de outras por falta de equipamentos. É muito comum haver vários países a conjugar esforços por isso somos os três países: nós, Espanha e Suíça.

— E o Europeu pode ajudar a aumentar a base de recrutamento...

— Sem dúvida. Temos apostado muito na escola, através de projetos como o ‘Handball for Kids’ e o ‘Masterplan’ da Federação Europeia. É na escola que estão os jovens do futuro. Criámos uma relação muito positiva entre clubes, autarquias e escolas. E eu sou radical na igualdade de oportunidades: todos os jovens deviam experimentar várias modalidades. O importante é praticarem desporto.

— E o Europeu pode deixar um legado?

— É exatamente isso que eu quero. Não quero apenas organizar três semanas de competição e depois fechar a porta. Quero deixar um lastro. Gostava que qualquer pessoa que chegasse a Portugal, apanhasse um táxi e perguntasse: ‘Qual é a segunda modalidade do país?’ ouviu-se imediatamente: ‘O andebol’.

— Tem de ser um espetáculo?

— Sim! Organizámos o Mundial. Mas hoje as exigências de organização são outras:, de visibilidade, de televisão, de layout, de público, de fan zones, é muito diferente. É muito mais do que a competição. É preciso mais. Digo sempre que as pessoas que vão ver um jogo da Seleção ou uma fase final, ou um final da Taça Portugal ou o que for organizado pela Federação, têm de sair mais felizes do que entraram, mesmo perdendo. Tem de ser agradável, seguro, levar crianças...

— Tem de sentir que faz parte da festa?

— Exato. Tem de fazer parte daquele espetáculo. E se conseguirmos isso, estamos a ganhar alguma coisa. Depois o jogo é jogo,começa sempre zero-zero e logo se vê como é que acaba. Mas o que quero é ver as pessoas saírem satisfeitas com o jogo, com aquilo que está à volta, com a música, com a animação. Temos de ter capacidade de envolvimento e criar experiências.

— Quando o professor Paulo Pereira chegou, poucos imaginariam este crescimento da Seleção.

— Não foi fácil no início. Quando o convidei, em 2016, tivemos uma longa conversa no Algarve. E a única coisa que lhe pedi foi ambição. Mas também lhe disse: ‘Temos tempo’. No desporto toda a gente quer ganhar imediatamente, mas os processos precisam de tempo. Lembro-me de um jogo na Alemanha em que perdemos por 11 golos. E eu disse-lhe: ‘A maior glória do homem não é nunca cair, é levantar-se depois de cada queda’. Depois fomos crescendo. Em 2020 qualificámo-nos para uma fase final e tudo mudou. Desde então, Portugal tem estado presente em Europeus, Mundiais e Jogos Olímpicos. Por isso, renovámos, para continuar o projeto.

— A meta para 2028 é ser campeão da Europa?

— Temos de ter os pés assentes na terra, mas ambição não nos falta. Hoje, lutar pelas medalhas é uma realidade. Já estivemos perto várias vezes. Ganhámos à Dinamarca, que acabou campeã do mundo. Temos qualidade, competência técnica e atletas ao mais alto nível. Claro que há condicionantes — nem sequer vamos jogar o fim de semana final em Portugal por falta de pavilhões com dimensão adequada —, mas acreditamos muito nesta geração.

— E o andebol feminino?

— Tem um enorme potencial. Entre 2020 e 2025 tivemos um crescimento de 63% no número de atletas femininas. Estamos a trabalhar muito na base, nos centros de treino e na formação. Mas é verdade que precisamos de um campeonato mais competitivo e mais visível. O que não aparece não existe. A entrada de grandes clubes ajuda muito nesse processo.

— Vai conseguir encher o Pavilhão Atlântico no Europeu?

— Vamos. É um grande desafio, mas é para isso que cá estamos. A Seleção neste momento é adorada em Portugal inteiro. As pessoas falam do andebol, acompanham os jogos, sofrem com a equipa. Acredito genuinamente que será o melhor Europeu dos últimos anos.

— A sua liderança mais consensual ajudou este crescimento?

— Hoje as sociedades são mais complexas. As pessoas querem participar, querem ser ouvidas. Eu acredito muito no diálogo e no envolvimento. Nem sempre há consenso, claro, mas as pessoas têm de sentir que fazem parte do projeto. Não me interessa alimentar guerras ou conflitos. Somos poucos no andebol para ainda nos dividirmos mais.

— Este é o seu último mandato. Que legado gostaria de deixar?

— Gostava de deixar o andebol ainda mais consolidado. E claro que quero chegar às medalhas. Queremos voltar aos Jogos Olímpicos em LA2028 e lutar pelas medalhas no Europeu de 2028. É um enorme desafio para um país de 10 milhões de habitantes, sem a cultura desportiva e os recursos de outros países. Mas acredito muito no caminho que estamos a fazer.

— Quando formos campeões da Europa, está convidado a voltar...

— Antes disso talvez campeões do mundo!

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