Fábio Coentrão tem herdeiro para não deixar cair dois nomes no esquecimento
Apelido de Fábio, faro de Hélder, espírito de Paulinho e com origem, naturalmente, nas Caxinas. É a apresentação de Miguel Coentrão, primo do antigo lateral-esquerdo. O ponta de lança do Silves de 19 anos procura inspiração no familiar e, claro, seguir-lhe as pisadas.
O craque, de primeiro nome José, nasceu em 2006 e, por isso, praticamente não tem memórias em que o primo não seja um grande do futebol português. «Obviamente foi uma inspiração, desde pequeno, e faz-me acreditar que também é possível atingir os patamares que alcançou. Hoje, é uma motivação ver que ele também começou do zero e, com muito esforço e dedicação, conseguiu chegar onde queria. Eu também acredito que é possível», diz o avançado a A BOLA.
Primos, primos, idiossincrasias à parte. O mais velho é Fábio, o mais novo é Miguel. O graúdo é canhoto, o miúdo é destro. E, se o vetusto era defesa — afirmou-se como lateral no Benfica, Real Madrid e Seleção, depois de ter feito toda a formação como extremo —, o benjamim é avançado. Cada um pelo seu caminho, mas com um objetivo em comum: elevar o bom nome das Caxinas pelo mundo. É para isso que Miguel garante trabalhar «todos os dias».
Depois de na formação ter passado por emblemas como Varzim, Leixões, Trofense e Esposende (onde ainda em idade júnior teve a primeira experiência num plantel sénior), José Miguel Gomes Coentrão vive agora o primeiro ano (de forma integral) no mundo dos crescidos, tendo partido à aventura longe da sua tão querida terra — como, em tempos, viu o seu primo fazer.
Na primeira metade da época, Miguel (é assim que prefere ser chamado) marcou quatro golos em 11 jogos pelo Águias do Moradal (do concelho de Oleiros), clube da distrital de Castelo Branco, no qual teve oportunidade de se estrear na Taça de Portugal e que lhe permitiu dar o «salto» para o Silves, da 1.ª Divisão distrital da AF Algarve.
«No mercado de inverno, transferi-me para o Silves, pelo nível de condições que o clube estava a dar e a nível futebolístico também passei a ter maior visibilidade. Neste momento, estamos na fase de apuramento de campeão, é uma boa montra», diz sobre a nova aventura, num plantel experiente para o contexto distrital.
No Silves está, por exemplo, Sérgio Semedo, internacional cabo-verdiano e que jogou a Liga Europa pelo Marítimo (2012/2013), tendo brilhado também em clubes como Gil Vicente e Portimonense. O médio tem ajudado Miguel a maturar. «Tenho alguns colegas de equipa experientes, que conseguiram ser bem-sucedidos no futebol. O Semedo é um deles. Aprendo muito com ele, dá-me muitas dicas. É um pilar do nosso grupo e eu gosto de aprender com malta que já esteve lá em cima», agradece.
572 são os quilómetros que separam as Caxinas de Silves. «Saí um bocado da minha zona de conforto», admite o jovem avançado, que, sempre que pode e apesar da longa distância, volta a casa. «Eu adoro viver aqui, adoro estar cá nem que seja por um dia. Fazia muito isso quando estava em Castelo Branco, vinha por um dia e voltava logo. É sempre bom. É onde nasci, é a minha cidade», conta, precisamente, com os pés na areia da Praia dos Barcos, onde dezenas de meninos jogam futebol em couracho.
«O Fábio está mais ligado à pesca»
Com o primo em modo hibernação para tudo o que é futebol, Miguel revela-nos que o antigo internacional português (em 52 ocasiões) leva agora uma vida dedicada à pesca. «Atualmente, a nossa relação é boa, mas mais distante do que já foi, porque eu estou fora e ele também está mais ligado à pesca e não tanto ao futebol», conta.
O avançado adianta ainda que esteve emigrado em Madrid, em criança, quando Fábio jogava nos merengues. É, no entanto, no outro gigante da capital espanhola que atua um dos jogadores com quem Miguel se identifica mais: Julián Álvarez.
Apesar de sublinhar que olha para o primo «como uma fonte de inspiração, ainda mais por ser família», Miguel olha mais para os avançados. Aliás, apesar do apelido e genes, o caxineiro com quem mais se identifica não é o primo e sim Hélder Postiga.
Além disso, o menino tem uma admiração especial por outro antigo leão, percebida no seu estilo de jogo. «Revejo-me no Viktor Gyokeres, que procura bem a profundidade. Gosto muito do jogo dele e eu também sou um jogador que gosta de atacar a profundidade e as costas dos adversários.»
«Epá, este gajo é das Caxinas!»
O cantinho à beira-mar que divide Vila do Conde e Póvoa de Varzim e de onde saíram craques como Hélder Postiga, Paulinho Santos e André André tem uma aura muito particular. Quem é de lá sabe. Quem não é logo entende o que representa as Caxinas.
«Os caxineiros são sempre muito parecidos, não necessariamente no estilo de jogo, porque obviamente todos os jogadores têm as suas características, mas a personalidade é muito idêntica em todos. É um ADN que temos e levamos para seja onde for. Mostramos de onde somos e eu acho isso incrível», enaltece Miguel, visivelmente orgulhoso.
«Sentimos o futebol de forma diferente. Não é só a jogar, temos muita raça. As pessoas sentem logo a diferença entre um jogador daqui e de outro sítio e não é preciso muito para descobrirem e dizerem: 'Epá, este gajo é das Caxinas!'», prossegue os elogios aos conterrâneos e ao local de nascimento.
Miguel recorda ainda que deu os primeiros passos no futebol no Matriz, da Póvoa de Varzim, que, «curiosamente, foi onde o Fábio também começou quando era mais pequeno». Seguiram-se 52 jogos pela Seleção e títulos (muitos) em Portugal e Espanha.